Hiperpertencimento


Texto: Diego Matioli // Arte: Livia Carvalho

Passei grande parte da minha adolescência escrevendo histórias baseadas no universo de Harry Potter. Era como um jogo de R.P.G., só que com mais ênfase na qualidade da escrita e menos em valores de dados. Cada jogador acrescentava o ponto de vista do seu personagem e desenvolvia um pouco mais da história, e gradualmente uma narrativa ia sendo desenvolvida. Eu sempre falo que esse lugar, a Academia Beauxbatons, foi minha escola para a escrita. A alta concorrência nos obrigava a tentar melhorar sempre, e isso foi muito bom para mim a longo prazo. Alias, esse fórum existe até hoje, mas eu estou me desviando da história.

Como em Hogwarts, nós tínhamos nossas casas. Todas começaram como imitações malfeitas das originais, mas criaram identidade própria. No princípio, era raríssimo algum jogador mudar de casa, e a competição entre nós era acirradíssima. Eventualmente coisas foram acontecendo e forçando a administração do fórum a abrir exceções, e eu fui uma delas. Eu comecei na casa equivalente a Corvinal, então passei para a Sonserina. Só que olha só, eu fui uma exceção muito especial, porque depois eu fui para a Grifinória, e então para a Lufa-lufa, depois de volta para a Corvinal e então de novo para a Sonserina. Em suma, eu fui o jogador que mais mudou de casa em toda a historia do fórum.

Só que isso meio que estragou o jogo pra mim.

Eu me via em uma caixinha, sabe? Minhas histórias e personagens tinham de se adequar àquele tipo de personagem que a casa atende. Esse foi um dos motivos que me fizeram querer mudar, diga-se de passagem. Só que eu achava que mudar de caixinha fosse resolver o problema, mas só piorou ele. Agora eu me sentia grande demais para as duas caixinhas. E depois de tantas idas e vindas, chegou um ponto em que eu sentia que não cabia mais em caixa alguma. As minhas ideias estavam grandes demais para uma casa só, eu queria poder fazer parte de todas. Mais que isso: eu já não queria ser rotulado e posto para competir com os outros. Parecia algo pequeno para se fazer com todo o potencial criativo que existia ali dentro fluindo entre as pessoas. Eu tentei mudar isso, mas ao perceber que não encontraria apoio dos outros jogadores, acabei me desligando de vez do fórum.

Por qual motivo eu estou falando disso? Bem, porque isso ainda acontece.

Eu já tive a oportunidade de viajar para alguns países, sabe? E eu percebo que muita gente vai para determinados lugares e se encontra neles. Uma espécie de identificação sobrenatural, quase como se você soubesse que viveu por lá em outra vida. Tem pessoas que simplesmente ficam confortáveis em algum canto específico do mundo. Por muito tempo eu achei que o Brasil era meu maior problema. Eu simplesmente não tinha nascido no lugar certo e precisava me mudar. Só que não foi assim. Quando pisei em Buenos Aires, eu senti saudades de uma vida que eu nunca vivi. Eu me encontrei naquelas ruas cheias de cafés e livrarias e me descobri mais livre e boêmio. E quando eu parti, sentia que estava deixando essa parte de mim para trás de novo.

Eu simplesmente não sei pertencer. Eu quero estar em todo lugar ao mesmo tempo.

Nova York e sua natureza artística pulsante, Paris, onde tudo é épico e dramático, Londres, cheia de glamour e melancolia. Eu não me achei em um desses lugares, eu me achei em todos eles. Cada cidade, estado ou país que eu visito é um Diego em potencial que eu adoraria vivenciar, mas que as barreiras do tempo e da oportunidade não permitem. E isso meio que é um saco, porque eu sinto falta de todas essas partes de mim que eu encontrei lá. E não é como se eu não pudesse apreciar arte ou encontrar melancolia no Brasil. Não é isso, é mais confuso que isso. São pequenos hábitos que fazem os lugares, é o jeito das pessoas, as pequenas oportunidades que só existem aqui ou ali, sensações que estão presas em determinados espaços.

Já ouviu falar que um quarto bagunçado indica uma cabeça bagunçada? Bem, nós influenciamos nosso espaço, mas o espaço também influencia a gente. Eu sinto todo o potencial de transformação de cada lugar em que eu passo, e eu quero ser transformado. Eu quero me entregar de corpo e alma para todos esses lugares, quero estar no mundo todo ao mesmo tempo. Surge outra pessoa dentro de mim toda vez que eu vou para outra terra, e quando acaba eu não sinto falta do espaço, mas da pessoa que existiria ali.

E pouco a pouco eu estou repetindo a jornada que empreitei no fórum de R.P.G.. Logo não haverá lugar no mundo que me satisfaça por inteiro. Só que não tem mais para onde crescer, senão para dentro de mim mesmo, o único espaço que eu pareço nunca ser capaz de desbravar por completo.

Talvez seja para lá que eu devia estar viajando mais.

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matioli.motta@gmail.com'

Sobre Diego Matioli

Diego é uma pessoa extremamente passional que fala sobre o que sente e sente muitas coisas ao mesmo tempo. Ele também é escritor, professor e o que estiver dando vontade de ser no momento.... Disponível no twitter @Egotista e na Augusta aos sábados a noite.