O patriarca


Texto: Marina Vieira // Arte: Dora Leroy

Aquela veia roxa-esverdeada da sua mão direita está saltada, devido ao punho fechado. Ele o bate na madeira, o que faz o bebê – bem, já tem dois anos – se sobressaltar. A mulher e a filha permanecem imóveis, cabisbaixas, peitos quase não sobem pra permitir o ar de entrar.
Ele bufa.
Vocifera.
Se levanta, e o movimento brusco das pernas tira momentaneamente a mesa do chão. Ela cai em seguida alguns milímetros fora do lugar. O homem joga o guardanapo bordado de pano no canto e assusta o cachorro, que sai encolhido para outro cômodo.
Mãe e filha se olham, sem mover a cabeça. Trocam preocupações. Temiam que aquilo acontecesse, e o fato de o terem avisado só torna as coisas piores. Agora, além de ter perdido dinheiro, perdeu uma parte de seu orgulho. Como sempre, irá compensar tornando-se, ele, mais certo, e o mundo, mais errado.
No olhar suspenso entre as duas mulheres na sala de jantar, a certeza: qualquer comentário agora seria combustível. Melhor deixá-lo esfriar a cabeça. Com esperança, o pai de família fará isso sem ferir ninguém.

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Sobre Marina Vieira

Uma atibaiense atibaiana que gosta de ouvir e contar histórias. 22 anos, se inspira em figuras respeitadíssimas como Avatar Korra e Finn, O Humano. Acredita fervorosamente que J.K. Rowling está escrevendo “Hogwarts, Uma História” em segredo. Enquanto não é lançado, ocupa seu tempo virando estrelinha na grama e fazendo carinho em todos os animais que encontra.