Iludido e feliz


Texto: Diego Matioli

Eu não sei se você acredita em horóscopo, mas ele sempre descreve pessoas do signo de touro como materialistas. Independente da sua crença sobre o assunto, o fato é que eu sempre me identifiquei demais com isso, mas já bem cedo percebi que existe certo estigma na palavra “materialista”. A maioria das pessoas entende que isso denota alguém que prioriza posses em detrimento de conexões, quase que um viciado em bem materiais. Eu nunca entendi essa interpretação, visto que materialismo para mim significa simplesmente guardar pessoas e momento dentro das pequenas peças que compõem o dia-a-dia. Aquela pelúcia ganha outra importância quando ela te foi presenteada pela sua tia, aquele livro é mais difícil de emprestar, porque ele foi dado pelo seu primeiro amor, aquela moldura foi da sua avó antes de ser sua, e isso torna ela ainda mais especial. Eu não gosto simplesmente das coisas, mas das histórias que as coisas contam, das pessoas por trás delas. De fato, eu acho que guardo mementos como forma de controlar o medo que eu tenho de esquecer das coisas importantes para mim, mas isso é assunto para outra hora.

Só que eu sei que isso também é lido como uma forma de escapismo. Quando minha avó faleceu, eu me recusei a ir com o resto dos meus parentes desmontar a casa dela. Eu simplesmente não suportava a ideia de ver aquela casa despida de toda uma história que foi tão importante para mim. Recentemente minha mãe falou em vender nossa antiga casa, que eu não visito há dez anos, e eu pedi expressamente para não ter de ir até lá acompanhar o processo de venda pelo mesmo motivo. Se eu fosse lá hoje, aquela não seria mais minha casa, e pensar nisso me faz mal. Se eu não for nesses lugares eu posso me iludir e acreditar que eles ainda são do jeito que eu lembro. A coleção de pratos da minha avó nunca deixou a parede da sala de jantar, o pote de suspiros ainda está na beirada do criado mudo esperando a horda de netos surrupiarem eles enquanto assistem televisão, as paredes do meu antigo quarto ainda são verde “Colgate tripla ação” e eu ainda posso colher hortelã do nosso jardinzinho para fazer chá.

Eu sei que essas partes da minha vida acabaram, entende? Eu só não quero que isso signifique que elas estão mortas. Enquanto eu puder mentir para mim mesmo, faço de cada época da minha vida eterna a seu modo. É como se essas partes do meu passado ainda existissem, ainda que eu não possa mais visita-las. É menos triste para mim pensar assim, porque a felicidade de outrora não parece perdida, apenas realocada para esse grande museu de lugares que já não são. É mais preciosista, é extremamente mentiroso e alguns julgariam simplesmente se tratar de escapismo para não ter de lidar com coisas difíceis. E tudo isso pode estar certo ao mesmo tempo, se quer saber. Mas o que eu quero dizer com tudo isso é que nem toda a ilusão é triste ou tóxica. Existem essas pequenas mentiras que ajudam a gente a levantar a cada dia. Pequenos atos de fé, seja por Deus ou pelo que fizer sentido para você. Eu amo minhas próprias ilusões.

Sou da sincera opinião de que se nós é que damos sentido para nossas próprias vidas, eu prefiro que o sentido da minha seja tão bonito quanto eu puder faze-lo. Embelezo a morte e a perda, a passagem do tempo e a inevitabilidade das coisas. Floreio o agridoce porque uma colher de açúcar torna qualquer xarope mais fácil de engolir. Acho que a vida é curta demais para ser plenamente racional e tentar fazer sentido o tempo todo. As vezes simplesmente fazer o que te faz bem, contanto que isso não cause mal a si mesmo e mais ninguém, é mais importante do que a mais verdadeira das verdades.

Então sinta-se a vontade de me chamar de iludido, só não ache que eu sou infeliz por causa disso.

Compartilhe:

matioli.motta@gmail.com'

Sobre Diego Matioli

Diego é uma pessoa extremamente passional que fala sobre o que sente e sente muitas coisas ao mesmo tempo. Ele também é escritor, professor e o que estiver dando vontade de ser no momento.... Disponível no twitter @Egotista e na Augusta aos sábados a noite.