Isso não é Admirável Mundo Novo, vocês não são O Selvagem


Texto: Paloma Engelke

ou Prazer, Millennial.

Acho que chegar aqui questionando o termo Millennials em si não vai nos levar a lugar nenhum. Primeiro porque é um conceito sociológico que mais merece ser analisado e problematizado do que questionado enquanto rótulo. Segundo porque eu acho uma expressão muito bonitinha e quero defendê-la. O problema não está no nome, está em quem criou o nome.

Mas vamos começar conceituando, porque é a forma como eu gosto de começar para garantir que a gente se entenda mais ou menos bem. Gente metódica, sabem como é. Millennials ou Geração Y somos nóses — provavelmente. É um conceito sociológico para identificar as pessoas economicamente privilegiadas e nascidas em cidades relativamente desenvolvidas entre o começo dos anos 1980 e meados dos anos 1990/início dos anos 2000 (na verdade até a data final varia bastante). Importante fazer o recorte espacial e econômico porque um ponto central do conceito é ser a primeira geração a ter crescido com acesso a tecnologia e ter toda nossa vida, pensamentos e posturas pautadas por esse contexto.

O problema não está no conceito em si. O problema está em acreditar que existe alguma coisa parecida com uma análise imparcial de qualquer coisa nesse mundo. Chegou a hora da virada e de analisar o olho que nos analisa.

A gente vive no futuro. O futuro das grandes obras clássicas de ficção científica é hoje. Mesmo que carros ainda não voem e a gente não vista prateado o tempo todo. Em milhões de pontos a gente foi muito além dos avanços que os autores conseguiram imaginar em seu tempo. Caramba, a gente anda com o mundo no bolso de uma forma assustadoramente literal. Já passou do ponto em que nós poderíamos ler Admirável Mundo Novo e nos identificar com a figura do selvagem, chegou a hora de reconhecer que nós somos os londrinos. E que o conceito de Millennial foi criado por quem ainda vê o mundo com os olhos do selvagem.

O que acontece é que o tempo passa e nós, enquanto geração, estamos finalmente chegando à fase da vida em que temos consciência suficientemente de nós mesmos para olhar de volta para a lupa gigante sobre as nossas cabeças e dizer que eles podem tentar nos categorizar e estudar o quanto quiserem, mas nós não somos obrigados a concordar com as conclusões. Inclusive, nós temos nossas próprias conclusões.

Eu sou uma pessoa muito dada à auto-reflexão. Eu gosto do ato de “meta-pensar” (pensar sobre pensar) e de questionar a origem do meu pensamento, inclusive a partir da minha identidade enquanto pessoa e dos diversos contextos em que eu estou inserida. Sim, eu faço isso por diversão e eu acredito que muitos de nós, Millennials, façamos isso de maneira mais ou menos consciente.

Mas nós não somos os primeiros nem os últimos a fazerem isso. A questão é que nós somos privilegiados por sermos os primeiros a poder fazer isso coletivamente em larga escala, incentivando uns aos outros e nos agrupando em torno disso. Antes da tecnologia, você precisava em primeiro lugar ter coragem de admitir que pensava tanto assim em si mesmo, e encontrar outra pessoa que tivesse essa mesma coragem e vocês dois calharem de estar geograficamente perto. Então, principalmente se vocês fossem homens de vida confortável, vocês poderiam ir para um bar meta-pensar em conjunto e, se fossem muito privilegiados mesmo, publicariam alguma coisa que poderia ter maior ou menor circulação, mas sempre com um público seleto e restrito.

Nós temos blogs, e newsletters, e sites, e revistas virtuais, e redes sociais e infinitas maneiras de compartilhar nossos pensamentos com basicamente qualquer um que esteja passando. Você, Selvagem, pode até ter agora essas mesmas também, mas com certeza não sabe lidar com eles da mesma forma que a gente. Desde que começamos a pensar, a gente pode compartilhar o pensamento e conhecer gente que pensa igual, more essa pessoa aqui ou na China. E isso também encoraja a que outras pessoas pensem (igual ou diferente) e compartilhem seus pensamentos até o ponto em que parece que somos realmente uma geração de narcisistas que não fazem nada além de pensar sobre si próprios, quando um olhar mais cuidadoso perceberia que a forma como fazemos isso, inclusive considerando e analisando nossos próprios privilégios, tem impacto direto na forma como nos relacionamos com tudo à nossa volta e buscamos (ou não) mudar alguma coisa.

Previsões sociológicas se dividiram sobre se seríamos uma geração extremamente narcisista ou especialmente socialmente engajada. O que ninguém percebeu foi o que o nosso contexto permite que nós sejamos as duas coisas ao mesmo tempo e eu acho isso incrível.

Nós temos dispositivos de busca e acervos de informação imensos que são criticados justamente por sua vastidão. Diz o selvagem que isso faz com que nossos conhecimentos sejam superficiais. Eu tendo a achar que isso ajuda a reverter um pouco o processo de especialização cada vez mais extrema do conhecimento e nos permite retomar uma abordagem muito benéfica de encarar questões com um viés multilateral que talvez falte a você, querido Selvagem.

Pode ser que nós realmente nos achemos floquinhos de neve especiais, mas será que o resto do mundo não se acha também? Ou antes do nosso nascimento os pais em geral não achavam seus filhos a última bolacha do pacote? O Selvagem aponta o dedo e diz que somos mimados e achamos que o mundo tem que se moldar a nós. O que acontece na verdade é que nós temos a faca e o queijo na mão para desafiar os padrões vigentes e dizer, em coro, que não, não está legal assim e pode estar na hora de repensar tudo isso.

E nós somos, sim, imediatistas — porque o mundo agora funciona justamente no agora. Daqui a algumas hora uma informação está defasada; em dois minutos os ingressos do show se esgotam; em trinta segundos uma vaga de emprego é preenchida. O problema é só que nós estamos preparados para lidar com essa nova realidade e o Selvagem, não.

Eu poderia ficar aqui para sempre, mas como boa Millennial que sou, tenho mais o que fazer. Termino só abraçando mais uma característica especial que gostam de jogar contra nós a torto e a direito: nossa síndrome de Peter Pan. Mas essa parte eu abraço por mim e por todas as outras pessoas do mundo com base em uma pesquisa sociológica empírica que eu fiz outro dia. Estava saindo do shopping com a minha mãe e perdemos o carro no estacionamento (sim). Depois de meia hora rodando e de pedir ajuda ao segurança, achamos. Indo para a casa dela, resolvo perguntar (porque nunca antes eu tinha pensado em perguntar isso para minha mãe): “mãe, você se sente adulta?”. “Às vezes”, é a resposta dela. Não sei quanto a vocês, mas estou começando a acreditar que ninguém sabe realmente o que está fazendo.

Resumindo tudo, minhas conclusões mais recentes são apenas duas (e podem mudar de hoje para amanhã): (1) crescer é uma ficção; e (2) está na hora de reescrever esse admirável mundo novo por um outro ponto de vista.

 

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Sobre Paloma Engelke

Paloma Engelke é carioca de nascença, advogada porque a vida quis, leitora e escritora porque sim, mas em geral ainda busca seu lugar ao sol. Vive no mundo da lua e se dá muito bem com os vizinhos, mas de vez em quando desce aqui e ali para dar uns alôs.