Gilmore e outras garotas


Lorena: O post sobre How I Met Your Mother foi basicamente pra problematizar o tratamento das mulheres. Hoje, vamos conversar sobre Gilmore Girls e como elas são vistas aqui. Vamos começar. O que a Rory representou pra você?

Fernanda: Quando eu assisti pela primeira vez, era meu primeiro semestre da faculdade e a Rory representava tudo o que eu queria ser e sabia que não tinha como. Ela era inteligente, amava estudar, amava ler, tinha tempo pra fazer tudo isso, ver TV (obsessivamente), ter dramas amorosos… A Rory era meio que meu grande role model, sabe?

Lorena: Sei bem. Minha impressão foi totalmente diferente, acho, porque quando eu comecei a ver tinha – pera, deixa eu ver no Google quando a série começou [pausa para Google] – uns oito ou nove anos. Foi quando eu ainda estava tentando encontrar figuras que me validavam como a menina nerd da escola, sabe?  Até então só tinha a Hermione como essa figura, mas ainda não me identificava totalmente. A Rory foi um refresco e a série durou basicamente a minha pré-adolescência. Mas você não acha que, de certa forma, a gente colocava ela como patamar a ser atingido mesmo que isso fosse impossível?

Fernanda: Sim, exatamente! Na verdade, é por isso que eu realmente gosto do que aconteceu com ela no fim da quinta temporada, e das consequências (apesar de ter sido penoso passar por aquele tempo em que ela e a Lorelai não se falavam). Sabe, foi super frustrante ver A RORY largando a faculdade, indo roubar um iate (algo assim?), desistindo das coisas que ela sonhava em fazer e organizando encontros da DAR. Mas, ao mesmo tempo, pareceu muito mais real – ela também tinha dúvidas, ela também deixou que uma opinião negativa tirasse ela do caminho, ela também fazia escolhas que nem sempre são fáceis de entender. O que você acha?

Lorena: Concordo com você (e acho que vamos passar esse texto inteiro concordando hehe) mas na época eu não entendia. Tipo, era frustrante, como você falou, mas eu me irritei com ela por causa do surto. O que posso dizer pra me justificar? Sei lá, eu tinha uns doze anos quando isso aconteceu, sabe? Eu via a série na Warner (como uma pessoa da Idade da Pedra haha) e do alto da minha cabeça pré-adolescente, achava impossível isso acontecer com a Rory. Agora, na faculdade, super entendo. Seria até estranho que alguém como ela, que viveu se pressionando, não tivesse um tipo de colapso. Na vida “adulta”, esses obstáculos da Rory são bons pra lembrar a gente que é ok se sentir mal, sabe? Mas queria mudar o assunto pra Lorelai. Como se deu sua relação com ela desde quando você começou a assistir até agora?

Fernanda: Eu tenho muito mais dificuldade de pensar sobre a Lorelai porque ela parece muito mais distante de mim, se é que isso faz sentido. Vou pensar um pouquinho, mas deixa eu te perguntar uma coisa: a Rory mesma se pressionava muito, mas o que você acha da postura da Lorelai quanto ao futuro dela?

Lorena: No sentido de mãe, mesmo? Engraçado que eu nunca me identifiquei com essa parte do relacionamento delas. Acho que tá aí uma parte da série que poderia ter sido melhor tratada? Tipo, elas são muito migas, mas em alguns momentos a Lorelai não se coloca como mãe pra questionar o que a filha faz (nesse sentido de pressão mesmo).

Fernanda: Pois é, eu acho que elas eram super amigas e era lindo, mas às vezes a Lorelai parecia que esquecia que, antes de tudo, ela era a mãe, né? A pessoa pra quem a Rory sempre olhava e tudo mais? Ao mesmo tempo, ela era meio controladora? Tipo, ela deixava a Rory fazer o que ela queria, ok (até porque a Rory era bem fácil de lidar, né). Mas quando a Rory decide ir visitar Yale por causa dos avós, a Lorelai fica super incomodada. Eu acho que ela tinha tantos problemas com os pais que ela às vezes transferia eles pra Rory, esquecendo que ela tinha o próprio relacionamento com eles.

Lorena: Sabe aquele tweet da Clarice Falcão em que ela diz que se assusta quando percebe que está mais perto da idade da Lorelai que da Rory? Às vezes eu me sinto assim. Não pela idade – ainda bem que pelo menos essa crise não tenho – mas pelas experiências dela. Tipo, na época eu só me identificava com a Rory. Agora, consigo entender mais a busca por independência que a Lorelai tem. Ainda sobre a família Gilmore, como você se sente sobre a Emily?

Fernanda: Mixed feelings sobre a Emily. Eu achava ela engraçada (daquele jeito quando a pessoa não quer ser engraçada, mas fala uns absurdos), mas me incomodam demais alguns comportamentos e visões de mundo dela. Tipo sobre o Luke (e o Luke nem percebeu o quanto tava sendo julgado por ela). Não sei, os Gilmore-avós tinham aquele ar de superioridade deles e aquilo me incomodava demais. E você?

Lorena: Eu conseguia sentir o lado da Lorelai quando a Rory ficava amiguinha deles, então me incomoda também. Não sei, tem horas que você sente que é pra ser engraçado, mas é tão absurdo que fica meio too much. Tipo isso aí sobre o Luke. Ela é péssima com ele.  Por isso que gosto do Christopher (desculpa, sociedade), ele meio que questiona isso, assim como a Lorelai.

Fernanda: Acho que o Christopher cresceu naquele meio de convivência e talvez ele tivesse mais bagagem pra questionar. Mas, ainda sobre a Emily: eu gosto do fato de ela claramente ser cheia de defeitos, mas ter qualidades que ajudam a redimir a personagem. Tipo, dá pra ver que ainda que ela queria que todas as coisas aconteçam de acordo com o ponto de vista dela, de um jeito que agrade a ela, ela gosta de verdade da filha, e da neta (e do marido – eu gosto dos episódios que o Richard tá no hospital, apesar de ser horrível, porque tem uns momentos de conexão super verdadeiros e bonitos na família).

Lorena: Acho que o maior mérito de Gilmore Girls é esse: às vezes elas são horríveis, mas isso é porque elas têm permissão para serem horríveis, têm permissão para serem egoístas, para serem chatas e manipuladoras. E ainda assim terem qualidades. Sabe aquela citação que vive circulando pelo Tumblr?

Screw writing ‘strong’ women. Write interesting women. Write well-rounded women. Write complicated women. Write a woman who kicks a**, write a woman who cowers in a corner. Write a woman who’s desperate for a husband. Write a woman who doesn’t need a man. Write women who cry, women who rant, women who are shy, women who don’t take no sh*t, women who need validation and women who don’t care what anybody thinks.

É meio por aí, acho. A Emily tem momentos em que a gente vê que ela é manipuladora, mas ela também é carinhosa e ama a neta e tem seus valores. A maravilha que é ter personagens femininas complexas. Em outras relações familiares difíceis, vamos falar das amigas da Rory. Qual você simpatiza mais, a Lane ou a Paris?

Fernanda: Eu adoro a Paris. Gosto das duas, mas a Paris pra mim é incomparável. Eu acho ela meio exagerada, mas eu entendia o lado dela. O nível de pressão que ela colocava sobre si mesma era provavelmente ainda maior do que o da Rory (tem um quote dela sobre como ela ia ter uma vida depois que ela se formasse em Harvard que exemplifica ). E aquele episódio em que ela descobre que não foi aceita em Harvard e tem um coalpso emocional é um dos que eu mais gosto – eu me identificava muito. E eu me identificava bastante também com como ela precisa aprender a lidar com os instintos de berrar com todo mundo, como ela não era muito boa com gente, sabe? E você, qual era sua amiga preferida?

Lorena: Engraçado você dizer isso, porque eu honestamente odiava a Paris. Tendo visto a série toda em maratona, passei a entender mais, mas antigamente tudo que ela fazia me irritava. É legal como ela é basicamente a Rory no sentido de se autopressionar, mas sem os filtros e a criação liberal. Por isso a relação delas é meio louca, acho. Elas têm as mesmas crises, mas aprenderam a lidar de formas diferentes. Eu sempre amei a Lane <3 E, vamos combinar, Gilmore Girls tem uma falha bem série e é o fato de quase todo mundo ser branco. A existência da Lane, apesar de ser meio token, joga na história os conflitos de uma educação conservadora e uma filha com interesses diferentes.

Fernanda: Você tem razão sobre isso ser uma falha. Depois que você começa a pensar a respeito e reparar, praticamente todos os personagens são brancos, mesmo fora daquela cidadezinha que talvez historicamente tenha se configurado assim. Sobre a Lane: eu achava que ela lidava até bem demais com a educação ultraconservadora que ela recebia da Mrs. Kim (existia um Mr. Kim?). Elas brigavam algumas vezes, mas eu imaginaria que ela seria mais afetada pelo ambiente de casa e como ele era muito diferente do que ela queria.

Lorena: Eu também. Li uma vez na internet que era legal que a relação delas não era o estereótipo de famílias orientais de Hollywood (pais pressionando filhos a irem bem na escola). Isso foi uma subversão de expectativas legal. Ainda sobre amizades, a relação Lorelai/Sookie é minha coisa favorita na série inteira. Vamos amar a Sookie?

Fernanda: É possível não amar a Sookie? Ela era tão alegre, a personalidade dela era tão radiante, né? E ela e o Jackson eram tão amorzinho. Mas, é, eu gostava de como a Sookie tinha os próprios dramas e par romântico e tudo mais, e não era só a sidekick engraçadinha da protagonista.

Lorena: Incrivelmente relevante isso. E ela acaba meio que tendo tudo que ela quer, né? O que não é comum pra sidekicks. Ela tem sucesso profissional, tem uma família, amizades, etc. Não fica só subjugada porque não é protagonista. E a relação dela e do Jackson é talvez a melhor da série. Uma coisa que eu acho interessante em Gilmore Girls, na real, é que tem mulheres em destaque profissional na cidade. Vide Miss Patty, que é uma figura de respeito. Todo mundo faz piada das coisas que ela diz, mas ela é respeitada. Isso é bem legal.

Fernanda: Sabe que eu nunca tinha pensado por essa perspectiva? Mas você tem razão, e isso é muito legal mesmo. Acho que Gilmore Girls é um presente (#emoções) porque tem tantas personagens femininas ocupando vários espaços e vivendo vidas diferentes e tudo mais.

Lorena: O endgame da Lorelai e da Sookie tem tudo a ver com isso. Elas arriscaram fora de sua zona de conforto, seguiram um sonho (isso parece discurso motivacional hehe) e conseguiram atingir o objetivo delas, sem que isso comprometesse toda a personagem. Nunca foi uma questão de maternidade e vida em casa x sucesso profissional. Quer dizer, pelo menos pra elas duas. Tem algum endgame que você não goste?

Fernanda: O da Lane. Eu não sei o quanto disso tem a ver com a vida que ela ia levar a partir dali e o quanto disso tem a ver com o fato de que eu simplesmente não engoli o Zack nunca e eles não combinavam e como eles iam ser felizes vivendo aquela vida juntos? E você?

Lorena: Parece até fora de lugar na série. E, na verdade, acho que tem tudo a ver com a saída dos Palladino. Em que universo a Lane terminaria casada e com filhos? Não que haja algo de errado nisso, mas é que no caso dela, por não ter sido algo planejado, parece muito o estereótipo de menina que desobedeceu e tá recebendo o castigo, sabe? Ela passa um bom tempo esperando pra fazer sexo. Quando ela faz, nem é bom e ela fica imediatamente grávida. Tipo, que isso?

Fernanda: Eu não lembrava disso, tô mais triste com o endgame da Lane agora. Assim, não tem nada de errado em casar e ter filhos (inclusive acho lindo, mesmo), mas é porque, no caso da Lane, nunca pareceu uma coisa que ela queria, mas uma coisa que só aconteceu. Se você for pensar, diferente da Rory, ela não termina correndo atrás dos sonhos dela, termina? (Posso estar lembrando errado, claramente). E esse é justamente o aspecto que eu gosto no final da Rory. Não sei, elas eram tão jovens. É legal que a Rory ainda não tenha conquistado tudo o que ela queria lá com os dezesseis anos (e continuou querendo depois), mas parecia que ainda tinha toda a vida pela frente pra fazer mil coisas, sabe?

Lorena: Aliás, é por isso que eu gosto (e muito) do final que a série dá pra Rory e por isso que curto a sétima temporada. Tem algo de muito importante no fato de ela – a garota que desde os dezesseis anos tenta conciliar expectativas alheias, relacionamentos problemáticos, a pressão dela mesma e tal – resolver deixar tudo pra trás. A gente chegou até aqui no texto sem falar de ships, mas acho importante dizer o quanto é legal que ela não tenha tido o endgame focado em um namorado ou outro, mas nas escolhas que ela fez pra ela mesma, sabe?

Fernanda: Sim! Por muito tempo eu achei que gostava do final dela porque ela não ficou com o Logan (eu até gostava, mas enfim), mas não é isso. É porque a série nunca foi sobre os ships, como algumas séries acabam sendo, apesar de que era legal ser shipper vendo Gilmore Girls. Era sobre elas, sobre as garotas Gilmore – e o foco tinha mesmo que ser nelas.

Lorena: Ainda que eu veja Gilmore Girls como uma série muito progressiva e feminista, acho que tem um problema bem evidente. A questão da “outra”. Tem dois casos que isso acontece explicitamente. Uma das mulheres que fica em segundo plano (e como vilã da história), é a Sherry. Me parece tão idiota que o Christopher venha atrás da Lorelai, mas desista assim que descobre que a Sherry está grávida. Até aí ok, mas depois, no futuro, a gente descobre que a Sherry, que já era antagonizada pela Lorelai, se tornou a vilã, deixando o Chris e a Gigi. Parece conveniente, sabe? Precisavam criar tensão Lor/Chris, então vamos jogar a culpa na mulher, que deixou ele mal. Como você se sente sobre esse arco?

Fernanda: Eu acho que escrever esse post foi a última coisa que eu precisava pra me convencer de que chegou a hora do rewatch, porque eu realmente não lembro desse arco. Como eles lidam com isso? Não podem ter lidado com o Christopher como pai-herói, né?

Lorena: Não exatamente. Ele pede ajuda à Lorelai, e é isso que aproxima os dois. Pelo menos tem essa questão dele não saber o que fazer. Outro caso que me incomoda é o do Dean com a Lindsay. Ainda que seja questionado na série, a volta da Rory com o Dean enquanto ele estava casado é algo bem questionável. Amiga, por que? Fica muito “eu contra ela” e isso me incomoda bastante.

Fernanda: Eu tenho pena da Lindsay, assim como teria da Rory, assim como teria de qualquer uma que casasse com o Dean. Essa é uma das escolhas mais questionáveis da Rory e eu tive muita dificuldade de lidar.

Lorena: Idem, é muito moralmente questionável. Mais alguma coisa que te incomode pensando na série agora?

Fernanda: Provavelmente terei mais questões quando rever (o que eu obviamente já estou cem por cento convencida a fazer), mas uma coisa que sempre me incomodou demais foi a escolha narrativa de transformar aquela amizade divertidinha da Rory com o Marty aka Naked Guy num caso de amor não correspondido – e nem resultou num drama minimamente interessante. Enfim, só queria colocar isso pra fora.

Lorena: E a gente volta na questão da “outra”. O grande drama disso tudo é que daí a Rory tinha pego o boy da amiga, o que gera ciúmes e tal. É, eles nunca souberam lidar muito bem com isso mesmo.

Agora, porque poderíamos falar de Gilmore Girls por horas e precisamos encerrar: quais são suas conclusões finais sobre a série e o feminismo e representatividade das mulheres na ficção?

Fernanda: O que eu acho mais bacana no que Gilmore Girls faz é que o enfoque é em personagens femininas e o relacionamento mais importante é de uma mãe e filha. Quer dizer, com que frequência você vê isso na televisão? Também acho lindo que tenha tantas, tantas personagens diferentes (como a gente já citou antes). Tem esses tropeços, né? Da Sherry, aparentemente. Tem aquelas amigas estereotipadas e pouco desenvolvidas de Chilton. Mas eu acho bem bacana, o quanto a série é sobre mulheres e sobre as relações que existem entre elas, de diferentes gerações e com educações diferentes e tudo mais – e isso ainda não é tão comum quanto deveria, é? E as suas considerações finais?

Lorena: Exato. Ainda que tenha coisas que problematizar – whitewashing, alguns arcos que culpam as mulheres, algumas personagens pouco desenvolvidas, etc – a gente tem que pensar que a série tem todo um foco nas mulheres que não era (e na real, continua não sendo) frequente na televisão. Tem mulheres de todos os tipos e elas não existem só em função dos homens. Essa série é um sonho do Bechdel Test, na verdade. Enquanto a gente sabe que há coisas que poderiam ter sido feitas de uma forma melhor, não dá pra esquecer de como Gilmore Girls pode ser um exemplo na presença de mulheres na ficção. Ainda mais se a gente considerar que é uma série que surgiu há quinze anos.

Fernanda: Fica ainda mais bacana se a gente pensa que isso tudo começou há quinze anos, né? Então eu acho que Gilmore Girls tem um legado inegável pra uma geração de meninas e mulheres que puderam se enxergar ali de alguma forma, nem que seja só de uma maneira bem distante por ver que, olha, uma personagem que é mãe e tem uma vida profissional que ela ama e isso é uma possibilidade? Uau. E andei lendo sobre como nos EUA, como a série chegou no Netflix, toda uma nova geração tem se identificado com a série – o que só comprova o legado. Como a gente disse, ainda (!) não é comum uma história tão focada nas mulheres, e acho que Gilmore Girls continua aí pra preencher esse espaço super importante. Que bom. Queria muito ver ainda mais histórias como essa.

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fernanda.menegotto@gmail.com'

Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura - ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.

  • Acho que o Jess me pareceu pior pensando depois que eu fiquei mais velha também, mas nada pra mim vai ser tão ruim quando Dean “quero uma esposa dos anos 50” Forester (e sim, aquele cabelo, meu deus). O Logan acho meio trouxa, mas ele também ajudou ela em algumas horas, então ok. Concordo que seria melhor Rory não ter nenhum deles porque ela é melhor que todos.

    Idem pra Paris. Acho que ela melhorou muito com o tempo, mas ainda prefiro a amizade com a Lane. Falando nela, pfvr, Adam Brody é Adam Brody né.

    – Lorena

  • Ancoragem

    Adoro Gilmore Girls e me identifico bastante, por causa da relação mãe e filha, que é bem parecida com a minha com mamain. Mas me incomodo bastante porque a Lorelai as vezes não permite que a Rory experimente e faça coisas porque ela fez e deu errado pra ela. Ok, isso é uma coisa que deixa a personagem e o relacionamento delas mais real, mas me incomoda bastante. O jeito que a Lorelai trata a Rory depois de ela ter perdido a virgindade me fez odiar a Lorelai por um bom tempo, sabe? Poxa, a menina já estava suficientemente culpada. Custava ser legal????
    Nunca assisti a série pensando em ships. Achei muito fofo o jeito que a Rory e o Dean se conheceram, mas ele teve um péssimo desenvolvimento durante a história (e aquele cabelo, socorro). O Jess foi um namorado mais legal, mas eu achava ele malvado com ela e vendo algumas coisas hoje em dia, sinto que ele tinha um comportamento um tanto abusivo. Ok, ele escreveu um livro e teve um futuro mais legal que o do Dean, mas até que ponto isso redime o fato de ele ter sido um idiota com a Rory (e com a família dele) em diversos momentos? O Logan, a meu ver, só surgiu pra demonstrar que a Rory definitivamente não ia seguir os passos da Lorelai e ficar com um riquinho que os avós aprovavam. O episódio em que ela se recusa a casar é um dos meus preferidos. Terminei de assistir me sentindo muito empoderada e badass. Estou com os dedos cruzados para que no revival ela esteja solteira e bem sucedida e feliz. Ou, se estiver com alguém, que não seja um dos três, mas alguém que ela conheceu nas aventuras de ser jornalista ou sei lá.
    Eu odeio a Paris das três primeiras temporadas e amo a das outras. Reprovei em uma seleção ano passado e fiquei só lembrando do “if you have sex you won’t get into harvard” da Paris e meu coração ficou mais quentinho. Sou bastante parecida com ela nos aspectos de auto-cobrança e tal, mas não curto a forma como ela age com a Rory. Elas são amigas, mas parece que a Paris fica feliz quando algo dá errado na vida da Rory, sabe? Não acho isso saudável. Gosto mais da amizade com a Lane, porque a Lane é sempre fiel à Rory e vice-e-versa. Elas entendem os problemas de criação uma das outras e tem diversas afinidades e se constroem juntas, acho muito bonito.
    Queria tanto que a Lane tivesse ficado com o Adam Brody ao invés de com o marido dela </3 Maldito "The O.C" que fez ele sair do elenco de GG!!!! Não gosto do final dela e é a personagem que eu estou mais ansiosa pra saber a quantas anda nesse revival.
    Estou p da vida que a Sookie ainda não foi convidada pro revival, porque a amizade dela com a Lorelai era equivalente a da Rory com a Lane e era absurdamente lindo a forma como elas conseguiam ser sinceras e se apoiar o tempo todo. Elas lutaram com o universo e conseguiram o que queriam, isso é demais. Queria saber dos filhos da Sookie, plantas do Jackson, novas receitas etc… Tô bem triste com isso.
    Vocês esqueceram de comentar a April!!! Acho muito legal o jeito que ela aparece na série e faz com que o Luke se torne mais humano e sensível e ela é só uma garota, mas é tão determinada e badass também! Tenho certeza que teve um futuro ótimo!
    Sobre representatividade: acho bacana que a série não era gordofóbica. Além da Sookie, tinha a Miss Patty e o prefeito e eles nunca eram tratados diferentes por serem acima do peso, a série conseguiu não passar isso como um problema, acho isso bem relevante. O mesmo acontece com o Michel. Embora seja o único negro bem desenvolvido da plot, ele ainda é gay e imigrante. Nenhuma das coisas faz com que ele seja menos respeitado, o que acho bacana. Mas me incomoda que tenham transformado 3 minorias em uma só – parece que estavam tentando economizar personagens, sei lá.
    Sobre um Mr.Kim: a única vez que dá o entender que ele existe é quando querem mandar a Lane pra Coreia e a mãe dela fala que é porque o pai dela mandou. Mas nunca entendi se ele morava naquela casa e a gente nunca via por causa dos milhares de móveis, se ele trabalhava fora e nunca estava lá, se ele trabalhava/morava em outro país ou se tinha morrido. Não consigo ver a Ms. Kim como uma mãe solteira/divorciada. Se essa fosse a realidade, certamente a Lane teria usado isso como argumento VÁRIAS vezes para ter um comportamento mais Ocidental. Acho esse um dos maiores furos da série.
    Sobre a Emily e o Richard: acho que eles são muito condizentes com o status social a que pertenciam e fiéis à criação que receberam. Nunca me surpreendi negativamente com eles, porque sempre achei eles previsíveis e sempre soube que era aquilo ali mesmo. É um retrato importante, principalmente em se tratando de Estados Unidos, esse de uma família extremamente conservadora com filhos nem tão conservadores assim. Inclusive, é algo que aparece em outras séries e que a gente vê ser uma discussão importante pra sociedade local.
    Por fim, acho que a Rory acabava sendo mais bem resolvida em diversos aspectos do que a sua própria mãe e em diversas situações tinha que cuidar da mãe ao invés de ser cuidada e imagino que isso tenha tido grande peso nos colapsos que ela teve ao longo da série. A Lorelai acabava sendo muito dependente dela e isso se demonstrava prejudicial em diversos aspectos. Também gostaria que a decepção amorosa tivesse menos peso na composição psicológica da Lorelai. A cena dela no casamento da Lane é de partir o coração. A quantidade de namorados e quase casamentos durante a série é triste. Ela está sempre frustrada, incompleta e insatisfeita. Dá muita dó. E fiquei possessa pelo fato de o único casamento que de fato aconteceu não ter sido mostrado pela série.
    Ah! Não lembro qual o fim do Christopher! Ele morreu?
    (meu deus, acabei escrevendo um post aqui hahahaha)
    Adorei o texto, obrigada por me proporcionarem essa conversa!
    Abraços, Mayra.

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