Jane Austen, uma feminista disfarçada


Neste mês de celebração da mulher (afinal, quem disse que deveríamos ter apenas um dia para discutir e celebrar nosso papel na sociedade?), o pessoal da Pólen me convidou para escrever um artigo sobre uma das minhas escritoras preferidas: Jane Austen, e tudo o que ela significa para o feminismo. Passadas a emoção e entusiasmo dos primeiros dias, logo me vi tomada pela ansiedade e nervosismo. O problema era: como eu poderia exemplificar em (nem tão) poucas palavras tudo o que essa escritora maravilhosa representa para nós mulheres?

A questão da representatividade em Austen é conflituosa: basta lembrar da polêmica gerada em 2013 quando, após muita especulação, a Casa da Moeda britânica anunciou que seu rosto passaria a estampar as notas de 10 libras. A única outra mulher a conseguir esse feito na Inglaterra é a própria rainha Elizabeth. Esse feito só foi possível devido à pressão de ativistas da mídia britânica. Uma das principais líderes da campanha, Caroline Criado-Perez, chegou a receber ameaças de morte e estupro pelo Twitter, levando a um debate acalorado a respeito não apenas do assédio contra mulheres na Internet, mas ao próprio papel de Jane Austen no feminismo.

Ainda que tenha vivido há mais de duzentos anos, Jane só foi adotada como símbolo feminista na virada do século 19 para o século 20, com a ascensão do movimento sufragista. Em um artigo publicado na internet, a professora da Universidade do Alabama Devoney Looser mostra como as primeiras adaptações para o teatro das obras da autora foram escritas, produzidas e atuadas por atrizes ligadas ao movimento, como Rosina Filippi e Winifred Mayo. O tom fortemente feminista da peça The Bennets: A Play Without a Play (inspirada em Orgulho e Preconceito), que estreou em Londres em 1901, não agradou muito críticos como o do jornal The Times, para quem a Elizabeth interpretada por Mayo era demasiadamente “atrevida e petulante”. Ao longo dos anos, tanto a autora quanto suas próprias heroínas viriam a ser representadas em diversas mídias e manifestações de rua como símbolo do poder feminino.

Ora, argumentavam os detratores, como uma autora com apenas seis livros publicados, famosa pelas heroínas cujas histórias são designadas – em sentido pejorativo – de chick-lit, ou “leitura de mulherzinha”, pode ser considerada um ícone feminista? Afinal, que ensinamentos podemos adquirir lendo Jane Austen?

Para entender o feminismo em sua obra é preciso lembrar que Jane nasceu no século 18 e, como bom produto de seu tempo, foi devidamente criada para ser “uma dama apropriada”. Entretanto, em 1792, quando ela tinha apenas 17 anos e dava seus primeiros passos como escritora, foi publicado A Vindication of The Rights of Women, da escritora e filósofa Mary Wollstonecraft. No livro, Wollstonecraft argumenta que as mulheres não são, por natureza, inferiores aos homens, mas aparentam ser por falta de educação. Ela também defende que as mulheres sejam tratadas como seres racionais e levanta a bandeira do tratamento igualitário. Como muitas depois dela, Mary enfrentou duras críticas e ataques devido ao seu ativismo. O mais letal deles partiu do próprio marido, que um ano após sua morte publicou um livro de memórias em que relatava suas aventuras amorosas e comportamento fora dos padrões sociais, destruindo a reputação da autora por mais de um século até sua obra ser resgatada pelas primeiras sufragistas.

A desgraça póstuma de Mary Wollstonecraft pôs uma pedra sobre o tímido movimento feminista que surgira com ela. Como diz Sinéad Murphy, autora do livro The Jane Austen Rules, uma mulher que pedia direitos iguais era vista como imoral e de caráter degradado. Mas isso não quer dizer que Wollstonecraft não tenha influenciado as jovens da época. Elas só precisavam descobrir uma nova forma mais discreta de expressar seus ideais. E Jane encontrou um modo de expressão através da ironia ou, como diz a pesquisadora, “na fingida ignorância que lhe permitiu liberdade que nenhuma outra mulher de seu tempo desfrutou”. Doméstica e contida, ela conseguiu defender o feminismo exatamente ao passar uma imagem “antifeminista”. Um dos melhores exemplos de sua linha de pensamento está na seguinte passagem de seu primeiro livro, A Abadia de Northanger:

“Sobretudo a mulher, quando tem a desgraça de conhecer alguma coisa, deve escondê-lo o máximo possível. Embora para a maior e mais frívola parte do sexo masculino a imbecilidade aumente em muito os encantos pessoais femininos, há uma parte deles, razoável e bem informada, que deseja algo mais na mulher do que a ignorância”.

Nesse trecho a autora faz uma crítica velada aos livros e regras de etiqueta do século 18, que pregavam às mulheres esconder qualquer forma de conhecimento que viessem a ter para não intimidar os homens. Maria Edgeworth faz um comentário semelhante em seu livro Belinda, publicado em 1801, mesma época em que A Abadia foi escrito (embora o último tenha sido publicado apenas após a morte de Austen). Diz uma das personagens:

Quando uma jovem professa uma opinião diferente da de seus familiares, eis o prelúdio de algo pior. Ela começa dizendo estar determinada a pensar e agir por si mesma – e de repente tudo começa a desmoronar sobre ela”.

E se tem uma coisa que une as heroínas austenianas, é o fato delas não dividirem seus conflitos e dúvidas com outros personagens. Como diz  Devoney Looser: “Elinor Dashwood (Razão e Sensibilidade), Elizabeth Bennet (Orgulho e Preconceito), Fanny Price (Mansfield Park), Emma Woodhouse (Emma) e Anne Elliot (Persuasão), ainda que tenham irmãs ou amigas, agem de forma independente, e só comunicam às outras suas decisões mais importantes depois que elas já foram tomadas”.  A atitude das protagonistas reflete bem o próprio posicionamento da autora. Certa vez, quando sua sobrinha pediu uma opinião sobre uma proposta de casamento que lhe havia sido feita, ela respondeu da seguinte forma: “você não deve depender de minha opinião em nada. Seus próprios sentimentos, e apenas eles, devem determinar tamanha decisão”.

Claro que a autonomia moral defendida pela autora não era uma verdade universalmente reconhecida. Basta lembrar que em Mansfield Park, Sir Thomas repreende duramente a sobrinha, Fanny, por ela não aceitar o seu conselho e se casar com Henry Crawford. Rejeitar uma oferta tão vantajosa na Inglaterra Regencial, ainda mais se a moça vinha de uma família de pouca ou nenhuma posse, era considerado um erro fatal. Em uma das cenas mais famosas de Orgulho e Preconceito, Lizzie Bennet também recusa uma oferta vantajosa de matrimônio, para desespero de sua mãe e de seu primo e pretendente, o tolo Mr. Collins. Ele credita sua recusa a um “desejo de aumentar o seu amor, deixando-o na incerteza, de acordo com os costumes habituais das mulheres elegantes”. A resposta que segue se tornou uma das frases mais famosas da protagonista: “Não me considere uma mulher elegante que tem a intenção de atormentá-lo, mas uma criatura racional, falando a verdade do coração”. 

A defesa da mulher como um ser racional é um dos pontos principais de Persuasão, o último livro finalizado por ela. Anne Eliott, a protagonista, é única na obra de Austen: mais madura que as heroínas anteriores, aos 27 anos (uma tia solteirona para os padrões da época) ela se vê forçada a reencontrar o Capitão Wentworth, homem por quem se apaixonou e rejeitou na juventude devido à persuasão dos familiares e amigos esnobes. Mas como uma jovem tão facilmente persuadida pode ser considerada um ícone feminista, vocês devem estar perguntando. Pois eu confirmo: com sete anos para remoer a decisão tomada no passado, Anne Elliot se tornou uma das maiores advogadas pelo direito de expressão e igualdade feminina. Durante uma discussão a respeito da fraca representação das mulheres nos livros da época (sempre como personagens inconstantes e volúveis), ela argumenta:

“Os homens tomaram todas as vantagens sobre nós ao poderem escrever sua própria história. A educação deles têm sido muito melhor que a nossa, a pena está nas mãos deles, e não permitirei que os livros provem nada (a respeito das mulheres)”.

O comentário faz eco a uma outra frase célebre de Catherine Morland em A Abadia de Northanger, no qual ela nota não haver quase nenhuma mulher retratada nos livros de História, e por isso declara que grande parte dela deve ter sido invenção dos Grandes Homens.

Outra passagem célebre de Persuasão é dita logo no começo do livro por Sophia, irmã do Capitão Wentworth. Casada com um oficial da Marinha Britânica, ela costuma acompanhar o marido em suas viagens pelo mundo em vez de ficar em casa, como rezava a tradição da época. A respeito disso ela diz ao marido:

“Detesto ouvi-lo falar assim, como um cavalheiro requintado, e como se todas as mulheres fossem todas damas delicadas em vez de seres racionais. Nenhuma de nós espera ter mar calmo todos os dias”.

Em outra passagem, Anne discute a intensidade do amor feminino e os perigos de manter a mulher restrita ao ambiente doméstico:

“Nós mulheres vivemos em casa, quietas e confinadas, e nossos sentimentos nos consomem. Vocês sempre têm uma profissão, buscas e negócios de algum tipo que os joga de volta ao mundo imediatamente, e uma mente ocupada e mudanças de ambiente logo anuviam suas impressões”.

Vale lembrar que essa declaração, além de defender a situação da mulher, prova para o Capitão Wentworth não apenas que ela ainda o ama, levando à resolução da história, mas também advoga em favor das mulheres ao provar que elas estão em desvantagem ao sugerir que os homens se beneficiam da possibilidade de poder fazer mais coisas. Fica sugerido no fim do livro que Wentworth seguirá o exemplo do cunhado e levará Anne com ele em suas viagens, ao invés de deixá-la em casa sendo tomada por todo tipo de sentimento adverso.

Sendo assim, podemos dizer que, através de suas heroínas, Jane Austen conseguiu de certa forma incutir na mente de suas leitoras alguns dos principais ideais feministas quando o termo mal existia: noções de igualdade, liberdade de expressão e conscientização quanto a situação inferior das mulheres na sociedade. E se algum amigo ou amiga destratar a obra dela como chick-lit, nada melhor que seguir o exemplo da jornalista Audrey Bilger, cujo artigo inspirou esse texto: empreste algumas cópias dos seus livros e mande esse pessoal estudar.

por Jacqueline Plensack Viana

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