A incrível história de Adaline e o mito da juventude eterna


Texto: Palome Engelke

A vida trabalha de forma engraçada às vezes. Eu assisti A incrível história de Adaline em um avião, não porque o filme tenha me chamado especialmente a atenção, mas como uma escolha completamente aleatória em um monte de opções que não tinham me chamado especialmente a atenção. Algumas questões do filme me irritaram já nesse primeiro momento, mas em geral a realidade superou a expectativa e, ainda que não tenha achado nada extraordinário e um tanto quanto presunçoso e cafoninha, eu gostei.

Cortamos para hoje. Eu fazia meu café da manhã enquanto ouvia uma amiga professora contar sobre as aulas que ela está preparando e os vídeos que ela quer usar. Entre esses vídeos tem um chamado O corpo das mulheres que, em meio a trilhões de questões relacionadas à representação do corpo feminino na televisão, toca rapidamente no ponto da negação do envelhecimento como uma negação da própria personalidade feminina, construída a partir das vivências particulares de cada uma.

Logo depois, estava zapeando pela Netflix e me deparei mais uma vez com o A incrível história de Adaline. Ainda com a conversa da amiga na cabeça, resolvi re-assistir o filme e refletir um pouco sobre a questão da juventude e da negação ao direito fundamental de envelhecer.

A trama central de A incrível história de Adaline é justamente essa. Adaline era uma moça normal: jovem, viúva e mãe de uma menina de cinco anos, até o dia em que sofre um acidente, “morre” e volta à vida por causa de um raio que coincidentemente atinge o carro em que ela estava da forma e no momento exatos para não só fazer seu coração voltar a bater, como também para alterar seus genes e fazer com que a personagem apenas parasse de envelhecer.

Obviamente que isso só afetou o corpo dela — para afetar qualquer outra coisa ela precisaria ter sofrido dano cerebral e/ou ter sido tirada do nosso contexto espaço/temporal, o que não aconteceu. Ainda assim, o que a história quis fazer foi justamente colocar como a negação do envelhecimento físico da personagem negou a ela a possibilidade de viver e crescer além da idade aparente do corpo dela.

Em seus mais de cem anos de vida, Adaline amadureceu? Sim, com certeza; mas de uma forma muito limitada. A variedade limitada de situações pelas quais ela não teve/pôde passar na vida fez com que ela ficasse para sempre presa à idade aparente do seu corpo e tivesse as portas fechadas para qualquer amadurecimento psicológico associado à real evolução biológica que lhe foi negada. Por dentro e por fora, Adaline seria para sempre uma mulher de vinte e nove anos — só com “um pouco” mais de experiência do que as outras, pela repetição eterna de um número limitado de situações possíveis para uma pessoa de vinte e nove anos de idade.

O filme não faz uma ligação direta exatamente entre a falta de sinais físicos de envelhecimento e o fato de a personagem ter ficado literalmente presa no tempo para sempre. Mas não deixa de ser isso: a impossibilidade de registrar no corpo as situações vividas, negou à personagem a possibilidade de desenvolver sua personalidade além daquele estágio em que o seu corpo ficou congelado.

Nossa personalidade é forjada pelas situações que vivemos todos os dias e condicionar a validade de seres humanos (em geral: mulheres) a uma aparência física jovem, negamos a elas (a nós) a possibilidade de expressar completamente nossas identidades enquanto pessoas que passaram por experiências de vida reais. Forçar mulheres a passarem por intervenções estéticas que limitam a demonstração de expressões faciais é uma forma limitar sua liberdade de expressão e a exteriorização plena de suas personalidades.

Ao invés disso, eu sinto que a obra fez a conexão da incapacidade de amadurecimento com a necessidade de fuga constante e de manter a performance jovem, o que não deixa de ser um ponto válido e igualmente uma crítica social. Impedida eternamente de aparentar e se sentir como uma senhora de cinquenta, sessenta, etc., anos de idade, ela ficou para sempre condicionada a se comportar como alguém da sua idade cronológica quando parou de envelhecer, por essa necessidade constante de se esconder/manter uma imagem jovem perante o mundo.

De um jeito ou de outro, o filme faz uma crítica interessante e pertinente à sociedade atual que valoriza a aparência de juventude acima de qualquer coisa, incluindo uma lição de moral velada bem brega sobre como temos que ter cuidado com o que desejamos e sobre como precisamos valorizar e viver ao máximo cada momento do curso natural da vida e tudo o que ele representa.

De forma nada surpreendente (spoiler?), no momento em que a personagem decide parar de se esconder e ir Viver a Vida De Forma Plena sem se importar com a aparência ou com o que o mundo iria pensar, uma outra sequência também completamente aleatória (e forçada) de eventos faz com que ela volte milagrosamente a envelhecer e ganhe a sua versão diferenciada de felizes para sempre. Eu falei que era cafona.

Compartilhe:

paloma.engelkemuniz@gmail.com'

Sobre Paloma Engelke

Paloma Engelke é carioca de nascença, advogada porque a vida quis, leitora e escritora porque sim, mas em geral ainda busca seu lugar ao sol. Vive no mundo da lua e se dá muito bem com os vizinhos, mas de vez em quando desce aqui e ali para dar uns alôs.