Gotas vermelhas


Hoje de manhã eu acordei com uma sensação muito estranha.

Abri os olhos e eles estavam mais pesados do que o normal. Sentei na cama, de frente para o espelho, sem entender ainda o porquê de eu ter a impressão de estar esquecendo alguma coisa muito importante.

O esquecimento pode parecer uma fraqueza boba do poderoso cérebro humano, mas às vezes eu tendo a tratar esse lapso de memória como se fosse uma autopreservação da qual o corpo precisa. O Espelho já age de forma diferente. Ele revela seu corpo e expõe coisas sobre você que deveriam continuar em segredo.

E foi encarando esse objeto revelador (que chamamos de Espelho) que eu descobri as minhas primeiras quatro pistas do dia. A primeira foi descobrir que eu não estava na minha casa, já que eu não tenho espelhos no meu quarto.

A segunda pista foi um bilhete colado no espelho que dizia:

 “Tive que correr para o trabalho, depois conversamos sobre o que você me disse ontem, maluco! Se sirva na cozinha e saia antes dos nossos pais chegarem de viagem, para eles não pensarem besteira! – Beatriz”

A terceira dica começou a me deixar apreensivo: algumas gotas vermelhas na minha camiseta,  que eu acreditei serem gotas do meu sangue. E quando se vê sangue na sua camiseta em uma manhã que você teve um lapso de memória, o mínimo que você pode ficar é assustado. Entretanto, a quarta pista definiu cinquenta por cento da minha “busca ao tesouro”: uma garrafa de Vodka vazia no chão ao lado do meu pé, descalço, que também aparecia do espelho, além do cheiro de limão que o espelho não refletia, porém o meu olfato entregava.

A explicação mais óbvia seria que eu e minha amiga bebemos muito ontem. Eu disse à Beatriz que gostava dela, depois de ter tomado muita vodka com limão, o que explicaria o fato de eu acordar no quarto dela. Já as gotas de sangue deveriam ser de um provável acidente que Beatriz sofrera ao cortar os limões com uma faca, pois não achei machucado algum em mim hoje de manhã.

Entretanto…

Minha melhor amiga, Beatriz, não sentia nenhuma atração por mim e nem por nenhuma pessoa do sexo masculino. E eu não tinha atração nenhuma pela minha amiga, e olha que eu já havia tentado, de verdade.  E, por fim, ela não se cortaria de uma forma tão boba assim.

Mas… vodka com limão?! Nós amamos vodka com limão! O chato é que depois de uma noite bebendo esse tipo de “estimulante”, ao contrário dela, eu me esqueço das coisas.

O fato é que cinco minutos depois de começar o dia encarando as minhas vergonhas no espelho, tentando descobrir o que eu havia feito ontem, eu, com muita raiva de mim mesmo, afundei o meu rosto novamente no travesseiro, sabendo que a primeira pista confirmava que eu fui para a casa de Beatriz, a segunda confirmava que eu fui para lá porque não queria ir para a minha casa, pois peguei o carro do meu pai escondido e fui assaltado. A vodka (quarta pista) era pra tentar esquecer do esporro e das ameaças de morte que eu receberia quando ele voltasse de viagem.

O que eu realmente não me lembrei foi o motivo de estar sujo com gotas vermelhas em minha camiseta. Mas pelo andar da carruagem é melhor continuar sem saber.

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davidhist92@gmail.com'

Sobre David

David é um professor de História que divide a sua vida em estudo, trabalho e diversão, necessariamente nessa ordem (mentira). Curioso e admirador da cultura urbana popular. Como bom carioca, ele gosta de se misturar em todo lugar que vai.

  • Caroline Del Carmen

    Parabéns por mais um texto :* Continue nos surpreendendo! 😉