La Belle Sauvage – um conto de fadas moderno


Foto e Texto: Mia Sodré

A primeira vez que li Philip Pullman eu estava indo visitar minha avó no hospital. Ela estava internada por causa de uma cirurgia que teria de fazer pelo câncer no estômago que tinha. Apesar de ela estar sempre alegre, nós sabíamos que ela não sairia dali. Meu relacionamento com a minha avó sempre foi ótimo, mas eu nunca pensei que realmente fosse perdê-la algum dia. A ideia de que a minha avó poderia não estar mais ali simplesmente não fazia sentido pra mim. Porém, todo mundo tentou não deixá-la deprimida e a gente concordou em só falar de coisas boas com ela. Eu honestamente não poderia fazer isso sozinha, então peguei um livro pra ler durante a viagem até lá pra tentar desanuviar a mente e não me sentir tão pesada no momento em que fosse falar com a minha avó. O livro escolhido foi o primeiro volume da trilogia Fronteiras do UniversoA Bússola de Ouro é um livro maravilhoso, cheio de aventura, mistério e a esperança de que se fizermos as coisas certas tudo vai se resolver no final.

Foi com esse espírito que cheguei pra ver a minha avó, e deu tudo certo. Consegui me controlar, não chorei e falamos de assuntos bacanas e bobos, mas que não fizeram com que aqueles últimos momentos com ela se tornassem terríveis. Há quem diga que a literatura é um tipo de fuga da realidade em que vivemos. Talvez seja mesmo. Mas sendo fuga ou não, o fato é que há certos livros que nos ajudam bastante a lidar com as situações terríveis que temos de enfrentar durante a vida.

Terminei a trilogia já com saudade da escrita do Pullman e do universo da Lyra e do Pan, mas sabia que não havia outros livros a serem publicados, então sosseguei e prometi relê-los um dia. Porém, ano passado a Companhia das Letras anunciou que um novo livro do Pullman seria publicado! E que se passaria no mesmo universo da trilogia anterior! Confesso que dei alguns gritinhos de emoção porque sabia que encontraria um livro maravilhoso, com um universo mágico do qual eu sentia saudade.

O livro finalmente chegou aqui em casa e o levei pra praia para ler. Fomos à Garopaba passar a virada do ano e houve dias em que eu perdi um passeio ou outro porque simplesmente não conseguia me desgrudar do livro. La Belle Sauvage (400 páginas, 2017) é um livro mágico. Obviamente que “mágico” é um adjetivo muito amplo, mas a sensação que senti ao lê-lo foi de que universos paralelos de fato existem e que a magia pode ser apenas algo que ainda não compreendemos no mundo, mas que está por aí sem ser explicada por ninguém.

A história se passa na Oxford de um universo paralelo e o protagonista é um menino de onze anos chamado Malcolm que ajuda seu pai a servir os fregueses da estalagem onde eles moram. Por ter sido criado naquele ambiente, Malcolm cresceu curioso e atento, sempre ouvindo o que as pessoas lá conversam sem ser percebido. Certo dia três homens muito estranhos aparecem lá e começam a fazer perguntas a ele sobre um convento que tem ali por perto e querem saber se as irmãs receberam alguma criança, algum bebê, para cuidar. Malcolm não sabia nada a respeito disso, mas obviamente foi direto falar com as freiras pra saber que história é essa. Então ele conhece a pequena Lyra, uma bebê de seis meses que foi deixada sob os cuidados das freiras. E coisas muito estranhas envolvem essa menina.

Além da trama de mistério e gente querendo sequestrar a menina Lyra (e Malcolm saindo com seu barquinho – que se chama La Belle Sauvage – pra tentar salvar a menina), o Pullman também colocou uma ótima crítica social na história: até que ponto a religião pode interferir na sociedade? Não vou falar muito sobre isso para não dar spoilers, mas essa é uma questão incrivelmente bem abordada e todos deveriam ler esse livro nem que fosse só para entender o que o Pullman fez a respeito desse tema.

Pense no que está em jogo. O direito de falar e pensar com liberdade, de realizar pesquisas sobre qualquer assunto sob a luz do sol, tudo seria destruído. Vale a pena lutar por isso, não acha?

É um livro lindíssimo, tanto fisicamente quanto em termos de narrativa, e mal posso esperar pelo segundo volume! (Lembrando que, apesar de ele se passar no mesmo universo da trilogia de Fronteiras do Universo, ele não é uma continuação e pode ser lido separadamente sem comprometimento algum da história.)

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