Itinerâncias


Eu mudei de casa três vezes ao longo da vida, e nenhuma delas foi fácil. Moro na mesma cidade desde que nasci, e quando descobri que tinha passado no vestibular em uma universidade a 600km de casa, tive uma crise de choro – não de alegria ou alívio, mas de medo, pânico mesmo. Meu colchão é o mesmo desde que eu abandonei o berço e minha cabeça nunca se adaptou a um travesseiro que não fosse o meu, aquele de sempre. Mas, apesar disso tudo, eu sempre adorei viajar.

Ué.

Pois é. Além da parte óbvia de se conhecer lugares novos, sotaques e comidas, sempre gostei muito do ato de viajar em si. Estar em movimento e todos os seus pequenos rituais, desde a parte chata de se arrumar mala, até o movimento constante dos ônibus interestaduais, as amizades instantâneas que fazemos com aquela pessoa sentada ao nosso lado no avião, a ciência de foguetes que é escolher a melhor poltrona e até os lanchinhos cada vez piores das companhias aéreas. Eu gosto tanto de viajar que, às vezes, odeio chegar.

Ano passado, por exemplo, fui até o Espírito Santo num ônibus de faculdade e provavelmente fui a única pessoa que adorou o passeio sem dizer, no final, que foi ótimo apesar das vinte horas de ônibus. Eu dormi praticamente durante toda a viagem de ida, mas na volta, durante o dia, passei o tempo todo com o rosto colado na janela, subindo e descendo serras e passando por placas de cidades cujo nome eu nunca tinha visto antes. Ouvi vários cds inteiros, prestando atenção nas músicas e em nada mais, e li metade de um volume das Crônicas de Gelo e Fogo. Desci em todas as paradas me divertindo com o ar sempre pitoresco dos postos de beira de estrada e mesmo quando já estava deitada na minha cama que tanto amo, com seu colchão de vinte anos e o travesseiro especial, senti falta das rodas girando embaixo de mim.

Viajar é uma experiência coletiva, mesmo quando você está sozinha. Aprendi isso porque já passei muitas horas da minha vida sozinha em aeroportos e rodoviárias, e foi assim que me viciei em observar as pessoas e imaginar essas histórias. Foi num estalo: Meu Deus, olha só quanta gente! Todas elas indo pra algum lugar! Pra onde vão? De onde vem? O que comem? O que carregam na bolsa? Por que fazem fila pro embarque antes da hora? Será que concordam que pão de queijo de aeroporto é o pior – e mais caro – do mundo? Era isso que eu tentava descobrir no meu Globo Repórter especial, produzido por Anna Vitória, a repórter cheia de imaginação.

Tendo virado repórter de verdade – ou um ensaio disso, pra ser sincera – diante da primeira oportunidade de um trabalho mais extenso, imersivo, e autoral, o primeiro tema que consegui pensar foi: quero contar histórias de pessoas em movimento. No início eram só caminhoneiros, com suas lendas e ciladas, mas depois de pensar, discutir, e trazer amigos pro barco, abrimos o leque: caminhoneiros, missionários, artistas de circo, nômades digitais, e comissários de bordo. São eles os personagens do Itinerância, livro que eu e mais quatro pessoas malucas e errantes estamos escrevendo: gente religiosa, gente que cheira a diesel, gente que vive com um notebook e um passaporte, gente que tira coelho da cartola e gente que sabe que em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão sobre sua cabeça. Em comum, eles têm a certeza do movimento.

Ainda que não esteja participando de todas as entrevistas, a apuração tem sido um processo muito interessante. Sinto que temos uma desculpa mais ou menos séria pra fazer aquilo que eu tenho vontade de fazer sempre que estou há tempo demais esperando um voo em conexão: sentar do lado de alguém e dizer “Oi, eu sou a Anna, me conta sua história?”. Nessas eu já descobri que quem vive no circo tem tanto medo do mundo lá fora como a gente tem dos palhaços, e que pra eles fugir do circo é tão absurdo quanto fugir com o circo. As moças do circo frequentam lojas de sapato e trocam informações sobre quais cidades tem as melhores filiais da Carmen Steffens e quase ficam loucas quando passam tempo demais num lugar só. Mas, se tivessem que escolher, preferiam fixar base no Nordeste – eu também. Já descobri também que existem mais planos e planilhas por trás de uma vida nômade do que supõe nossa vã filosofia de largar tudo e viajar, e que mesmo quando se escolhe essa vida sobra tempo pra sentar no meio fio e pensar, do outro lado do mundo: o que diabos estou fazendo com a minha vida?

Nossa jornada ainda não acabou (ainda bem! já disse que às vezes odeio chegar?) e ainda temos histórias pra ouvir, malas para fuçar e itinerâncias para investigar, mas já arrisco uma conclusão geral pra isso tudo: bichos do mundo ou bichos do quarto, somos todos pessoas indo e vindo de algum lugar, deixando pedaços de nós por onde passamos. É possível ter os mesmos vizinhos mesmo sem parar dois meses num mesmo lugar, e quem vive na estrada sempre tem algo que o faz voltar. Na maioria das vezes, é alguém. As pessoas continuam tendo um lado favorito na cama e um banheiro limpo é paixão nacional. A gente está sempre em movimento, ainda que sem sair do lugar, e ouvir os outros e ver o mundo através dos seus olhos é uma grande viagem por si só. Eles sempre estão mais perto de nós do que a gente imagina, e eu, que nunca gostei de palhaços e tenho aflição do globo da morte, entendi totalmente o que faz uma garota de 17 anos largar tudo o que tinha pra viver no picadeiro.

Mesmo amando minha casa e meu quarto, aprendi que é possível ganhar a estrada e ser feliz, porque voltar pra casa vai parecer um destino desejável por si só. E quando não houver nada esperando em casa, é porque vou ter encontrado um jeito de levar comigo quem importa, ou pelo menos de fazer caber na mala meu querido travesseiro. E vamos andar, porque o mundo é grande.

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rocha.annavitoria@gmail.com'

Sobre Anna

Anna Vitória tem 21 anos, e é mineira com um coração de pão de queijo, mas jura que tem alma carioca. Estuda jornalismo, mas queria mesmo ter uma banda e ser rockstar. É feita de açúcar, curiosidade e chuva, meio hippie e muito mórbida - e por isso tem certeza que vai morrer soterrada pelos próprios livros.

  • Que texto lindo <3

  • anna, eu sei que te digo isso sempre, mas seus textos sempre me inspiram, de verdade. inclusive no sentido jornalístico, o que, sejamos justos, é bem raro.

    – Lorena