Guerra e registro: Martha Gellhorn #SemanaDosLivros banidos


Texto: Amanda Ariela

Eu queria começar este texto dizendo que li todos os textos sobre guerras que Martha Gellhorn escreveu. Adoraria dizer que não estourei minha deadline duas vezes ou que os textos de Martha não me deixaram acordada durante a noite, pensando e refletindo sobre a humanidade.

Mas isso é impossível.

Para começar, acredito que vocês nem saibam quem é Martha Gellhorn. Eu também não sabia disso e, se dependesse só da faculdade de jornalismo, eu também não saberia quem ela foi.

Em julho de 2012 eu fiz um curso de verão em uma escola preparatória dos Estados Unidos. Munida de uma bolsa de estudos, passei por um método de ensino diferente: Lá, a gente lia os textos antes da aula, discutia as informações entre os colegas e era isso. O professor só interferia quando a classe destoava ou se afastava demais do tema, perdendo tempo.

Adoraria dizer que cheguei lá bem e empolgada com a meca do aprendizado, que formou pessoas como Dan Brown, Mark Zuckerberg e John Irving. Mas não. Eu estava exausta e com vontade de estar no meu país, no meu quarto, na minha cama, curtindo as minhas merecidas férias de julho. Fui parar no psicólogo da escola e tive ajuda para perceber que eu estava cansada – só cansada, que não havia nada de errado comigo e que eu descobriria, por fim, qual vestibular prestar, sem ter dúvidas sobre meu futuro.

Uma das aulas que eu fazia era a de “Contemporary Issues on Journalism”, a turma era diversa. Indianos, Chineses, Turcos, Espanhóis, Italianos, dois Brasileiros e nenhum americano. Nós liamos, liamos, liamos e discutíamos quais eram os problemas da mídia em nossos países, sem saber direito o que estávamos fazendo.

Até que um dia, a professora pediu para que lêssemos um texto, que ela acreditava responder boa parte das nossas críticas (eram em relação a sobre dar voz a uma minoria, a falta de liberdade de tópicos, de acobertar verdades, de censura e de escrever tudo de forma não atraente ao leitor). Talvez, e essa era a ideia da professora, nós estivéssemos olhando e procurando por informações no lugar errado. Talvez elas existissem e que talvez, os alunos delas poderiam realizar esse trabalho: de dar voz à causas que nós acreditávamos.

E foi assim que, com dois pés na porta, Martha Gellhorn entrou em minha vida.

Nascida em 1908, em St. Louis, Gellhorn formou-se na Bryn Mar College. Ela foi a terceira esposa de um famoso escritor americano e sempre disse que “não queria ser uma nota de rodapé na biografia de ninguém”. Por isso, vou deixar esse escritor famoso* como uma nota de rodapé neste texto sobre ela.

Martha publicou uma série de livros de ficção. Mas foi no jornalismo, como correspondente de guerra, que ela ficou relativamente conhecida.

Uma pacifista por natureza, defensora dos direitos humanos e que acreditava que a guerra só fazia o mal, Martha ganhou sua vida e construiu uma carreira de mais de 60 anos, escrevendo sobre elas. E que bom que ela fez isso.

“A guerra é uma doença humana endêmica, da qual os governos são os hospedeiros. Só governos declaram e promovem guerras. Não há registros de hordas de cidadãos, às suas próprias custas, assaltando o gabinete de um governo para clamar por guerra. Eles devem estar infectados pelo ódio ou pelo medo antes de pegar a febre da guerra.”

Com um quê de Peggy Carter, Martha Gellhorn ia de país em país, sempre atrás do conflito, atrás do olho vivo que pudesse registrar aquilo que estava acontecendo, as barbáries que a humanidade era capaz por um pouco de poder e um pouco de “espaço vital”. Ela foi a única mulher a pousar na Normandia, durante o dia D.

“Daqui a quinhentos anos, nossa briga Oriente-Ocidente vai parecer tão insignificante quanto a Guerra das Rosas. Quem somos nós para presumir e terminarmos com alguma coisa?”

Na escola de verão, nós lemos o texto de Martha sobre o campo de concentração de Dachau. Ela foi a primeira jornalista a entrar lá, depois da libertação do campo pelos soldados americanos. Ela estava no campo de concentração quando a notícia de que o exército alemão tinha, finalmente, se rendido aos aliados. O texto é um soco atrás de soco, uma bordoada de realidade atrás de uma bordoada de realidade.

“- Você deveria colocar um lenço sobre o nariz – disse o guia.

Ali, súbita mas inacreditavelmente, estavam os corpos dos mortos. Eles estavam em todo lugar. Havia pilhas deles dentro da sala do forno, mas as SS não tinham tido tempo para queimá-los. Eles estavam empilhados ao lado da porta e ao longo do prédio. Estavam todos nus e, atrás do crematório, as roupas maltrapilhas dos mortos estavam empilhadas organizadamente, camisas, jaquetas, calças, sapatos, aguardando a esterilização e uso futuro. As roupas eram tratadas com ordem, mas os corpos foram jogados como lixo, apodrecendo ao sol, amarelos e nada além de ossos, ossos tornados enormes porque não havia carne para cobri-los, ossos horríveis, terríveis ossos agonizantes e o cheiro insuportável da morte.

Todos nós já vimos muita coisa a essa altura; já vimos muitas guerras e muita morte violenta; já vimos hospitais, sangrentos e confusos como açougues; já vimos mortos como fardos largados em todas as estradas de metade da região. Mas em lugar nenhum houve algo como isso. Nada sobre a guerra foi tão insanamente perverso quanto esses mortos sem nome, nus, subalimentados e violados.”

Foi a chance de poder documentar fatos históricos da forma como Gellhorn documentou, que me convenceu a fazer jornalismo. Ainda que eu esteja com dúvidas em relação à carreira, Martha, à época, foi como um farol que me mostrou o que o trabalho de um jornalista pode fazer.

“Escrevo ficção porque adoro, e o jornalismo por causa da curiosidade que só termina com a morte. Embora eu há muito tenha perdido a fé inocente de que o jornalismo é uma luz orientadora, ainda acredito que ela é melhor do que a escuridão total.”

Pouco lembrado por outros jornalistas nos dias de hoje, o texto de Gellhorn permaneceu marcado em mim e gravado na minha memória como se eu fosse a própria à testemunhar ao vivo os horrores do nazismo e as coisas que uma minoria, controlando uma maioria sem poder, pode fazer.

Quando encontrei o livro “A Face da Guerra”, publicado por ela em 1959, atualizado mais duas vezes para incluir conflitos na América Central e a Guerra do Vietña, e com o texto sobre Dachau traduzido para meu idioma, não tive escolha senão comprá-lo.

“Então, por não aguentar mais escutar, meu guia, um socialista alemão que tinha sido prisioneiro em Dachau por dez anos e meio, me levou para o outro lado do complexo da cadeia. Em Dachau, se você quer descansar de um horror, você vai ver outro. A cadeira era um prédio limpo e longo dividido em pequenas celas brancas. Aqui viviam as pessoas que os prisioneiros chamavam de NN. NN quer dizer Nacht un Nebel, o que significa noite e névoa. Traduzido em termos menos românticos, isso significa que os prisioneiros nestas celas nunca viam outro ser humano, não podiam falar com ninguém, nunca eram levados para o sol e o ar livre. Eles viviam em confinamento solitário com sopa de água e uma fatia de pão, que era a dieta do campo.”

A narrativa de “A Face da Guerra” é organizada por ordem cronológica e o primeiro conflito coberto por Martha foi a Guerra Civil Espanhola, que ela defendia como sendo o lugar correto para começar a derrotar o fascismo.

“Um menino chamado Paco estava sentado em sua cama com grande dignidade. Tinha 4 anos, um grave ferimento na cabeça e era lindo. Ele foi atravessar uma praça para se encontrar do outro lado com uma menininha com quem brincava à tarde. Então, uma bomba caiu. Muitas pessoas fora, mortas e ele foi ferido na cabeça. Ele havia suportado sua do silenciosamente, disse a enfermeira. O ferimento já tinha cinco meses. Ele sempre fora paciente com o ferimento e, à medida que os meses passavam, tornava-se mais solene e mais adulto a cada dia. Às vezes, chorava sozinho, mas sem fazer nenhum som, e, se alguém reparava, ele tentava parar.”

Depois disso, Martha passa para a Finlândia, cobrindo um conflito que fazia parte dos desdobramentos da Segunda Guerra Mundial.

“Mas esta guerra era uma loucura completa: um lunático criminoso e seus seguidores queriam o que nunca poderiam conseguir, a dominação sobre seu tempo, e eles tentaram consegui-la; outros aproveitadores se juntaram a eles; e o mundo caiu em um longo pesadelo infernal que durou seis anos. O senso de insanidade e perversidade desta guerra cresceu em mim até que, para fins de higiene mental, desisti de tentar pensar ou julgar e me transformei em um gravador ambulante com os olhos. Imagino que a maneira pela qual as pessoas conseguem se manter parcialmente sãs na guerra é colocando em suspenso uma grande parte de suas mentes que raciocinam, perdendo a maior parte de sua sensibilidade, rindo quando têm a menor chance e ficando um pouco (cada vez mais) loucas.”

Escrevendo sobre períodos negros, mas sabendo encontrar -através do olhar- o peculiar, o engraçado e até aquilo que outros jornalistas virariam os olhos e ignorariam, Martha se tornou a minha jornalista favorita.

“Um menino de 9 anos estava parado do lado de fora de sua casa em Helsinque observando os bombardeiros russos. Ele era lourinho e gordinho e estava parado com as mãos nos quadris, com os pés separados, e olhava para o céu com uma expressão teimosa e séria. Para que não se encolhesse com o barulho, sua postura era bastante dura e rígida.
Quando o ar ficou silencioso novamente, ele falou:
– Aos poucos, estou ficando realmente muito zangado com isso.”

Como disse no começo do texto, queria dizer que li o livro inteiro, sobre os 8 conflitos que ela relatou e registrou, nos 12 países diferentes. Mas não consegui. Novamente lendo Dachau, fui envolvida por pensamentos que fazem paralelo com aquela época e com a época em que vivo.

Dachau me traz muita dor. Me traz vergonha de saber que a humanidade um dia foi capaz disso. Me mostra que apesar de termos tempos de relativa paz, a ameaça de um conflito continua como um nervo exposto, muito fácil de se irritar e de trazer dor de volta. É terrível não só imaginar possíveis guerras entre nações no futuro, mas revoltas de pessoas entre uma mesma nação, causadas por motivos similares que deram origem aos conflitos mundiais no século passado.

“Quando o chefe de equipe disse “todos a bordo”, entramos como se estivéssemos fugindo de um incêndio. Ninguém olhou pelas janelas, enquanto voávamos por cima da Alemanha. Ninguém queria ver a Alemanha de novo. Eles deram as costas para ela com ódio e com nojo. A princípio, eles não conversaram, mas quando tornou-se real que a Alemanha estava para trás para sempre, eles começaram a falar de suas prisões. Nós não comenta os sobre os alemães; eles estavam além das palavras, não havia nada a dizer.
– Ninguém vai acreditar em nós – disse um soldado. Eles concordaram nisso, ninguém acreditaria neles.
– Quando é que foi capturada, moça? – perguntou um solado.
– Só estou pegando uma carona; eu estive lá para ver Dachau.
Um dos homens disse de repente:
– A gente tem que falar sobre isso. Nós temos que falar sobre isso, quer alguém acredite em nós ou não.”

O texto, por vezes, é lido como ficção. Dá vontade de forçar o cérebro a ler tudo como uma série distópica com um triângulo amoroso e que virou moda. Mas não. É a realidade.

“Atrás do arame farpado e da cerca eletrificada, os esqueletos sentavam ao sol e catavam piolhos neles mesmo. Eles não têm idade e não têm rostos; todos eles se parecem e não são como nada que você vai ver se tiver sorte.”

Minha vontade era xerocar cópias e mais cópias desse texto e distribuir entre todo o mundo. Tornar “Dachau” uma leitura obrigatória nas escolas e fazer com que aqueles que acham direitos humanos uma baboseira lê-lo uma, duas, três vezes.

“Não olhamos um para o outro. Não sei como explicar isso, mas fora a raiva terrível que você sente, você sente vergonha. Você sente vergonha pela humanidade.”

 

“Eu estava em Dachau quando os exércitos alemães se renderam incondicionalmente aos Aliados.

[..]

– A guerra acabou – disse o médico – A Alemanha foi derrotada.

Sentamos naquela sala, naquela maldita prisão-cemitério e ninguém tinha mais nada a dizer. Ainda assim, Dachau me pareceu o lugar mais justo na Europa para ouvir a notícia da vitória. Pois, com certeza, esta guerra foi travada para abolir Dachau e todos os outros lugares como Dachau, e tudo o que Dachau representava, e para aboli-lo para sempre.”

Em determinado momento, Martha parou de acreditar que o jornalismo poderia promover luz e racionalidade: “O jornalismo é um meio; e agora penso que o ato de manter o registro é valioso por si mesmo. O jornalismo sério, cuidadoso, honesto, é essencial, não porque seja uma luz orientadora, mas porque é uma forma de comportamento honrado, envolvendo o repórter e o leitor. Não sou mais uma jornalista; como todos os outros cidadãos normais, o único registro que preciso manter correto é o meu.”

Em 1992, quando a última edição deste livro foi publicada e quando Gellhorn já era uma velhinha que ainda saia por ai procurando reportagens (ela escreveu uma sobre a pobreza no Brasil, para a revista Granta, que eu quero muito ler), ela escreveu: “Talvez, no século XXI, as pessoas olhem para este século com espantoso desgosto. Talvez elas sejam sãs. Talvez elas pensem que é mais importante preservar o planeta do que destruir a vida. Talvez elas acertem em suas prioridades. Talvez.”

Infelizmente, não consigo deixar que as esperanças de Martha morram, porque, na verdade, no 16º ano do século XXI, não parece que esse é o caminho que estamos seguindo.

Em 1998, aos 89 anos, quase cega e sofrendo por conta de um câncer, Gellhorn cometeu suicidio. Ela não viveu para ver o 11 de setembro, a Guerra do Iraque e o crescimento do Estado Islâmico.

Cabe aos que vivem hoje usar o legado e os textos de Martha como arma contra a proliferação da intolerância, do ódio e dos conflitos desnecesários

  • * Martha foi a terceira esposa de Ernest Hemingway. Quando eles se conheceram, em 1936, na cidade de Key West, Hemingway ainda estava casado com sua esposa Pauline. Os dois meio que se apaixonaram e tiveram um affair por meio de cartas. Eles combinaram de se encontrar na Espanha, durante a Guerra Civil Espanhola, para escrever suas reportagens. Quando Pauline, sentindo seu casamento ameaçado se ofereceu para ir junto com o marido, Hemingway disse que “A Espanha não é lugar de mulher!” haha. O casamento dos dois durou exatamente o tempo da Segunda Guerra Mundial. Hemingway era egoísta e queria que Martha cuidasse das coisas dele, enquanto ele escrevia. Não foi o que aconteceu, já que ela sempre ia embora para escrever suas reportagens. Ele escreveu o livro “Por Quem os Sinos Dobram” inspirado por ela. Finalmente, ao final da guerra e cansada das exigências do marido, ela deu um pé nele. Os dois passaram a se detestar tanto que ela proibia que falassem dele durante suas entrevistas. Ela dizia “Tenho trabalhado como escritora por mais de 40 anos. Eu era uma escritora antes de conselho e continuei escritora depois que o deixei. Por que eu deveria ser só uma nota de rodapé na vida dele?”. Rainha da porra toda, não?
  • Se você quiser saber mais sobre Martha, recomendo que leia o “A Face da Guerra”. Tem também o livro “Ponto de Ruptura: Hemingway, John dos Passos e o Assassinato de José Robles”, de Stephen Koch, que aborda outro assunto, mas que também foca na relação de Martha e Heminghway e a forma como eles se conheceram e como foi a cobertura que eles fizeram da Guerra Civil da Espanha. Há ainda uma série da HBO chamada “Hemingway e Gellhorn”, que faria com que Martha revirasse os olhos (e digo isso só depois de ver o trailer). E há um documentário em inglês, que eu ainda não vi. “No Job for a Woman: The Women Who Fought to Report WWII”, fala sobre como ela revolucionou a reportagem de guerra.
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