La Ilusión


Texto: David de Oliveira

Quando conheci a História de Esperança Garcia na sessão infantil da Livraria da Viela, os meus problemas enormes perderam um pouco de sua grandeza. Conhecer os relatos de uma mulher, negra, e que viveu no Brasil no século XVIII, marcado pelo regime desumano da escravidão, foi uma experiência que eu precisava ter. É claro que eu já sabia da construção histórica do nosso país, mas naquele momento eu passei a observar essa construção de uma forma mais aproximada.

Viajar em uma boa leitura é a melhor forma de sair da sua realidade e  encontrar-se com e nas palavras da autora ou do autor. Principalmente quando deseja esquecer-se de alguma coisa. E no meu caso, de alguém. Porque dói muito quando a vida te decepciona de alguma forma. E você fica naquela de que nunca mais será feliz novamente. De alguma forma você perde um pouco da sua esperança no viver.

Esperança Garcia foi criada em uma fazenda de algodões administrada por padres Jesuítas, onde aprendeu a ler e a escrever (um fato extremamente raro pela sua condição), mas teve seu destino mudado graças às reformas pombalinas e à expulsão dos representantes da Companhia de Jesus do Brasil. Foi parar em uma fazenda de um homem que demonstrava mais a sua crueldade e sua perversidade do que os antigos “donos”. Viver sobre a batuta da escravidão se tornou bem mais difícil para Esperança quando a separaram dos seus filhos e do seu marido.

Nossos amigos de língua espanhola têm um significado bonito para a expressão la Ilusión. Para eles, esse termo tem a possibilidade de receber um sentido mais amplo, que se remete a crença, fé, procura, vontade, busca… Esperança!

Nós, que tratamos a ilusão como uma causa perdida, deveríamos parar e refletir um pouco sobre por que eles tratam la ilusión com mais alegria e determinação do que tratamos a nossa: uma simples estrada para a desilusão.

Depois de folhear aquelas páginas, minhas desilusões amorosas pareciam tão pequenas que senti vergonha dos meus olhos inchados. Esperança Garcia escreveu uma carta direcionada ao Presidente da Província de São José do Piauí, reclamando dos maus tratos con la ilusión de ver a sus hijos y a su esposo novamente. Ela esperou até a morte para ter sua vida de volta. E eu visualizei a morte como única saída para a minha vida. Mesmo cometendo o erro primário do anacronismo histórico, posso afirmar que meus ancestrais tiveram problemas muito maiores que os meus. É claro que isso não me tira o direito sagrado de sofrer por alguém, entretanto, me faz refletir sobre a importância de superar cada um desses meus “grandes” sofrimentos do século XXI.

Eu ainda terei várias ilusões com futuras desilusões amorosas, e ainda verei algumas miragens na minha vida. Com toda certeza acreditarei em coisas impossíveis, e chorarei muito quando perceber que tudo não passou de uma fantasia. Mas depois daquele livro, depois daquela história…

“Yo siempre voy a tener la ilusíon de vivir”.

 

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Sobre David

David é um professor de História que divide a sua vida em estudo, trabalho e diversão, necessariamente nessa ordem (mentira). Curioso e admirador da cultura urbana popular. Como bom carioca, ele gosta de se misturar em todo lugar que vai.

  • Ana Priscila

    Cunhado, que texto lindo! Está escrevendo cada vez melhor. Parabéns!!!