Laços de Família, 16 anos depois


Texto: Anna Vitória Rocha

Sou noveleira desde sempre, e quando digo sempre, quero dizer que tenho uma foto vestida de cigana Dara, personagem de Explode Coração, que ficou no ar entre 1995 e 1996. Eu tinha dois anos. Não tenho lembranças dessa novela para além da fantasia (que por semanas eu insisti em usar no dia-a-dia), mas nunca me esqueci de Por Amor, que foi ao ar em 1998, quando eu tinha quatro anos de idade. Em 2000 foi ao ar Laços de Família, e vão aí dezesseis anos que eu digo pra todo mundo que essa é uma das minhas novelas preferidas de todos os tempos.

Tive uma infância pouco ortodoxa e quase sem supervisão na frente da TV, o que hoje eu acho mesmo meio estranho e inapropriado, mas eram os anos 90 e acho que meus pais nunca realmente pararam pra pensar sobre isso. As novelas simplesmente faziam parte da nossa rotina familiar, e acho que minha fixação por elas faz parte da minha fixação por histórias, por gente, por romance, drama e grandes sagas de família – não é à toa que quando não estava na frente da TV, eu estava com a cara enfiada em algum livro atrás dessas mesmas coisas.

Manoel Carlos era meu autor favorito porque ele também gosta muito de drama (MUITO DRAMA) e histórias familiares. Gostava das suas novelas porque elas fugiam do maniqueísmo que era muito comum nas outras tramas, que seguiam uma estrutura de mocinhos e bandidos, com uma história de amor central sempre meio ameaçada e às vezes algum crime para ser resolvido. No mundo do Manoel Carlos, não. Ele gosta de contar histórias do cotidiano das famílias de classe média alta do Leblon, misturando longas sequências de conversas insignificantes nos cafés da manhã a situações extremamente dramáticas, intensas e até absurdas, tipo uma mãe que em segredo troca o bebê morto da filha pelo seu, que nasceu saudável (Por Amor), e mãe e filha disputando o amor do mesmo homem (Laços de Família).

Eu adorava isso.

Ter a chance de reassistir Laços de Família no canal Viva, 16 anos depois da primeira vez, foi como realizar um sonho. Fiquei ansiosa para a estreia como se fosse Harry Potter, e no dia em que o primeiro capítulo foi exibido nem parecia que tinha se passado tanto tempo assim: eu ainda lembrava dos acontecimentos e diálogos com detalhes e até a trilha sonora continuava sendo parte da minha vida, talvez a única trilha sonora de novela que não acabei odiando com o tempo. O peso dos anos aparecia com aquele estranhamento divertido das marcas da época, como os celulares – que variavam entre o famoso tijolão e o Motorola Star Tac, símbolo máximo de status no início dos anos 2000 –, as roupas, e os sinais dos tempos estranhos que já vivemos.

No primeiro capítulo, por exemplo, Edu (Reynaldo Gianecchini) bate no carro de Helena (Vera Fischer) porque estava falando no celular enquanto dirigia, e durante todo o episódio os personagens debatem se deve ou não ser proibido por lei conversar no celular ao volante – numa época longínqua em que celulares estavam apenas começando a fazer parte da vida das pessoas e não existia nem legislação que considerasse seu impacto no cotidiano. Momentos.

Com o passar dos dias, fui deixando de achar a novela engraçada pra acreditar que ela era simplesmente… errada. Além de ruim. Apesar de ser fã antiga, sempre enxerguei os defeitos do Manoel Carlos, sendo os principais os diálogos empolados e pouco verossímeis e, bem, o machismo. As tramas também são mesmo ruins e mal construídas, de um jeito que fica difícil acreditar naquelas histórias ou levá-las a sério. Ainda assim, pra mim o principal problema é a lambança que ele faz quando tenta retratar os famigerados laços de família.

Vamos lá: a novela tem esse nome porque retrata, hm, dinâmicas familiares e a importância dos laços construídos entre as pessoas nesses núcleos. Se não podemos afirmar com certeza que sua intenção é romantizar esse tipo de relacionamento, a gente pode pelo menos dizer que o Maneco quis retratar as famílias como sendo algo bonito e bom pra vida das pessoas. No entanto, ao tentar fazê-lo, é como se o autor sofresse de uma espécie de dissonância cognitiva, porque ele mostra o que existe de mais tóxico nas relações familiares, nos apresentando famílias bem infelizes, cada uma à sua maneira, mas fazendo isso sob uma ótica positiva, como se certos comportamentos fossem normais e quase nobres, com bossa nova tocando ao fundo para amenizar o golpe.

 

Exemplo #1: o triângulo amoroso em família

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A trama principal conta a história do triângulo amoroso vivido por Edu, Helena e Camila. Helena e Camila são mãe e filha, e a mãe, vinte anos mais velha, começa a namorar Edu quando a filha está num intercâmbio para a Inglaterra. Alguns meses depois Edu e Camila finalmente se conhecem e ela acaba se apaixonando por ele. Complicado, né? Helena logo percebe a afinidade entre os dois e o interesse da filha, e pouco a pouco vai se afastando do namorado até oficialmente abrir mão dele para que Camila seja feliz. Poxa, que lindo, que nobre, que altruísta, isso só laços de família mesmo, hehehe, você deve estar pensando. E até poderia ser, mas não.

Nessa confusão, o que acaba ressaltado é a competição que nasce entre mãe e filha por causa de um homem, bem coerente com o discurso que aparece várias vezes na novela de que mulheres são naturalmente rivais. Mesmo Helena tentando construir um diálogo sincero com Camila sobre o sentimento das duas com relação ao Edu, Camila age pelas costas da mãe, é desleal, e usa os pontos fracos de Helena para se fazer presente na vida dele e conquistar o moço (mais por ser pentelha e não sair do pé do boy carente do que qualquer outra coisa #teamhelena) e, principalmente, sua família, que exerce grande influência nas suas ações.

Exemplo #2: a manipulação em família

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Edu perdeu os pais ainda criança e foi criado, junto da sua irmã Estela (Julia Almeida), pela sua tia Alma (Marieta Severo), irmã da sua mãe. Alma sempre usa desse fato para praticar chantagem emocional com os sobrinhos, como se eles estivessem em dívida com ela e tivessem que pagar deixando-a controlar suas vidas particulares. Ela palpita, interfere e manipula situações pra que Edu desencane de Helena e resolva ficar com Camila, puxa-saco e onipresente na casa de Alma. Como ele é acomodado e viciado em atenção, fica fácil desistir do relacionamento difícil que a família não aprova e ir pelo caminho mais fácil. Isso, claro, até Camila ser diagnosticada com leucemia e Alma tentar convencer Edu a deixá-la, já que ele é muito bonito e incrível (risos) pra desperdiçar sua juventude do lado de uma garota doente.

Edu, por sua vez, embora sempre ceda às manipulações da tia, aceita tranquilamente ser sustentado por ela e sempre que tem a oportunidade a acusa de ser invejosa e lembra que ela não foi capaz de ter filhos de sangue, por isso vive eternamente na sombra da vida da irmã que morreu. Fofo ele, né?

Exemplo #3: exploração em família

ACapitu

Amo Capitu e vou protegê-la

Outro núcleo complicado é o de Capitu (Giovanna Antonelli): mãe solteira e responsável por sustentar os pais idosos, Capitu trabalha como garota de programa. No início da novela os pais não sabem como ela arranja tanto dinheiro e não fazem muito esforço para descobrir. Seu pai até desconfia que há algo suspeito na vida da filha, mas prefere respeitar o seu espaço. Já sua mãe, Ema (Walderez de Barros), aceita sem muitos questionamentos a explicação de que a filha é empreendedora (mesmo nos anos 2000 isso já era um título meio vazio). Para ela está tudo bem, contanto que Capitu continue pagando pelos eletrodomésticos novos, a feira da semana e qualquer outra coisa que ela precise.

Quando ela finalmente descobre de onde vem o dinheiro de Capitu, Ema acaba incentivando a filha a ir morar com Orlando, um cliente louco e abusivo que diz estar apaixonado por Capitu, disposto a lhe sustentar se ela resolver ficar com ele. Novamente, para sua mãe, basta saber que ele vai continuar sustentando a casa.

 

São três exemplos que mostram, primeiro, como as personagens femininas da novela se comportam de forma problemática, interesseira e sempre rivalizando com outras mulheres. Além disso, todos os laços de família aí presentes são tóxicos, pautados em egoísmo, manipulação e abuso emocional.

Meu incômodo não é porque acredito que todas as famílias são felizes e devem ser representadas como num comercial de margarina. Relações familiares são complexas, estranhas, e as pessoas com que compartilhamos nosso sangue fazem parte daquilo de melhor e pior que somos e temos. Eu não teria problemas com uma novela que só mostrasse relações familiares péssimas se essa fosse a premissa. Meu problema é contar essas histórias como se fossem bonitas, confundindo comportamentos nocivos como primordialmente amorosos e, por isso, perdoáveis.

Os personagens de Manoel Carlos são em sua maioria superficiais e estereotipados, mas são extremamente humanos quando decidem ser horríveis. O problema é que essa faceta obscura e suja que eles carregam é muito bem disfarçada com um verniz de gente bem resolvida e feliz, do tipo que pode até ter alguns defeitos, mas faz tudo por amor. Amar não é isso, e laços de família, assim grafados em dourado, dignos de uma canção do Tom Jobim, também não.

Revisitar histórias favoritas da sua infância 16 anos depois: sugiro que evitem. A única coisa que permanece é que Camila continua sendo a pior personagens de todos os tempos da história das novelas brasileiras.

 

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Sobre Anna

Anna Vitória tem 21 anos, e é mineira com um coração de pão de queijo, mas jura que tem alma carioca. Estuda jornalismo, mas queria mesmo ter uma banda e ser rockstar. É feita de açúcar, curiosidade e chuva, meio hippie e muito mórbida - e por isso tem certeza que vai morrer soterrada pelos próprios livros.