Isso também vai passar


Texto: Paloma Engelke // Arte: Gabriela Schirmer

“Quem se define se limita” é o clichê usado por 11 entre 10 pessoas que não têm criatividade para preencher perfis em redes sociais e aplicativos de relacionamento em geral. A versão original da frase, “definir é limitar”, foi trazida ao mundo por Oscar Wild, em “O Retrato de Dorian Grey”. Mas a questão é: será mesmo?

Meu nome é Paloma, eu sou canceriana com ascendente em sagitário e lua em libra. Eu gastei tempo o suficiente na vida vasculhando os sites de astrologia e os resultados de busca do google para saber mais ou menos bem o que cada signo do meu mapa astral significa. Eu sei que, por definição, eu sou dramática e carente, além de cronicamente indecisa. Eu também já aprendi que meu mercúrio em leão é o culpado por eu me sentir sempre a senhora suprema da razão, e esse tal vênus em câncer é a minha maior cruz. Nada é culpa minha, está tudo escrito nas estrelas – literalmente – desde o segundo em que eu coloquei meus pezinhos nesse mundo.

Não tem escapatória, eu sou assim mesmo.

Será?

Eu sempre tive problemas com a galera do “é meu jeito, não vou mudar, quem me ama tem que me aceitar como eu sou”. Eu não entendo por que as pessoas têm a necessidade de abraçar seus defeitos como se fossem troféus. Não que eu não faça isso, não que eu não seja um exemplo maravilhoso da espécie gentes teimosas. Mas eu posso garantir que todos os dias eu me esforço para aprender a ouvir críticas e, ao invés de ficar com raiva, analisar a mensagem recebida e ver até onde a acusação procede.

Não é porque meu mapa astral me acusa de ser dramática e manipuladora que eu tenho direito inalienável de ser dramática e manipuladora até eu morrer. Eu acredito em astrologia, mas também acredito em livre arbítrio e que as pessoas mudam. Ainda assim, estudar compulsivamente meu mapa astral ainda me parece uma forma de conhecer melhor a mim mesma no sentido de entender quais as minhas tendências naturais e – justamente – fazer um esforço consciente para mudar o que eu achar que devo.

Na adolescência, eu tinha uma ideia fixa da imagem que eu queria passar para o mundo. Eu vestia bastante preto, usava lápis de olho preto na linha d’água religiosamente e desprezava funk e pagode com toda a minha força de vontade. Não necessariamente porque soasse ruim, mas por princípio. Eu era roqueira. Na verdade, eu era emo. Eu também era hétero, não bebia, e achava que nada disso ia mudar enquanto eu vivesse.

Hoje em dia eu tenho toda uma nova coleção de rótulos: escritora, feminista, vegetariana, esquerdista e por aí vai. Ainda gosto de rock, de fato, mas também gosto de funk, forró e das sertanejas, e tenho um armário bem colorido. Ah, e quase nunca uso lápis de olho.

Nós adotamos rótulos porque eles são parte de como nós queremos nos apresentar ao mundo. Mas nós também adotados rótulos porque eles são uma forma de se posicionar no mundo e se entender enquanto indivíduo no meio do mundo. Oi meu nome é Paloma e eu gosto de dançar. Você também? Que legal! Nós nos reunimos com gente que tem os mesmos interesses, se identifica com o mesmo rótulo, e partimos daí. Pertencer é bom, todos queremos pertencer e esse processo de pertencimento inclui uma fase de autoanálise e autodefinição. O único perigo é acabar esquecendo que qualquer definição está atrelada a um período temporal específico. Eu sou assim hoje, amanhã pode não ser nada disso.

Tudo na vida é transitório. A única constante é a mudança. E, além de seres humanos serem mais complexos do que é possível expressar em qualquer número limitado de caracteres, o normal é que nós estejamos sempre em processo de mudança. Eu não sou a mesma que eu era quando eu comecei esse texto – não só porque as células que compõem o meu corpo já passaram por alguma medida de renovação nesse tempo, e meu coração já está algumas batidas mais afastado do meu nascimento, mas porque nesse meio tempo por incrível que pareça eu já fiz, pensei e senti coisas que me tornaram uma pessoa diferente do que eu era quando apertei a primeira tecla.

Já dizia Heráclito que um homem não pode entrar duas vezes no mesmo rio. O rio nunca é o mesmo, e nós também não. Acreditar que podemos ficar parados no tempo é tão antinatural quando acreditar que se pode parar o rio no tempo.

Se definir é parte natural e saudável da vida. É saber quem somos e como nos apresentamos ao mundo, é sermos verdadeiros com os nossos sentimentos e estarmos mais conectados com nós mesmos. Mas se agarrar a esses rótulos, acreditar que eles são eternos, é tentar congelar o rio no tempo – não só é inútil, como ainda pode acabar mal.

Não é se definir que é limitante. É teimosia que é. É a incapacidade de dar o braço a torcer e aceitar que gostos, sentimentos, e características em geral são fixas e eternas, gravadas em pedra. Mesmo que os rótulos em questão não sejam mutáveis (não acho que eu vá deixar de ser canceriana algum dia na vida), eu continuo sendo. Nem as pedras duram para sempre.

Não é a definição que nos limita, somos nós mesmos que fazemos isso.

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paloma.engelkemuniz@gmail.com'

Sobre Paloma Engelke

Paloma Engelke é carioca de nascença, advogada porque a vida quis, leitora e escritora porque sim, mas em geral ainda busca seu lugar ao sol. Vive no mundo da lua e se dá muito bem com os vizinhos, mas de vez em quando desce aqui e ali para dar uns alôs.

  • Luciana Truzzi

    Gostei bastante do texto. Achei divertido e inteligente a colocação sobre signo e características. Eu brinco dizendo que signo é igual genética, uma parte você não tem escolha (seu sol, lua, ascendente etc), mas saindo disso nem tudo que você tem tendência a ter, você terá. Se a pessoa estudou um pouquinho sobre astrologia e é uma sensata, ela sabe que o livre arbítrio está aí para ser usado, independente de características do seu signo. Tudo o que soubermos ou entendermos sobre nós mesmos é base para evolução e não para se agarrar na eterna síndrome de Gabriela. Fiquei espantada que algumas pessoas levam signo tão a sério que se afastam de quem não é astrologicamente “compatível”. Perdem uma oportunidade enorme de conhecer muita gente interessante. E nós definirmos no perfil indica que nos conhecemos pelo menos um pouco. E essa definição deve ser atualizada com o passar do tempo com orgulho, porque indica que evoluiu um pouco mais, se conheceu um pouco mais. Enfim, cresceu.

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