“Isso também vai passar”, Milena Busquets


isso tambem vai passar_capaExiste uma história famosa sobre um rei antigo que pediu a um sábio do reino por uma frase que fosse verdadeira em todos os momentos futuros. A frase com que o sábio surgiu foi “isso também vai passar” (mais famosa em inglês: this, too, shall pass). Ela nos lembra de que os momentos difíceis não duram para sempre, evitando assim a desesperança e o desespero, mas que os bons momentos também não duram, lembrando-nos de sempre manter os pés no chão. Não, não podemos prever o futuro, mas uma coisa é certa: os momentos terminam, as situações mudam.

Blanca, a protagonista de Isso também vai passar, no entanto, não tem tanta certeza disso. O livro narra sua jornada através do luto após perder a mãe, começando a narrativa no cemitério. A morte não aconteceu de forma inesperada, a mãe dela estava doente há bastante tempo, mas isso não diminui sua dor. Em meio ao luto, Blanca vai passar o verão em Cadaqués, cidade litorânea na Espanha onde a mãe tinha uma casa que ela cresceu frequentando. Vai acompanhada dos filhos, dos dois ex-maridos, das amigas, do filho da amiga, do namorado da outra amiga, e assim por diante. Blanca tem uma grande base de apoio para passar pela dor, ainda que esta às vezes essa mesma dor acabe separando-a de todas as pessoas à sua volta.

Isso também vai passar não tem exatamente um enredo. Ele não vai do ponto A ao ponto B, antes disso passando por uma ou outra necessária reviravolta. Me pareceu mais uma meditação sobre a dor da perda, com o cenário do verão e do mar ao fundo (com seus mergulhos na praia, e churrascos, e noites fora) representando uma tentativa de seguir adiante apesar do luto profundo. O livro é narrado em primeira pessoa por Blanca, que em diversos momentos passa para a segunda – mas ela não está falando com você, leitor. Ela está falando com a mãe, e o livro funciona quase como uma carta. É nesses momentos que Isso também vai passar funciona melhor. A dor da protagonista soa verdadeira, sincera e profunda. Ela tenta seguir em frente, mas ainda está tão ligada à mãe que continua falando com ela, apesar de não esperar resposta nenhuma.

Mas foram momentos isolados porque, ao mesmo tempo, o livro não me comoveu, não me prendeu nem me conquistou. Fiquei por muito tempo de perguntando se, talvez, isso não aconteceu porque tenho a sorte de não entender a dor do luto de Blanca. Mas meu livro favorito no ano passado foi essencialmente sobre isso, e o que tem me deixado com dificuldade de me conectar com outras histórias, lido em fevereiro, também. Talvez meu maior problema tenha sido com a voz da narradora, a maneira como ela interpreta as pessoas, o mundo ao seu redor. Ainda que tenha momentos muito bonitos, ou momentos que soam muito genuínos (quando fala com a mãe, especialmente), Blanca gosta de fazer generalizações e de criar teorias a respeito das coisas, elas simplesmente não são convincentes. A voz dela é muito melhor para falar apenas sobre si mesma. Ou simplesmente narrando o que vê. O cenário de Cadaqués, ou o caminho até lá, muitas vezes aparece como o sopro de vida, de leveza, necessários em meio à tristeza. E como algo muito real – porque a dor passa, ou diminui, e nunca engloba o mundo inteiro.

Talvez tenham faltado os famosos momentos de iluminação dos quais eu tanto gosto, porque talvez eu não saiba lidar ou apreciar a representação do luto de maneira mais crua. Isso não vai passar não é nem de longe um livro ruim, e a narrativa deixa ver que Milena Busquets é talentosa e sabe mexer com as palavras, mas faltou algo a mais para criar uma conexão. Algo a mais que me fizesse sentir no âmago a dor de sua protagonista e narradora, algo a mais que me fizesse sentir que os necessários e bem-vindos momentos de leveza eram realmente positivos. Se esse romance acaba sendo muito mais universal do que as duas outras narrativas sobre a dor e o efeito da perda que li recentemente e amei demais, também soa mais distante e, por isso, menos comovente.

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura – ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.