Jo e Edith: a escritora favorita da minha escritora favorita


Texto: Luisa Granato

Como só acontece no mundo mágico dos sebos, troquei uma moeda com a cara da rainha por um livro de páginas amarelas e cheiro de história.

E tudo começou com uma aventura. Ou melhor, com um sábado que não podia ser desperdiçado dentro de casa. Somente com a vontade de ir e explorar, compramos passagens e embarcamos num trem para a pequena cidade inglesa de Warwick. Entre ruas de pedra e lojinhas que escondiam mistérios, um castelo nos aguardava.

No entanto, essa história não é sobre dragões ou reis presos em torres. Ela é sobre encontrar coisas.

Eu encontrei um sebo. Imagine: pequeno, as paredes cobertas de livros até o teto, estantes mais baixas separando dois corredores estreitos, pó, um senhor simpático em sua mesa no fundo da loja. E dentro daquele paraíso de livros usados, amados e sortidos, tinha que encontrar uma lembrança para levar.

E encontrei a autora favorita da minha autora favorita: Edith Nesbit.

Um livro infantil de uma autora que sempre quis ler somente porque a Tia Jo Rowling disse que era uma de suas escritoras prediletas. Ela já escreveu mais de 60 livros e poesias e nem sei qual o favorito dela, mas foi Railway Children que caiu em minhas mãos.

Ela conta a história de uma família londrina com três filhos que vive em harmonia até que a visita de um desconhecido leva à inexplicável ausência de seu pai e a mudança da família para uma casa de campo.

Lá as crianças se ajustam a nova vida, procurando aventuras e tentando ajudar sua mãe. E existe muito para descobrir longe da cidade grande e próximo aos trilhos dos trens.

Foi uma experiência diferente de leitura. A cada momento, parecia ouvir um eco no estilo e eu podia reconhecer traços já tão familiares de outras leituras. Talvez seja coisa de escritor, mas sabe quando você lê uma frase perfeita do seu escritor favorito e pensa “puxa, eu queria fazer algo assim”. Eu consigo imaginar uma mini Joanne Rowling lendo de noite um livrinho amarelado e pensando isso.

Enquanto me divertia com as aventuras da Bobbie, do Peter e da Phyllis entre trilhos de trem, também ia notando o que havia de Edith Nesbit na escrita de Rowling. Consegui reconhecer coisas que considero muito importantes, principalmente nos primeiros livros de Harry Potter.

A primeira delas foi o humor. Aquela sutileza de uma ironia nas descrições e para falar dos personagens. Uma sagacidade para revelar os segredos e motivos por trás de ações. Depois são as aventuras em episódios dos três irmãos que me lembra muito Harry Potter e a Pedra Filosofal, que também é o mais próximo como literatura infantil. A estrutura de Railway Children é muito parecida, com uma mistura de introdução dos personagens, pedaços de cotidiano que levam a grandes aventuras pessoais ou heroicas.

A mais legal de todas é como as duas escrevem as crianças e seus pensamentos. A voz que a escritora de 1900s dá para seus personagens é autêntica e ela os leva muito a sério. Não há menosprezo quando ela apresenta ao leitor a lógica, os desejos e as necessidades das crianças.

Se inspirar em um escritor (especialmente seu favorito) não é uma falha, nem o fim da sua criatividade, mas um aprendizado. Leu algo e gostou? Não se acanhe e pegue pra você. Leia e releia, escreva, reescreva, mexa, molde e mude. Não é cópia, mas um processo de criação.

Cada leitura transforma o leitor, adiciona frases novas a sua história, muda seu ponto de vista e habita sua mente para sempre. Mudanças assim têm reflexos reais. Para o escritor, essa inspiração volta para o papel.

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Sobre Luisa Granato

Luísa é jornalista e eterna potterhead. Sua casa é a grifinória, mas ela lê como uma corvinal e podia ser a Luna Lovegood. Viajante (inclusive do espaço e do tempo), ela ama ficção científica e histórias fantásticas.