Herança de Família


 

 

Sempre fui fascinada pelo livro de receitas de minha mãe. Minha paixão pela literatura – ou mais especificamente pelos livros – transcende minha incompetência culinária. Já tentei várias receitas ali presentes. Algumas deram certo, mas a maioria acabou saindo extremamente errado. Não que isso me impeça de continuar tentando. Mas a culinária parece ser um dom reservado para outros membros da família. Talvez seja minha metodologia, sempre teimando em seguir todas as receitas à risca. As receitas dentro do livro parecem pedir certo grau de imaginação e dedicação que nunca consegui dar à cozinha.

Há um mundo dentro daquele livro. Não apenas pela quantidade de receitas, que faz com que a lombada se expanda, mas sim por todas as histórias por trás delas. Letras diferentes, grafias de alimentos nunca vistas antes em dicionários. Histórias familiares e de amizade. Lugares onde aquelas pessoas aprenderam a fazer pratos que agora estão imortalizados ali. Todas as páginas parecem estar preenchidas desde a primeira vez que coloquei os olhos no livro. Mas é como um passe de mágica: há sempre lugar para se escrever uma receita nova.

Dentre todas as sessões – Doces, Bolos, Tortas, Salgados, Massas, Carnes, Peixes, Drinks, Diversos – cada uma tem ao menos uma receita. Indo de receitas comuns escritas com as mais variadas grafias às mais absurdas (“Risoto de Pinhão”); casualmente assumem o nome de quem as trouxe ao conhecimento do livro (como o “Machmelo da Wal”). Na parte de Diversos, nada faria mais sentido do que ter receitas de simpatias e remédios caseiros.

 

As sessões de Doces e Bolos estão tão cheias que não cabem receitas novas. Minha avó nunca foi boa em cozinhar para o dia a dia – sua comida era passavelmente comível – mas os olhos brilhavam ao fazer doces para os netos. As receitas mais antigas são de vó Dita, minha bisavó, madrasta de minha avó. Ela não teve filhos, e minha avó e os irmãos não a consideravam como mãe, mas todos os netos a chamavam de “vózinha”. Foi quem ensinou minha mãe a cozinhar.

Na minha família não existem heranças. Joias, imóveis, antiguidades. Não há nada de valor passado de pai para filho. A não ser receitas. Não é possível voltar gerações para saber nossa origem. Nos perdemos nas emigrações estrangeiras, ou sempre estivemos aqui, é impossível saber. Mas o que sabemos é a receita do bolo de cenoura. A cobertura de chocolate fica igual uma casquinha.

 

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Sobre M. R.

Paulista de nascimento, paulistana de alma. Já foi escoteira e já teve Orkut. Na próxima segunda começa aquele curso novo que não vai terminar. Assiste seriados. Muitos.