Hábitos e rupturas


Arte: Bianca Albino // Texto: Sandra de Cássia

Por vezes é preciso ruir para se descobrir.

Quando lutamos para quebrar paradigmas e tradições, o preço da liberdade pode ser alto. O conforto do que é conhecido nos limita e romper com esse conforto e com o hábito, sair do caminho predeterminado é difícil, mas é necessário virar as costas para o que nos limita, o que já conhecemos, e trilhar um novo caminho em busca de liberdade, de equilíbrio interior, de novos ares.

Talvez uma das coisas mais difíceis da vida seja romper com determinados ciclos e vivências do nosso cotidiano. O esforço necessário para abandonar ligações e ideias prejudiciais para as nossas vidas se torna ainda mais pesado pela dificuldade que temos em aceitar a ruptura com o outro, e muito mais, a ruptura de nós mesmos.

Não, não é simples romper com relações abusivas, por exemplo, ou com heranças ideológicas fundamentadas no preconceito e na desvalorização do outro, na desvalorização de nós mesmos, e tudo que foge dos padrões preestabelecidos pela família ou pela sociedade.

Falamos em machismo, misoginia, racismo, LGBTfobia e violência doméstica todos os dias – o mais chocante é que muitas dessas violências – por vezes mais psicológicas do que físicas – acontecem dentro de casa, nos círculos de amigos, na sala de aula e nos templos religiosos. E reproduzimos muitas dessas ideias e atitudes sem mesmo perceber, ou como uma forma de autodefesa, de preservação da nossa imagem, para não sermos foco de julgamentos ou “brincadeiras” desagradáveis.

Isso nos mostra que não podemos negar a grande força que os hábitos e tradições exercem sobre nossas decisões, atitudes, comportamentos, por mais negativos que muitos deles sejam para nós e para os outros. Por isso se torna mais que necessário se libertar de ambientes estéreis, sufocantes, de pessoas que oprimem a si e aos que estão ao seu redor. A atualidade nos mostra que o caminho até aqui talvez não tenha sido traçado da melhor forma, e que há uma necessidade não só individual, mas também coletiva de mudança de tantos hábitos e ambientes prejudiciais para a igualdade, para o respeito, para o equilíbrio.

Por mais temerosa, desprotegida e solitária que pareça a paisagem dos desvios, dos novos caminhos, por mais assustador que seja encarar a nós mesmos, prefiro os ares da possibilidade de verdadeiramente ser do que a esterilidade e o peso de não saber e não ser quem realmente sou.

Como a Nomi bem disse para o Lito, na primeira temporada de Sense8: “A verdadeira violência, aquela que eu percebi ser inesquecível, é a violência que exercemos contra nós mesmos quando temos muito medo de sermos quem somos.”

Não há como ter algo novo fazendo sempre as mesmas coisas. Querer novas paisagens exige novos percursos, sem olhar pra trás, sem medo de ser melhor. Vamos nos permitir?

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