How I Met Your Plot Device: uma conversa


Aviso: esse texto contém diversos spoilers sobre o final de How I Met Your Mother. Pare a leitura se não quiser saber de nada.Se quiser continuar, pega uma pipoca porque lá vem história.

 

Lorena: Vamos começar. Primeiramente, o objeto de estudo dessa conversa: a série infame que me fez passar 9 anos pra fazer papel de trouxa, How I Met Your Mother. Queria saber sua opinião enquanto assistia e depois da finale, ela mudou?

Milena: Antes eu preciso esclarecer que eu NUNCA vi a finale. Simplesmente porque saber o que aconteceu me fez nunca mais ter coragem de perder um segundo de vida com essa série traidora. Então sim, o finale mudou muito minha opinião. Juro que achava que fossemos ver o Ted evoluir como pessoa e aprender que mulheres não são elementos narrativos na vida dele. Mas paciência.

Lorena: Justo. Eu perdi as esperanças com isso lá pela sexta ou sétima temporada, mas achei que pelo menos seria algo fofo e ele encontraria alguém que gostasse de verdade e respeitasse minimamente como ser humano, ainda que fosse meio manic pixie dream girl. Mas no final das contas, acho que nem isso, né?

Milena: Não, nem isso. O Ted nunca conseguiu encarar as namoradas como seres humanos porque a construção dele sempre foi baseada nele sendo o centro do mundo. Acho que ele tem muito da jornada do herói, não? Tipo, de ser o mais importante, o escolhido. O último cara sensível do mundo e por isso merecer (sim, MERECER) encontrar a mulher que ele julgava ideal.

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Não dava pra confiar mesmo

L: Síndrome de nice guy: check. Desnecessário dizer que os showrunners da série são dois homens. Enfim. Ele até teve algumas namoradas legais durante os anos (minha favorita era a Victoria), mas elas sempre eram apagadas de qualquer traço forte de personalidade. E mesmo quando elas tinham algo, se terminavam com ele eram sempre seres humanos horríveis na perspectiva da série.

M: SIIIIM! As namoradas dele nunca foram completamente desenvolvidas como personagens. Ele simplesmente julgava e via defeitos absurdos em todas as mulheres do mundo, até o momento em que ele se fixava em uma que só existia pra não discordar dele (tirando a do museu, sempre esqueço o nome dela). E elas não tinham nenhuma função na história além de existir pro Ted. Só a Robin tinha personalidade, mas ao mesmo tempo ela era a clássica cool girl. 

L: A Quinn? É, eu odiava ela, mas em retrospecto, acho que porque ela parecia muito odiável pro Ted. Na verdade, era só uma pessoa com convicções fortes e uma vida meio complicada porque ela tava se divorciando e se sentia solitária. Mas não, Grande Julgador Ted acha ela ruim, então ela é ruim. Agora, vamos falar dos outros personagens um pouco. Quais são seus sentimentos sobre o Barney?

M: Não, era a Zoey. Mas tá vendo? Mais uma vez uma personagem parece horrível porque o Ted acha ela horrível. E ok, a série é narrada por ele. Mas não sinto que seja só um recurso narrativo. É mais a história oficial mesmo. E o Barney! Eu apenas sinto um luto eterno pelo desenvolvimento de anos jogado fora. E ao mesmo tempo, é muito frustrante ver a série durante um tempão achando que o Barney poderia ser um crítica a um tipo de homem muito comum e no final a história dele é só pra ser engraçada mesmo.

Era pra levar a sério?

Era pra levar a sério?

L: ERA DA ZOEY QUE EU TAVA FALANDO. SÓ CONFUNDI OS NOMES. A Quinn era a stripper que namorou o Barney e também foi taxada de chata e com opiniões demais. Falando nele, confesso que nunca prestei tanta atenção no Barney pra além de um plot device que fazia o Ted parecer melhor. Na real, acho que pelo menos o Barney era mais honesto com ser horrível. Mas como você acha que poderia ter sido melhor o desenvolvimento dele?

M: Eu achava, na verdade. Depois do finale eu percebi que superestimei a série o tempo todo. Mas eu achava que ele poderia melhorar como ser humano, que esse discurso do playboy poderia ser ridicularizado. Ou que depois podia ter algum tipo de arco problematizando a questão do cara conquistador que é curado pelo amor. Porque são narrativas que me incomodam muito, tanto essa quanto a do nice guy. Só que o Barney ficou perdido aí no meio.

L: Acho que ele ficou largado pela série, porque afinal, a mulher preferiu o “nice guy” Ted ao playboy. Parece meio autoafirmação dos homens isso aí. E o Marshall?

M: É, parece mesmo. “Vejam, homens. Se você for um cara bacana que julga todas as mulheres (porque você tem esse direito, afinal) mas no final se compromete a aceitar o prêmio de consolação em forma de personagem, você também pode ter a sorte dela morrer e você ficar com a mulher gostosa que arrota mas não deixa de se depilar. Yey”. Mas o Marshall: adoro ele, ele era um ser humano ótimo. Mas se for pra pensar duas vezes, a relação dele e da Lily era bem doentia.

Mas ainda te amamos, Marshall

Mas ainda te amamos, Marshall

L: Acho que, de tudo, foi nisso que mais mudei de opinião depois do final da série. E nem foi logo em seguida, até porque eu tava concentrada em odiar o endgame supracitado do Ted e da Robin. Mas tem algo de estranho nesse relacionamento Marshall x Lily. Ele sempre foi o cara fofo da história, queria mais pessoas como ele na vida real, mas eis o que percebi depois: ela sempre existiu só pra ele. Em nenhum momento a Lily é sua própria pessoa. O que é bizarro considerando que ela é do grupo principal e não uma personagem secundária. Você reparou nisso antes ou só depois que a série acabou?

M: Sempre me incomodou um pouco, mesmo que eu estivesse ocupada amando o Marshall. Por exemplo, quando ela termina o noivado e vai embora. De repente ela vira a vilã da história e o cara não consegue nem usar calças mais. E o Ted (querido), mesmo sendo amigo dela há anos, condena ela o tempo todo. Ele nunca parou pra pensar no pavor que ela sentiu, mesmo que fosse uma coisa completamente natural.

 

Não é não, miga.

Não é não, miga.

L: Sim, até porque ela a) é vilã porque sente medo e foge b) é vilã porque tem receios da família do marido c) é louca das compras d) não se sente preparada pra ser mãe e) quer ter uma carreira. Basicamente ela é uma mulher mais real, que tem dúvidas e tudo. Na minha opinião é a melhor personagem, de longe. Mas isso não funciona na cabeça do Ted machistinha. Aliás, você sabe qual é o endgame dela?

M: Ela desiste da carreira de pintora, né? Esse, aliás, era o único elemento de personalidade dela. Ela tinha um interesse próprio e tal. Mas ao mesmo tempo, não parece preguiçoso? “Temos que desenvolver essa mulher aqui, e agora? Ah, faz ela gostar de pintar”. E no fim das contas nem isso.

L: Parece um interesse super X. Mas é, ela tem 3 filhos e volta pra NY porque o Marshall vai subir na carreira. O que eu acho é que durante a série mesmo ela foi tratada mal: toda vez que aparece flashback, ela era uma pessoa super diferente (tipo, oi, gótica) e no final ela só vira um acessório. Ao mesmo tempo, é taxada de fútil e com uma carreira inferior.

M: Parece que os roteiristas não sabiam o que fazer com ela, inventavam uns plots em que ela basicamente incomodava os desejos do Marshall porque ela queria coisas diferentes e aí no final tudo se resolveu e ela simplesmente não tinha mais desejos. Porque, afinal, o que a série quer que você entenda é que tudo o que uma mulher quer é um nice guy pra chamar de seu, com quem possa viver uma vida cheia de filhos em uma casinha fofa. Mesmo que essa mulher não faça sentido nessa vida.

L: well, duh. Como eu disse aí em cima, zero surpresa que sejam homens os showrunners. Enfim, acho que foi com a Lily que tive o despertar de como essa série, afinal de contas, sempre foi machista, não só no final. Agora vamos falar da Robin?

M: Eu choro um pouco com a Robin. É um clichêzão do pensamento machistinha-nice-guy, né? Ela é escrita pra ser a mulher dos sonhos de todos esses caras. Eles querem uma mulher saída do desfile da Victoria’s Secret mas que gosta de Star Wars. E ao mesmo tempo, ela é um dos caras. Ela só tem a Lily de amiga mulher. Sinto que a intenção era ser a mulher que os caras amam e as mulheres odeiam. E sabe? Preguiça. Queria que ela existisse e a gente pudesse conversar sobre como ela merecia mais da vida do que aqueles bostas. Ela precisava de mais amigas.

Eu acho é pouco

Eu acho é pouco

L: Robin, venha ser do nosso squad feminista. Mas sim. Agora, tenho ódio pelo tratamento que ela dá pra Patrice. É um “olha como sou superior a essa moça legal e com sentimentos” que me irrita. E é claramente machista não-sou-que-nem-as-outras. Odeio que ela seja colocada como melhor que a Lily/todas as outras mulheres da série porque é “sem sentimentos”.

M: A Lilly e as namoradas do Ted são todas tratadas como histéricas, né? E caras, não tem nada de novo nisso. É como mulheres são tratadas desde o início dos tempos. Aí pra Robin ser a personagem mais amada da audiência (porque o final era esse mesmo e o público tinha que ficar feliz) ela é “legal” porque é fria. E ela é fria mesmo, ela é desenvolvida pra ser assim (vide todos os problemas com o pai e tal). E meu deusssss, Patrice! O verdadeiro plot twist seria Robin&Patrice virar canon.

L: Super shippei agora. Mas acho que o pior de tudo da Robin é: ela é cool, sem sentimentos histéricos (aliás: lembra o horror que é aquele episódio que todo mundo fica criticando as “woo girls”?) e tal. Ok, isso é um claro problema de desenvolvimento decente e respeitoso de personagem. Mas vamos aceitar, tá. Aí é de se imaginar que ela não seria tradicional na vida mesmo, já que ela sempre quis viajar, ser independente e não constituir família e criar raízes. O que sempre foi o que o Ted quis. Até que, claro, ela acaba a série formando uma família com ele. Ou seja.

M: Parece que a série só quis provar que ela tava errada de pensar como ela pensava. Ela só precisava de uns anos e uma morte da Tracy-plot-device pra perceber que era isso que ela queria. QUE SORTE QUE A MOTHER MORREU, NÃO É MESMO. SERIA UMA PENA SE ELA CONTINUASSE EXISTINDO.

Cristin-Millioti

Que barra, miga

L: O que nos leva ao principal problema da série como um todo, aliás: a Tracy-mother-plot-device. Ok, a gente passa nove anos assistindo a todas as reviravoltas da vida do cara até que ele encontre uma mulher que é certa pra ele (já considerando o quanto esse conceito é péssimo, ok). Aí é de se imaginar que eles seriam felizes para sempre, já que ela é a mulher da vida dele. Eis que o BobSaget!Ted nos informa que depois do JoshRadnor!Ted ter filhos e casar com a Tracy, ela morre. O que seria trágico e novelístico por si só, mas aí a série estraga tudo em 5 segundos.

M: … Não consigo nem expressar a minha decepção. Não fazia sentido ter esse final. Foi bem desleal. Essa coisa de “era a Robin o tempo todo” é doentia. A relação deles era chata, problemática, fria, não tinha nada de bom. Era só porque ele era obcecado por ela. Só isso. Aposto que os showrunners tão esperando a vida dar a volta e acontecer a mesma coisa na vida deles. Desistam, caras, aquelas ex-namoradas não vão voltar com vocês.

L: Pequeno stalk informa que um deles é casado. Miga, to torcendo pra você não morrer pro cara voltar pra ex. Enfim, o que eu acho foda em tudo isso é que a Tracy, que supostamente deveria ser importante, existiu na vida dele por poucos segundos da narrativa. Ela acaba servindo como meio para um fim. O Ted queria ficar com a Robin, a Robin não queria casar e ter filhos. Ele casou, teve filhos, a esposa morreu, ele tacou o foda-se e foi ficar com a Robin que era o que queria desde o começo. Perturbador, né?

M: Claramente o Brasil foi pioneiro nesse ramo ao lançar a novela Barriga de Aluguel. Seria mais simples, teria sido melhor falar logo qual era a intenção. Teria poupado nosso tempo.

L: Então, acho que a conclusão aqui é que todas – absolutamente todas – as mulheres dessa série nunca passaram de plot devices. Das secundárias mais aleatórias que serviram pro Barney aumentar o Playbook até as namoradas do Ted, sem poupar nem a Lily e a Robin. Elas existem para reafirmar os desejos deles, massagear os egos deles, mostrar como eles são legais, importantes e cheios de personalidade.

M: Todas as personagens femininas dessa série foram desenvolvidas com preguiça. Até as mais centrais foram só até o limite em que começava a glorificação do Ted. Agora meu objetivo de vida é escrever uma série chamada How I Met Your Father. Vai ser uma paródia de todos os homenzinhos de merda do mundo. Estou ansiosa.

L: Eu também. Enquanto isso, glorifiquemos as mulheres da TV – Amy Sherman-Palladino, Mindy Kaling, Amy Poehler, Tina Fey, Jenji Kohan, Shonda Rhimes, Michelle Ashford e outras que me vêm à cabeça – como roteiristas, showrunners, atrizes, produtoras. Vamos valorizá-las pra consumir o trabalho que nos valoriza, ao invés de nos tratar como lixo ou versões irreais. As mulheres que são protagonistas de suas histórias.

M: Vamos fortalecer nosso squad televisivo e exigir coisas como Orange is the new black, não essas tristezas que nos tiram anos de vida pra ver bosta.

L: Por favor.

M: Amem, sister.

 

Pequena lista de séries produzidas por mulheres/protagonizadas por mulheres/com boas personagens femininas (sugerida por nossos seguidores do twitter + nossa busca):

Grey’s Anatomy, How to get away with murder, Scandal, The 100, Agent Carter, Marvel’s Agents of Shield, Steven Universe, The Fall, Outlander, Girls, Orange is the new black, Sense8, Buffy, The Mindy Project, Unbreakable Kimmy Schmidt, Parks & Recreation, AHS: Coven, The Honorable Woman, Inside Amy Schumer, Masters of Sex, 30 Rock, Blackish, Grace & Frankie, Jane the Virgin, Broad City.

 

Tem mais alguma sugestão? Conta pra gente!

 

Compartilhe:
  • Luciana

    Eu só comecei a assistir esse ano. Continuo assistindo pra saber como vai ser até o fim, mas vejo muuuita coisa errada ali. Os caras querem transar com as minas, mas volta e meia falam mal das mulheres que transam no primeiro encontro e tal. O Ted é um arquiteto fracassado que vira professor por falta de opção, mas a Lily, que ama o que faz e que tem um trabalho tão importante quanto o dele, é tratada como uma profissional menor. A Robin, coitada, é mais bem aceita porque é uma mulher com gostos e personalidade iguais a do estereótipo masculino. As ‘brincadeiras’ do Barney, pelo amor de deus né gente!? Se um amigo meu me tratar assim, deixa de ser amigo rapidinho. O Marshall dos caras é pra mim o menos pior, mas é super imaturo, dependente demais. E o Ted acho até pior que o Barney, porque fica nessa de encontrar o amor, querer casar, ter uma família, mas julga as mulheres o tempo todo e claramente as separa em grupos de “pra casar” e “pra transar”. Enfim, a série veio numa época de mudança, podia ter aproveitado isso pra fazer muita coisa diferente, mas foi simplesmente escrota com as mulheres. Ainda bem que temos Shonda e suas personagens maravilhosas e empoderadoras.

  • Camila

    EXATAMENTE!!!!

  • De nada 🙂 Que bom que você gostou

    – Lorena

  • Engraçado que eu super esqueci de colocar na lista, mas até já fizemos post sobre feminismo e Gilmore Girls (http://revistapolen.com/2015/11/27/gilmore-e-outras-garotas/). Melhor série, né Natalia?

    – Lorena

  • grizzlysnake

    Obrigada pelo texto, isso tudo estava batucando minha mente e eu precisava achar quem concordasse comigo

  • Natalia

    Genteee, Gilmore Girls, da Amy-Sherman!!

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