“Jantar secreto”, Raphael Montes


Jantar Secreto é um livro perturbador. Não só pelo tema, mas também por todo o desenrolar da história. E se você não gosta de muito sangue (muito mesmo), esse livro não é para você 🙁
Se você gosta, venha comigo.

Começamos com Dante, nosso protagonista, contando que antes de ser um filho da puta, ele era um cara legal. Mas era preciso saber o que ele e seus amigos fizeram. Isso é o que prende na história. A partir desse momento, você precisa saber o que aconteceu.

Dante e seus três amigos se mudaram para o Rio na época da faculdades. Eles eram garotos sonhadores e depois de cinco anos, nem todos haviam conseguido aquilo que queriam quando foram para a cidade maravilhosa. Dante, Hugo, Leitão e Miguel dividiam um apartamento e acreditavam estar tudo bem até o dia em que receberam um telefonema do corretor falando que o aluguel estava atrasado e eles seriam despejados caso não conseguissem quitar a dívida. Ninguém queria sair do apartamento em Copacabana e por isso foram atrás de soluções para conseguir dinheiro, até que Leitão diz que eles poderiam começar a fazer uns jantares secretos em casa. Mas, para se diferenciarem do resto dos outros jantares, eles serviriam carne de gaivota.

O que nesse caso quer dizer carne humana.

Conseguir o primeiro corpo foi um pouco complicado e arriscado, mas talvez muito mais fácil do que eles acharam que seria. O jantar foi um sucesso. Pessoas da alta sociedade carioca estavam presentes e garantiram que voltariam caso eles continuassem com a ideia tão inovadora. E foi isso que eles fizeram. Só que arriscando cada vez, além de se envolverem com pessoas extremamente perigosas.

Desde o começo fica claro que Dante é uma pessoa responsável e preocupada com os outros, mas que se deixou levar pela empolgação do dinheiro fácil. É, é verdade que vender carne humana não é uma tarefa tranquila, mas assim que o dinheiro começou a entrar na conta, ninguém parecia se importar de onde o dinheiro vinha.

E nem os corpos.

E aí que o livro faz uma forte crítica social. Um dos primeiros corpos era de um morador de rua. A desculpa usada é aquela velha de sempre: o cara não tem família, ele não tem nada. Quem é que vai sentir a sua falta?

E por que isso significa que é ok matá-lo? Esse foi um questionamento feito por Dante logo no início, mas assim que ele começou a sentir o prazer da riqueza, parece que parou de perceber que os corpos entregues eram, em sua maior parte, negros . Essa parte é assustadora, porque já é algo que vemos acontecendo na nossa sociedade. Até onde eu sei, ninguém mata ninguém para se alimentar de sua carne, mas vamos brancos matando negros simplesmente para eliminá-los da sociedade. Foi isso o que eu vi acontecendo no livro. É a hierarquia da sociedade: o rico sempre consegue destruir o pobre. O branco sempre vai atrás do negro. Um sempre se acha superior ao outro.

Jantar secreto é um livro que vale a pena ser lido e analisado. Tem muito suspense, plot twists e a boa e velha problematização (quem não gosta de uma problematização, não é mesmo?). Esse é aquele livro que você não quer largar, e que depois não vai sair da sua cabeça.

 

P.S.: Gostaria de mandar todo o meu amor e carinho para o Raphael Montes e para a Companhia das Letras por me enviarem um exemplar autografado <3 Vocês são +qd+!

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Sobre Rovena

Rovena é de Vitória, formada em Relações Internacionais e atualmente cursa Letras-Inglês. Gosta muito de ler e ouvir música enquanto escreve. Grifinória, feminista e especialista em tretas do blink-182. Está no twitter (@rovsn).