Heathers: como vemos o outro


Texto: Maria Raquel Silva, Maynnara Jorge, Rovena Naumann

 

Antes de Meninas Malvadas e The Craft, muito antes de Scream Queens e de todas as garotas loiras populares e malvadas nos seriados, havia Heathers (no Brasil “Atração Mortal”, 1988).

Veronica é uma garota certinha que vira amiga das três meninas mais populares da escola, todas chamadas Heather. Ela é bem próxima da Heather principal, a líder do grupo. Podem até ser consideradas melhores amigas. Veronica e as Heathers passam as tardes jogando croquet, e as manhãs atormentando quem elas não gostam na escola. Até que J.D. passa a estudar nessa mesma escola.

J.D. é misterioso, diferente, e Veronica se sente atraída por ele logo de cara. J.D. tem ideias revolucionárias sobre as Heathers, os jogadores de futebol americano e todo o sistema de castas do colegial. Veronica se vê no meio de uma trama sem volta, encenando um teatro macabro onde apenas aparências importam.

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Maria Raquel: Heathers é um desses filmes que parece de terror mas meio que não é, né? Tem um quê de Tim Burton, sei lá. Quando eu estava revendo me pareceu tão próximo a Pânico, com o namorado psicótico…

Maynnara: Não me pergunte por que, mas acho que a vibe anos 80 me lembra Beetlejuice hahahaha. Mas acho que ele tem esse estilo dos filmes de “terror” dos anos 80/90 tipo o começo de Carrie.

Rovena: Nossa, sim. Hoje quando estava revendo eu lembrei de Carrie na mesma hora. E sim, o filme tem toda uma vibe de terror mesmo. E até que a história poderia ser mesmo, porque tudo acontece ali é um pouco chocante.

MR: O que mais me impressiona no filme, que é meio que o ponto que eu queria falar, é de como a Heather principal era o que ela aparentava ser, mas todo mundo compra que ela era muito mais por causa do falso suicídio. Da mesma forma que os garotos.

Rovs: Tipo quando o garoto fala que namorou a Heather e ela não gostou do encontro, mas agora ele sabe que ela tinha outros problemas. E na época do encontro, ele achava que o problema era MESMO com ele.

MR: E mesmo a Veronica, ela mostra uma coisa pra toda a escola que ela não é de verdade. Algo drástico teve que acontecer pra ela ser ela mesma. Inclusive tem uma parte que ela fala que odeia os amigos, mas ela não muda nada sobre isso, continua andando com as Heathers. Mesmo depois da Heather principal morrer, ela continua fazendo favores pras outras.

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May: Nossa, sim! Eu acho que pra mim isso é o mais marcante do filme, como elas passam tanto tempo vivendo de aparências e fazendo coisas que nem mesmo gostam só pra provar que são legais.

Rovs: Sim! E ela até escreve no diário isso, né? Algo como “amanhã vou puxar saco dela de novo, mas por hoje só queria que ela morresse” e isso é uma coisa que é um pouco difícil de acreditar mas ao mesmo tempo não, porque é claro que isso acontece.

MR: E a gente sabe que a Heather é horrível, mas a gente não vê ela ser ruim o bastante pra merecer morrer. E quem merece né? Eu acho o J.D. fantástico porque ele tem essa moral totalmente duvidosa, que pra “arrumar” a sociedade a única solução é matar todo mundo.

May: Pois é! Eu acho que ele também vem pra mostrar como a Verônica é influenciável, porque ela muda completamente pra ser alguém que ele acharia legal, ela passa de heather pra gótica niilista por causa dele hahahaa.

MR: Eu já não acho que foi totalmente por causa dele. Ela já tinha esses sentimentos dentro dela, de que ela odiava a Heather, que os jogadores de futebol eram ridículos, etc. Sinto o J.D. como um catalisador que empurrou a Veronica pra fazer algo que ela sempre pensou mas nunca faria de verdade.

Rovs: Exatamente. Eu também vejo o J.D. dessa forma. Ela fala que queria que a Heather morresse, ele vai lá e providencia isso e ainda arruma uma desculpa pra ninguém desconfiar de nada, usando suicídio. Depois faz a mesma coisa com os garotos. E a Veronica, mesmo ficando um pouco assustada (?) continuava atrás dele.

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MR: Não que o J.D. não seja culpado, porque foi por causa dele que todo mundo morreu, mas sem a vontade da Veronica, sinto que as coisas não teriam acontecido. Porque apesar do J.D. ser manipulador e providenciar os meios para que as coisas acontecessem, ele também ajuda as garotas a conseguir o que elas querem. Tanto a Veronica quanto a outra Heather.

May: Sim, eu concordo! Eu acho que ela não tinha a força de vontade/coragem de ser quem ela era, porque ela ainda tava muito presa a “segurança” que as Heathers davam pra ela. Mas eu acho que ela também se deixou influenciar, acho que o J.D maximizou o que ela sentia, levando ao extremo, né? No fundo a gente sabe que ela odiava o pessoal do colégio, todo aquele processo Daria, mas ela não teria matado todo mundo de verdade se ele não tivesse ajudado ela.

Rovs: Ela só teria ficado no diário e nos “queria que tal pessoa estivesse morta”.

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MR: O J.D. é meio que a materialização dos sentimentos adolescentes, daquela coisa a flor da pele que a gente sente quando tem uns 16 anos. A “teen angst” que a Veronica fala. Eu sempre penso na Marissa Cooper de The O.C….

Rovs: Fale mais sobre a Marissa….!

May: Eu acho que o que a MR quis dizer é aquela coisa que a Marissa tinha de mesmo estando em um lugar de “privilégio” na divisão da escola, por dentro ela ainda odiava tudo e era tão “amargurada” quanto o Seth. Acho que tem aquela coisa de você achar que não pode reclamar por fora porque você tem a vida “perfeita”, mas por dentro você não queria fazer parte de nada daquilo.

MR: Exatamente, igual a Veronica. É a mesma coisa que a Veronica diz na nota de suicídio da Heather. Apesar de parecer que tudo está perfeito na superfície, no fundo não é bem assim. E às vezes é. Com a Heather, não dá pra saber o que ela sentia, mas da pra ver que algumas coisas ela fazia por obrigação, como na parte que ela vai pra festa da faculdade com a Veronica. Da pra ver claramente que ela não queria estar com aquele cara, mas ela faz porque é o que é esperado dela.

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May: Sim! Acho que as ações delas e até mesmo dos outros personagens secundários são pensando por esse ponto, de ter que fazer porque é o que esperam de você. Ou quando você faz algo que não é esperado as pessoas estranham, tipo aquela cena que a Veronica presta atenção na mesa dos nerds e eles ficam com medo achando que tem algo estranho vindo pra eles. Eu acho que no fim, ela queria quebrar essa coisa de que você só pode ser o que esperam de você.

Rovs: E isso de fazer o que esperam de você é uma coisa bem comum na adolescência, né? Pelo menos era muito comum isso no meu colégio. As pessoas só faziam aquilo que os outros aprovariam, mesmo que ela não tivesse interesse/vontade. Acho legal o filme mostrar isso de um jeito muito claro.

MR: É a mesma coisa com a Rory, de Gilmore Girls. Quando ela sai um pouco do padrão do que é esperado dela, a própria mãe dela fica puta, todo mundo fica chocado. Acho que por isso o J.D. é um personagem tão crucial, ele mostra pra Veronica que é possível você fazer as coisas que não é esperado de você. Ele é caos, o que a Veronica precisava pra sair do ciclo vicioso que ela estava vivendo.

May: A Rovs falou que isso é comum quando a gente é adolescente, mas eu acho que estamos sujeitos a passar por isso a qualquer momento da vida, sabia? Eu lembro de uma conhecida que falou que quando era menor era ambidestra, mas tinha vergonha das outras crianças e não desenvolveu isso e acho que até mesmo a situação de vários jovens e adultos que se veem presos em empregos, casamentos e momentos da vida que eles não estão satisfeitos só porque é o que esperado que eles façam.

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MR: Sim! Acho que isso aparece mais na adolescência porque é um momento em que a gente está começando a pensar por si mesmo. Quando somos crianças, mesmo as mais rebeldes, os pais ainda conseguem controlar uma coisa ou outra. Mas é na adolescência que começamos a descobrir que temos o poder de saber o que queremos e agir em cima disso. E aí quando fazemos algo, é considerado com uma rebeldia…

Rovs: Triste pensar que quando queremos ser quem somos, isso pode ser um ato rebelde. Essas caixinhas que as pessoas criam e colocam as outras são horríveis.

MR: Uma das coisas mais difíceis que eu vejo nisso da adolescência é saber quando o problema é os outros ou você mesmo. Na cena final, que o J.D. se mata, fica bem claro que ele estava depressivo, que o problema estava em como ele via o mundo, e não em como os outros se apresentavam.

May: Sim, eu acho que isso também foi um aditivo que motivava ele a fazer o que ele fazia pela Veronica, porque ele de certa forma achava que o fim dele já estava escolhido e pra ele não fazia diferença as pessoas que estavam passando por eles. Pelo menos eu vejo assim, como se ele já soubesse que o destino dele era aquele.

Rovs: Na cena final, a expressão facial dele é exatamente tudo isso que vocês duas falaram. Ele sorri, sabe? Era como se ele já soubesse que ia terminar daquele jeito e ele estava aceitando numa boa, porque foi uma escolha dele.

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MR: É curioso como o filme acaba fazendo um círculo, porque o J.D. insiste em forjar as mortes como suicídios, mesmo com pessoas que claramente não eram depressivas. E ele mesmo acaba se matando.

Rovs: Eu também acho isso muito interessante!

May: Eu vou dá uma viajada aqui na minha interpretação, mas eu acho que ele se via libertando as pessoas, sabe? Como se na cabeça dele o suicídio fosse a libertação e por isso ele forjava a morte dos outros dessa forma. Falando assim, porque geralmente é o pensamento das pessoas com esse tipo de depressão, de que a morte é a solução pro problemas e que depois vai ficar tudo bem, sabe?

MR: Total! Tanto que quando ele com a Veronica estão no lugar das caldeiras, ele fala algo do tipo, acho que ele diz que só assim todo mundo vai ficar junto no céu. Que só com todo mundo morto a sociedade vai ser melhor em outro lugar.

Rovs: Faz muito sentido o que você estão falando. E eu acabei de lembrar de uma coisa: o J.D. escreve uma carta para os pais da Veronica falando que ela era suicida e quando ela entra no quarto, tem uma Barbie, claramente a representando, enforcada. O que você tiraram disso? Ele realmente queria que ela se matasse ou era só um joguinho estúpido?

May: Eu acho que era o que ele esperava que ela fosse, né? Na minha cabeça o fim do jogo dele era eles dois se matando. Nessa hora confesso que pensei que ele ia forjar a morte dela também, mas acho que era mais um recado do que ela deveria fazer, não sei.

MR: Ele fala disso, se não me engano, quando entra no quarto e vê a Veronica enforcada. Ele diz que ia tentar convencer ela a matar a Heather e se não funcionasse ele ia ter que matar ela. Mas estou com a May, acho que no fim ele ia tentar fazer a Veronica se matar com ele.

Rovs: Seriam mais dois suícidios que entrariam pra lista. E sobre isso, a Veronica fala que tudo que estava acontecendo no colégio parecia estar banalizando o suícidio. Que todo mundo agora queria isso também porque era como entrar pra um grupo descolado. E a Heather comenta isso também, né? Que os “perdedores” estavam, mais uma vez, copiando os “populares”.

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MR: Sim, essa banalização do suicídio é uma coisa que acontece, e que as pessoas que querem ajudar não veem que estão banalizando. Igual aquela professora, o pessoal do jornal… Eles queriam ajudar, mas só estavam transformando algo pessoal e triste em um circo. E no fim, a Martha, que tava na cara que realmente tinha pensamentos suicidas, acabou indo na onda…

May: Como vocês falaram, eles realmente ajudaram a transformar tudo num circo, de repente se suicidar parecia uma coisa legal pras outras pessoas, porque eles viam isso como uma forma de ter atenção, né? Tudo que se fazia depois que tinha algum suicídio era meio que enaltecer a pessoa que morreu e isso chamava atenção dos outros como se fosse oportunidade, né?

Rovs: Sim, era uma oportunidade de todo mundo perceber que você existia e até aquela pessoa que nem conversava com você lamentaria a sua morta. Só que ficou claro que com as pessoas que eram considerados “perdedores” não seria desse jeito. O que é bem triste.

MR: Até na morte as aparências importavam, até depois de ter morrido as construções sociais ainda prevaleciam.

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