Kamala Khan e a representatividade nos quadrinhos


A série de quadrinhos Miss Marvel recebeu, a partir de 2014, uma nova protagonista. O título da super-heroína, antes alter ego de Carol Danvers, uma mulher branca adulta, agora é de Kamala Khan, uma adolescentes muçulmana.

Além da mudança na personagem principal, a série sofreu mudanças e passou a se aproximar mais do público adolescente. Kamala Khan é uma garota paquistanesa de 16 anos que tem que lidar com a descoberta de seus superpoderes, julgamentos na escola e costumes familiares conservadores provenientes de seus pais imigrantes.

Além de marcar uma guinada da série ao se aproximar de um público adolescente – considerando o fato de que, em geral, séries de quadrinhos são espaços repletos de fanboys adultos – Kamala também é a primeira muçulmana a ser protagonista de uma série da Marvel, o que representa uma mudança mais inclusiva também nesse sentido.

Apesar disso, houve uma reação negativa por parte dos fãs mais antigos da Marvel. Não fica claro se a repercussão está ligada ao fato da protagonista ser uma adolescente – há um preciosismo dos homens adultos em relação ao “seu território” nos quadrinhos – ou se o efeito teve como gatilho a inclusão de uma protagonista muçulmana, considerando o crescimento da ideologia anti-Islã nos EUA.

FICÇÃO E ADOLESCÊNCIA

A representação da adolescência na ficção é conturbada. Há casos em que funciona – o boom de best-sellers adolescentes pode ser uma explicação – mas ainda há uma dissonância entre quem produz essa literatura e a linguagem do público.

Em Ms. Marvel há referências à cultura pop atual, por exemplo. Em certo momento do primeiro volume, Kamala foge de casa para ir a uma festa sem a permissão dos pais. Ela se sente insegura ao desobedecer e acrescenta:

“Ok, é aqui que admito que só saí escondido duas vezes de casa. Uma quando tinha dez anos para saber se conseguia descer da árvore sem me machucar. Outra quando saí para ver a estreia à meia-noite de Harry Potter e as Relíquias da Morte com Nakia e Bruno.” (tradução livre)

Há uma preocupação visível de universalizar a vivência de Kamala Khan. Isso pode ser analisado como uma demonstração positiva de diversidade. Sim, ela é muçulmana (e a história não deixa de abordar esse ponto), mas ela também é uma adolescente como qualquer outra, que enfrenta regras da família, bullying e gosta de Harry Potter. Outro ponto importante da história – que contribui para a identificação do leitor com a personagem – é a vida rotineira. Ainda que exista todo o conflito interno e externo ligado à transformação da garota em uma super-heroína, a história também insere momentos cotidianos.

Neste quadro, por exemplo, Kamala tenta explicar à sua mãe a importância da fanfiction (histórias criadas por fãs de algum produto cultural) que está escrevendo. A mãe, claro, não entende o que a filha está dizendo, mas a referência é ganha no leitor.

A maioria dos leitores dessa história já leu ou escreveu fanfictions em sua vida e entende o dinamismo que esse tipo de fenômeno cultural transmidiático carrega. Ou seja, a história tem sucesso em atingir seu público e, num momento metalinguístico, alguns desses fãs podem vir a escrever fanfictions da própria Kamala Khan.

ISLAMISMO E IDENTIDADE

Kamala tem traços paquistaneses, assim como os outros personagens ao seu redor. No entanto, a Miss Marvel original, Carol Danvers, é branca e loira. Ao herdar o título, Kamala começa a se transformar em uma heroína branca e loira. Ao decorrer da história, em uma narrativa de autoaceitação, ela passa a se transformar em uma Miss Marvel com as suas próprias características.

Essa jornada de autoaceitação de Kamala é muito interessante para a abordagem da diversidade e da importância de reconhecermos preconceitos étnicos na sociedade. O efeito de isso ser abordado em uma literatura para adolescentes é importante para colocar o assunto em pauta. Ao aceitar sua aparência verdadeira como uma base boa o suficiente para sua versão heroica, em vez de aderir a uma identidade branca, Kamala reafirma sua identidade paquistanesa.

JOVENS E POLITIZAÇÃO

Um dos discursos mais importantes de Miss Marvel vem do grande arco de narrativa que traça os primeiros volumes. Na história, um vilão chamado “Inventor” convence os jovens a adotarem seu cinismo perante a sociedade e, ao mesmo tempo, aceitarem seu destino como “escória”. Esse vilão, com o apoio da mídia e da sociedade, convence os jovens de que eles são inúteis, sanguessugas e só prejudicam o bom funcionamento do cotidiano. Ele convence as famílias de que os adolescentes só atrapalham. Nesse meio-tempo, ele também recruta adolescentes abandonados por suas famílias e sem futuro para formar um exército sem cérebro.

Ou seja, depois de convencer o mundo de que os jovens são desperdício de recursos e convencê-los a se juntar ao seu grupo, o Inventor faz lavagem cerebral e utiliza a força vital destes para ganho próprio. Contra o discurso anti-adolescentes, surge Kamala Khan, que pretende resgatar esses jovens das garras do Inventor e, ao mesmo tempo, reafirmar sua identidade como jovem.

É aqui que Miss Marvel se aproxima muito da vida real. Todo mundo já ouviu reclamações de como nossa geração está destruindo o mundo e acabando com a sociedade fechada em seus smartphones, mas a gente também sabe que não é bem por aí.

Kamala tem algo a dizer, algo pelo que lutar e suas opiniões não são – ou pelo menos não deveriam ser – minimizadas por sua origem, seu gênero ou sua idade. Sabemos que ainda é difícil convencer as pessoas por aí disso – na vida real e na ficção -, mas podemos começar prestigiando histórias de pessoas como ela.

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@lorebpv) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.