Juntas Seríamos Mais Fortes


A campanha intitulada Meu Amigo Secreto, que tanto bombou, polemizou e esquentou o Facebook na última semana, foi criada para levantar a questão da violência contra a mulher em comemoração ao dia internacional de combate à essa violência, celebrado em 25 de novembro. A campanha em si traz uma ideia massa, super criativa, de abrir os olhos, a cabeça e o coração, tanto de quem escreve quanto de quem lê.

Com a campanha sobre meu amigo secreto, fiquei ciente de que aquilo que já vivi ou vejo amigas vivendo não era coisa da minha cabeça, e sim da vida real. Aliás, das vidas reais, assim no plural, de tão repetitivas que são.

Com a campanha, porém, também fiquei perdidinha em relação ao que seria uma denúncia de violência e/ou machismo velado, ou uma daquelas indiretas que as pessoas destilam sobre o ex sem nem precisar de campanha. Se você ficou tão perdida(o) quanto eu, vem cá, vamos nos abraçar. Eu pensava que machismo era algo mais claro, mais óbvio. Tipo, ninguém ficaria em duvida se tal situação era ou não machista. Com a campanha do meu amigo secreto, percebi que eu tenho que passar ainda mais pente fino sobre o que seria uma atitude machista, e que as outras pessoas também deveriam fazer o mesmo. Só uma sugestão.

Em alguns momentos pensei “Será que li de menos sobre feminismo? Será que ainda não sei o que é uma atitude machista? Será que eu sou o amigo secreto dessas pessoas?”. Me desesperei.

Vez ou outra penso em pedir demissão e dizer “Olha, eu não sou tão boa quanto vocês, eu não to afim de participar da campanha, dos textões, das discussões, eu me demito”. Daí seguiria sozinha meu caminho de construção do meu feminismo, e se me perguntassem, diria “não sei o que sou, sei o que não quero ser”. E deixaria as pessoas seguirem em frente, com suas contradições, seus erros, suas certezas tortas, mesmo que essas pessoas em questão se achassem donas da verdade.

Sigo várias, muitas páginas no Facebook sobre feminismo, sobre violência contra a mulher, sobre empoderamento feminino. Comum entre essas páginas? As suas falhas, aquele momento em que a pessoa (sim, existem pessoas por trás das páginas e perfis. pessoas, e não deuses) que postou precisou errar pra perceber que, de fato, estamos todos no caminho, na construção desse feminismo.

Tenho preguiça de quem relaciona machismo a algo próprio e isolado ao homem. Ou gordofobia algo próprio e isolado aos magros. Ou homofobia algo isolado ao gay enrustido. Ou feminismo algo próprio, isolado, exclusivo, de papel assinado e carimbado pelas mulheres. E daí talvez um monte de gente que eu gosto e que pensa assim comece a me julgar como machista por causa disso. Ou como gordofóbica, homofóbica, Satanás.

Seria sonhar demais viver num lugar (ou ao menos nesse bairro que é o Facebook) em que as pessoas assumissem que estamos TODOS E TODAS desconstruindo para construir? Assumindo nossos erros, afinal, que graça tem viver de certezas, e não tratando as coisas como verdade absoluta?

Seria. A gente é muito complexo e vaidoso pra viver de boas assim.

Daí me lembro da minha vida offline. Dia desses uma amiga que fiz recentemente relatou os assédios morais, físicos e psicológicos sofridos por ela e por outros estagiários, todos cometidos pelo chefe. Eu ouvia os relatos com uma cara de “BICHA, DENUNCIA!” “BICHA, ISSO TÁ ERRADO”. Dá pra ver porque as pessoas se paralisam diante de uma situação dessas. É amedrontador. Talvez por ela saber que já bati de frente com um professor que estava sendo babaca comigo, e por saber que, né, violência contra a mulher já devia estar fora de moda, ela veio me falar que gostaria que eu fosse trabalhar com ela, porque, em suas palavras “juntas seríamos mais fortes”. Sendo eu ou qualquer outra pessoa que ela confie pra encarar gente babaca de frente, só de não estar sozinha, ela encontrou forças próprias.

Outra amiga tinha problemas com os seios dela, achava eles separados demais, tinha medo de deixar o sutiã em casa e sair com os peitos mais livres. Tinha até nóia de ficar sem sutiã por muito tempo na frente dos boys. Os meus peitos são ainda maiores que os dela, mas só uso sutiã em última instância, quando precisa mesmo; somado a isso, tenho poucos problemas com nudez. Ela viu que, se Marina pode, ela pode também. E todo mundo deveria poder. O poder é nosso, e o poder está fora das capas de revista tradicionais. O poder está fora do que dizem que os caras preferem. Às vezes acho que esses caras nem sabem que foram entrevistados para tal coisa.

E agora, como posso pedir demissão do feminismo se ele me faz ser mais mulher, ser mais gente, ser mais consciente sobre o mundo, ser até mais amiga das minhas amigas (ou pelo menos tentar ser)? Como querer sair de algo que talvez me fez ser quem sou hoje, acreditar no que acredito hoje, compreender mais as mulheres da minha família, os seus dramas, suas queixas, suas sinas, suas fugas? Como sair de algo que, um tiquinho online e um tantão offline, tento compartilhar, discutir, acentuar?

Relaxei. Não vou mais pedir demissão da nomenclatura, do movimento, da luta, da filosofia, da fuga, do enfrentamento, da teoria e da prática feministas. E de tantas outras que me reconheço e reconheço pessoas que amo.

Daqui pra frente, o desafio é ficar sempre lembrando a mim mesma que cada um e uma tem o seu tempo para assimilar o que vem acontecendo no mundo e em especial no feminismo. Que as redes sociais são tão poderosas que podem disseminar a paz e a guerra, em que o certo vira errado e o errado vira lei. Talvez eu não concorde 100% com o que as chamadas representantes e líderes dos movimentos – ou apenas as que têm fama mesmo – disseminam. Talvez eu não concorde 100% com suas atitudes. Talvez eu não ache que trata-se apenas “delas” e procure “eles” nas discussões. E talvez um monte de gente discorde por completo de mim.
Meu amigo secreto já foi um ex-boy, um pai, um avô, um amigo, uma amiga, minha avó, a rua, a escola, um professor, a Universidade, a lei, um presidente, uma religião, um pedreiro, vários pedreiros, um carnaval, uma praia, um conhecido, uma criança, eu mesma. A depender da perspectiva usada, a gente pode sempre ser aquele que presenteia o amigo com um vale-Spa e ganha de volta um par de meias. Mas no fundo todo mundo já mandou embrulhar uma caixa de chocolates Garoto ou um DVD de 12,99 9,99 do Jorge Vercilo. 

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Sobre Marina Cavalcante

Marina tem 25 anos e é formada em Jornalismo pela UFPB. Nascida e criada em Recife - PE, atualmente mora em João Pessoa - PB. Já morou em Melbourne - Austrália e planeja viver em algum outro lugar que a faça sair da sua zona de conforto. Quando não está escrevendo, está vivendo para escrever. Seu maior sonho é viver do que escreve. Para mais da Marina, visite o seu blog, o marinabrazil.com.br.