‘Jellicoe Road’, Melina Marchetta


jellicoe_capaExistem histórias sobre as quais você precisa saber pouco. Ou, talvez seja mais correto dizer, que podem ser infinitamente melhor aproveitadas se você não sabe muito sobre elas. Melina Marchetta demonstra que domina completamente a arte de contar esse tipo de história em Jellicoe Road, o young adult vencedor do Printz em 2007. É por esse motivo que resenha-lo não é uma tarefa fácil. O mais fácil provavelmente seria simplesmente não resenhar. Mas aí entra a questão: como não falar de algo que você gostaria de apresentar para todas as pessoas do mundo? (Às vezes eu sou um tanto hiperbólica, perdão).

A melhor solução provavelmente é deixar o leitor da resenha confuso – que é como ele vai se sentir durante boa parte do livro, de qualquer maneira. Na maior parte dele, alternam-se duas narrativas que se passam no mesmo lugar – a cidade fictícia de Jellicoe, na Austrália –, mas com pouco mais de vinte anos entre elas. A primeira história no livro, mas não no tempo, é uma narrativa em primeira pessoa que começa de forma propositalmente confusa, como se, de repente, nos encontrássemos atravessando os pensamentos da protagonista, Taylor. Não existem muitas explicações – você logo é informado sobre um “menino na árvore nos meus sonhos” e sobre “guerras territoriais” que fazem muito pouco sentido. Já a segunda história é uma narrativa em terceira pessoa que conta o primeiro encontro e os anos subsequentes de amizade entre cinco adolescentes – três garotos e duas garotas –, e que funciona como uma espécie de “história dentro de uma história”.

Taylor, a protagonista, é aluna de uma espécie de internato em Jellicoe e, no primeiro capítulo do livro, é apontada como a nova líder dos alunos de seu colégio nas negociações da guerra por território citada anteriormente. Guerra essa que é travada contra os “townies”, ou os jovens que de fato vivem na cidade de Jellicoe (já que o internato é mais afastado), e os cadetes, garotos que são da capital, mas que todo ano participam de um programa de treinamento nos limites das terras do internato. A menina é órfã e foi abandonada quando criança – no papel de seus pais fica a sua guardiã, Hannah, que também mora nos terrenos da escola e que a levou para lá.

Depois que Taylor é apontada como líder, duas situações importantes acontecem: Hannah some sem maiores explicações e Taylor descobre que o líder dos cadetes é, na verdade, alguém que faz parte do seu passado. Ambas as revelações abrem espaço para que o passado traumático da protagonista possa aos poucos ser revelado, e para que as duas histórias paralelas enfim encontrem o seu ponto de ligação.

É difícil explicar Jellicoe Road sem se aprofundar demais nele, o que seria extremamente infeliz porque, como disse anteriormente, nesse caso menos é mais (digo, saber menos é garantia de uma leitura mais interessante). Ao mesmo tempo, fica a vontade de falar mais sobre ele e explicá-lo melhor porque o livro é tão fantástico que queria que todo mundo (todo mundo mesmo) lesse. É uma leitura que começa confusa, cheia de informações novas e com pouquíssimas explicações. A construção do universo ficcional, da protagonista e de todos os personagens é gradual e, sobretudo, segue caminhos inesperados. Não por causa de enormes plot twists, mas porque os personagens não são o que aparentam. Não, Melina Marchetta não mente para o leitor ou o engana para impactar as revelações do enredo. As mentiras, nesse caso, estão por todo o livro, mas entre um personagem e outro, ou nas interpretações erradas que Taylor tira das situações ao seu redor e que ela comunica ao leitor, que obviamente só pode recorrer a elas para tirar suas próprias conclusões.

Jellicoe Road é um YA muito crível sobre, eu diria, diferentes tipos de trauma. Os personagens desse livro são tão completamente reais. A carga emocional é muito forte e dor de cada um deles é tão perfeitamente representada que você não só compreende, mas também sente. Não se trata de uma história feita para fazer com que você chore, não é manipulativa, mas é possível que isso aconteça mesmo assim porque é sem dúvida uma história triste. E, no meio dela, tem as pequenas alegrias. As pequenas glórias vindas de cada vitória naquela guerra estranha que é travada ao longo dela. Talvez justamente por causa do contexto em que elas existem é que sejam tão valiosas.

jellicoe_quoteTá, mas tem romance?
Claro que tem romance.

O mais fascinante na leitura de Jellicoe Road é perceber o modo como cada fato, ou personagem, ou situação, vai, aos pouquinhos, se encaixando perfeitamente, enquanto a confusão inicial vai sumindo e dando lugar à compreensão – e as suas teorias, ou a maior parte delas, vão sendo lentamente descartadas. Quanto mais você lê, mais você tem vontade de parabenizar a autora por ter planejado – e executado – tudo tão bem, porque é isso que permite que o impacto de cada nova revelação seja sentido. E, nossa, como é importante sentir o impacto de cada uma delas. Marchetta trabalha com maestria as emoções presentes na obra.

Diria que Jellicoe Road é um belíssimo tapa na cara de qualquer um que ainda hoje se se atreva a dizer que literatura young adult é superficial, ou que ela não tem nada para oferecer. Acho, inclusive, que ele não se esgota em uma única leitura. Cadê uma editora para traduzir e publicar o livro por aqui?

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura - ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.