Holden Caulfield te acha um cretino


Texto: Ariel Carvalho

McInereneySubSub-jumboJ. D. Salinger: A Life 2011, ilustração de Paul Sahre

Todas as vezes que digo que meu livro favorito é “O Apanhador No Campo de Centeio”, eu recebo uma das seguintes respostas: “Eu nunca li, é bom?”, Também adoro o livro” ou “Não suporto o Holden” (às vezes, bem às vezes, alguém fala da questão do livro estar ligado a um número de assassinatos).

Talvez o meu amor pelo livro seja consequência de tê-lo lido quando eu era muito nova. Vamos a uma rápida contextualização. Eu li “O Apanhador…” quando tinha uns treze anos, e minha lista de leitura era, quase que exclusivamente, formada por romances. Mesmo os livros de young adult  que eu lia na época eram romances.

Dentre todos os livros que eu lia, eu não conseguia me enxergar em nenhum deles. Todas aquelas personagens (independente do gênero) eram interessantes, legais, mas as suas preocupações não eram as minhas, e eu percebi que as minhas leituras refletiam muito mais quem eu queria ser do que a pessoa que eu era.

Caulfield entra aí na minha vida, como a primeira personagem que fez com que eu pensasse que não estava totalmente sozinha no mundo. Holden, um menino de 16 anos, foge da escola (da qual vai ser expulso, de qualquer forma) num dia de jogo, e sai pelas ruas de Nova York numa jornada de auto-descoberta (não que ele saiba disso, é claro).

À medida que o leitor conhece Caulfield, é normal se apaixonar por ele ou odiá-lo. Ele é um menino um tanto metido, rico, que fala algumas coisas controversas. Mas, de novo, ele tem dezesseis anos, e acho que todos nós falamos e fizemos algumas besteiras com essa idade.

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Não posso falar pelos que o odeiam, uma vez que comigo foi amor à primeira vista. Costumo dizer que Holden, na verdade, só precisa de um abraço. Ele perdeu um irmão que era seu melhor amigo, e parece que todas as coisas que faz são tentativas de ter um pouco de atenção e carinho.

Acima de qualquer outra coisa, porém, Holden Caulfield é muito jovem. Aos dezesseis, quanta insegurança não rola nas nossas cabeças, quantas crises de identidade e quanto medo a gente não sente?

Por mais que Caulfield não esteja preocupado ainda com escolhas profissionais, aqui no Brasil, na idade dele, quase todos vivem aquele momento de decidir o que você vai fazer depois do ensino médio. Toda a insegurança de Holden, muito mal escondida nas atitudes “adultas” dele, fizeram com que eu, aos dezesseis, ao reler o livro, pensasse que também queria ficar com aquela idade para sempre.

As atitudes pseudo-adultas, aliás, são um ponto importantíssimo do livro. Em alguns momentos, Holden é um típico adolescente, falando de meninas com os colegas de quarto, fazendo brincadeiras. Em outros, ele age da forma que ele considera ser adulta, ligando para prostitutas e tentando se embebedar em um bar.

Holden Caulfield tem uma espécie de síndrome de Peter Pan, mas é um pouco mais complicado do que isso. Ao mesmo tempo que ele quer sim, ser jovem para sempre e tem um medo absurdo de crescer, ele não está satisfeito com a sua vida do jeito que está, e tenta ser adulto justamente para ver se consegue calar todos os seus demônios internos.

Ele é um adolescente crítico, mas todas as suas críticas são de certa forma hipócritas, e voltam para ele mesmo (fácil se identificar com isso, né?). Caulfield parece enxergar os defeitos e problemas de todos, menos de si mesmo, é mais fácil apontar as falhas dos outros do que as dele.

Originalmente publicado como literatura adulta, “O Apanhador No Campo de Centeio” reinventou, sem querer, a literatura jovem. Ele foi banido, e depois acabou se tornando um dos livros mais lidos pelos jovens, e também passou a ser leitura obrigatória do ensino médio nos Estados Unidos. Depois de seu lançamento, muitos livros young adult tentaram ser como ele, ou foram chamados de “O Apanhador No Campo de Centeio dos dias de hoje” por críticos da área. Eu discordo (abrindo uma pequena exceção para “As Vantagens de Ser Invisível”, talvez). Só existe um Holden Caulfield no mundo e, ao que parece, sua importância vai ser eterna.

Muito já foi dito sobre o livro, e todas as vezes que falo – ou escrevo – sobre ele, fico com a sensação de falta algo a ser dito. Mas é melhor não me estender muito, ou começo a sentir falta de todo mundo.

 

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Sobre Ariel Carvalho

Ariel é uma lua de Urano, um espírito do ar, um sabão em pó, uma marca de carro e uma pequena sereia, mas também é uma bibliotecária carioca que não consegue terminar a meta de leitura, sabe tudo de Monty Python e chora com filmes de ficção científica.

  • Camila Miranda

    “ou começo a sentir falta de todo mundo” 💜
    Li o livro recentemente e não curti tanto, mas gostei que só da tua visão enquanto amante do livro.