Karl Ove Knausgård e o constante retorno ao lar


Texto: Lidyanne Aquino

 

Embora não conheça a Noruega, imagino que seja um lugar muito frio, tomado pelo céu encoberto, cheio de lagos e rios, uma paisagem meio deserta e desoladora. Um pouco como a capa de A morte do pai (Volume 1 – Minha luta), de Karl Ove Knausgård, uma imagem que chega a provocar um frio na espinha e o movimento involuntário de puxar as mangas do casaco. Nesse cenário de inverno, Knausgård tenta se esquentar se despindo da própria pele. Sua narrativa fala pura e simplesmente sobre a vida. Com muitos rodeios, infinitas análises e muita minúcia nas descrições. E sobre como todos os caminhos acabam nos levando, de certa forma, de volta ao lar.

Não me parecia sedutora a ideia de um homem falando sobre a própria vida ao longo de 512 páginas. Por acidente de certas promoções de e-books, o primeiro volume caiu no meu leitor digital. Um tijolão de um cara contando – com muita habilidade – sua nada extraordinária vida. A série Minha Luta é composta por seis volumes – os três primeiros já tem tradução e o quarto será lançado no fim deste mês, na FLIP.

O seu processo de criação parte de pequenas memórias. Ao tentar remontar esses fatos, ele traz reflexões do momento vivido. É um escritor sem grandes fatos bombásticos, repensando sua existência e como isso se reflete na realidade de alguém que, por acaso, também é romancista. A isca está na sua forma de colocar tudo isso em cena. Tem algo perdido nas entrelinhas que te puxa e intriga pela crueza com que é apresentado. Sem mascarar nada, sem tentar deixar bonito antes de exteriorizar.

“Para o coração a vida é simples: ele bate enquanto puder. E então para. Cedo ou tarde, mais dia, menos dia, cessa aquele movimento repetitivo e involuntário, e o sangue começa a escorrer para o ponto mais inferior do corpo, onde se acumula numa pequena poça, visível do exterior como uma área escura e flácida numa pele cada vez mais pálida, tudo isso enquanto a temperatura cai, as juntas enrijecem e as entranhas se esvaem.”

Assim começa o primeiro volume: um longo ensaio sobre a morte, alinhando a perspectiva do jovem Karl Ove ao visualizar um corpo morto no noticiário e sua noção de morte enquanto adulto. O enredo não é linear e é cheio de escalas entre passado e futuro. Sabemos que o autor é adulto, casado e pai de duas meninas e um menino. Ele faz longas digressões sobre sua infância e adolescência. Está tudo lá – como a criança vê o mundo e como este se molda com a chegada da adolescência. Karl Ove já tinha gosto pela literatura, fala sobre seu primeiro envolvimento com política, a primeira paixão, o longo rolê para chegar à festa de virada de ano com seu amigo Jan Vidar (que inclui a tentativa de levar bebida alcóolica às escondidas para o local), o primeiro porre, a banda fracassada que montou com os amigos do colégio.

Desde o início notamos o quanto a figura do pai o amedronta. Dessa relação parece nascer um dos maiores embates do autor – se esforçar para ser agradável e não decepcionar ninguém, e o quanto isso o incomoda. Ele também não entende a forma de educar do pai e descreve a mãe como alguém um tanto ausente. Enquanto o irmão aparenta firmeza e seriedade, Karl Ove é o oposto. Sua fragilidade nunca é contida e sempre fica exposta a quem quiser ver.

É muito duro ler alguém que deseja a morte do pai, e pudera, socialmente isso é inaceitável. Ainda mais um pai que nunca deixou que lhe faltasse nada. Munido pela repulsa crescente ao vê-lo se separar da mãe e afundar no álcool, ele destila o ódio e o quanto é aliviante vê-lo morto. Aquele desejo profundo que qualquer um teria, mas jamais manifestaria pois o julgamento seria garantido. Ao mesmo tempo, esse corpo sem vida provoca incômodo. Há o desconforto de nunca mais poder trocar uma palavra com ele e a angústia de perder um ente familiar, que o faz chorar de forma descontrolada. Anos mais tarde, com os seis livros lançados, ele fala sobre o quão difícil foi ler os diários do pai anos mais tarde e descobrir que o álcool foi a sua forma de escapar das angústias da vida.

Mas já na sequência, Um outro amor (Minha Luta – Volume 2), ele passa a ter outra perspectiva. Agora a paternidade desponta para si. Começa, inclusive, com um passeio familiar e toda a problemática de lidar com três crianças e todas as suas exigências. A sequência é dedicada quase que por completo à família. Knausgård abandona o relacionamento de anos com Tonje e parte para Estocolmo, onde acaba se relaciona com Linda, futura esposa e mãe de seus filhos. O autor demonstra muita habilidade na desconstrução.

O namoro com Linda aparece como uma iluminação aos dias sombrios e Estocolmo. Ser estrangeiro não é fácil e ele odeia o jeito perfeito e politicamente correto de lidar com tudo dos suecos. Sua amizade mais sólida é com Geir (por sinal é o responsável pelos melhores diálogos da obra), mas fora isso ele vive uma fase introspectiva e solitária. Você lê pensando que não existe casal mais perfeito quando, de repente, Knausgård parece dizer: amigos, a sorte de um amor tranquilo não existe. As demonstrações de afeto e a conexão deles são intensas e rendem belas passagens, mas descobrimos que Linda é uma pessoa deveras dependente e de temperamento difícil. Ela ainda sofre sequelas dos problemas psicológicos que teve em outro momento e, ao contrário de Karl Ove, odeia ficar sozinha. Por um lado é bom ver a quebra do casal idealizado, por outro isso torna tudo mais real, evidenciando que sim, todo relacionamento tem seus momentos difíceis e eles podem ser mais frequentes do que se imagina. O próprio autor, por sinal, não está isento – ele também tem um temperamento difícil.

“Quando sabemos muito pouco, é como se esse pouco não existisse. Quando sabemos muito, é como se esse muito não existisse. Escrever é retirar da sombra a essência do que sabemos. É disso que a escrita se ocupada. Não do que acontece aí, não das ações que se praticam aí, mas do aí em si. Aí, é esse o lugar e o propósito da escrita. Mas como chegar a ele?”

E temos o ofício do escritor, que torna a narrativa tão sedutora. E nos pequenos detalhes os dois livros se complementam. Embora adote a não-linearidade, não há riscos de confusão para o leitor. Suas impressões são muito pertinentes e Knausgård deixa tudo articulado de modo a fechar arcos. Um ciclo completo e todo ligado aos nossos laços mais próximos. Todo o desenrolar de Um outro amor também é assim, existe sempre a volta à Linda, e aos filhos Vanja, Heidi e John. Traços que sinalizam o quanto nossas questões estão ligadas às vivências familiares. O caminho é este – Karl Ove sai em busca de si mesmo, peregrina muito, questiona, expõe seus sentimentos, e finaliza sempre de volta ao lar – seja ao retornar para a cidade onde o pai morava para velá-lo, ou quando a mãe é subitamente internada e ele se vê de volta à família. Como se o arco da vida, assim como na narrativa, e apesar dos embates, eventualmente se fechasse.

Sua literatura nos mostra que a vida é isso – um negócio que esbanja simplicidade na superfície, mas é cheio de tortuosidades que nos causam desconforto. E poucas pessoas são tão habilidosas em falar sobre o mal-estar espiritual quanto Karl Ove.

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Sobre Lidyanne Aquino

Lidyanne nasceu no Mato Grosso do Sul (isso mesmo, DO SUUL!), tem 25 anos, formou-se em Jornalismo na Cásper Líbero e terminou gostando desse caos que é São Paulo, de onde não saiu mais. Abandonou a juventude por não gostar nada de virar a madrugada na balada, mas já guardou a última mesa do bar porque conversa demais. É doente por literatura e cinema, cultiva e incentiva a prática sempre com uma boa trilha sonora de fundo. E curte muito escrever e brisar sobre essas coisas todas.

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  • caio narezzi

    Análise mais do que pertinente sobre Karl Ove ! <3 foi um daqueles autores que mudou minha vida e a maneira de enxergar tudo ao meu redor. Devo muito a ele !!!