Intensidade ou relacionamento abusivo?


Texto: Gabriela Varella // Arte: Raquel Thomé

O limite entre o que é tóxico e o que realmente é sentimento

Sempre tive a consciência de ser uma pessoa muito intensa. Nos sentimentos bons e alegres, mas também em tornar as situações difíceis ainda mais dramáticas – um tanto quanto canceriana, admito. O problema é quando essa intensidade se torna um sentimento de posse sobre o outro. Pode, sim, beirar a linha tênue que delimita o que é um relacionamento abusivo. Nós, mulheres, estamos muito mais suscetíveis a entrar em uma relação tóxica. E dificilmente conseguimos sair dela sozinhas.

Já estive em um relacionamento abusivo e só percebi mais tarde o quanto isso refletiu nas minhas atitudes. Entrei num ciclo de ansiedade e insegurança que ainda se manifesta até hoje. A violência contra a mulher, segundo a Lei Maria da Penha (11.340/2006), também se desdobra em outras: física, sexual, moral, psicológica e patrimonial. A violência psicológica, muito presente em um relacionamento abusivo, pode aparecer de forma sutil. Ser desacreditada, humilhada e minimizada faz com que a mulher realmente acredite ser incapaz. Por muitas vezes, me questionei: “Será que não estou exagerando?”. Ou “será que a culpa é minha?”. E não, a culpa não era minha. Nem sua, tampouco.

Geralmente confundimos o sentimento de posse sobre o outro como sinônimo de intensidade ou de um amor profundo. Será que eu estava errada em sair com essa roupa? Será que eu não deveria ter saído com meus amigos? Esses pensamentos passaram muito pela minha cabeça – principalmente antes de ter um contato mínimo com o feminismo –, mas era um jogo eterno para que eu imaginasse que o X estivesse chateado comigo. E, obviamente, sentisse a famigerada culpa. Também existe o fato de que tendemos a amenizar tudo quando gostamos da pessoa, apostando todas as fichas em um carinho ou alguma migalha que possa aparecer após uma agressão. “Ah, olha só, mas ele me deu flores. Está arrependido.” Importante salientar que a opressão de gênero sempre ocorre, mas isso não isenta todas as outras relações. Mulheres também podem ser abusivas, e a intensidade em sentimentos não pode ser utilizada como desculpa para a manipulação (com outras mulheres e, em certa medida, até com homens).

Faço aqui um apelo às outras mulheres: não culpe a sua amiga pelo relacionamento abusivo. É muito doloroso sair dessa. Sim, talvez a sua amiga também tenha percebido que está dentro de um relacionamento abusivo. E não é nem um pouco fácil colocar um ponto final. Se afastar dela só vai fazer com que ela afunde ainda mais nesse poço, e que o namorado – ou namorada – seja a pessoa mais próxima a quem recorrer. Além disso, o opressor sempre vai colocá-la para baixo e fazer com que a autoestima e confiança seja nula. Na cabeça dela, talvez ela nunca vá conseguir arranjar outra pessoa que a tolere (aquela história de que “ok, você é uma pessoa horrível, mas eu vou te perdoar porque sou um cara tão bacana e que te ama mesmo assim”).

Para mim, a forma de libertação foi o empoderamento. Tomar consciência de que eu poderia ser muito feliz na minha própria companhia. Levar informação a outras mulheres é fundamental para que essa evolução aconteça. Mas é ainda mais difícil quando a mulher tem uma resistência ao feminismo – não à toa, fomos educadas para repelir essas ideias desde cedo. Não casar? Não ter filhos? Não saber cozinhar? Não conseguir apimentar a relação para segurar o casamento? É, e por aí vai. Trabalhar a autoestima dessa mulher, que está tão fragilizada, faz parte do fortalecimento. E, sim, somos mais fortes juntas.

Voltando à intensidade. Talvez você esteja um pouco assustada de pensar que, por ser uma pessoa intensa, isso possa te tornar abusiva. Sei que a intensidade pode aparecer também em momentos difíceis e fazer com que tudo fique ainda mais complicado. Aceitar-se como uma pessoa intensa já é honestidade contigo (e com o outro). Aceitar que os outros não podem ser um retorno das nossas expectativas – e que tá tudo bem, cada um tem a sua forma de sentir. Isso não significa que seja menos – talvez seja a resposta para os intensos como nós. O sentimento bom e sentido com intensidade, aquele que faz bem ao relacionamento, esse sim é importante de ser cultivado. Não vale a pena sustentar sentimentos tóxicos, e muito menos relações tóxicas.

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