“Gigantes”, Pedro Henrique Neschling


Texto: Lorena Pimentel

Quando eu tinha lá meus dezessete anos, uma amiga olhou para a sala durante um intervalo entre as infinitas aulas de revisão para o vestibular e perguntou para nós: “quem vocês acham que vai ser o primeiro a morrer dessa sala?”, como se fosse uma pergunta casual e nem um pouco causadora de crises internas. Mas essa foi uma das lembranças que tive enquanto lia Gigantes. Aquela classe meio desconjuntada que eu tive por um ano, efeito da decisão da diretoria de que misturar as turmas era o único jeito de nos concentrarmos no vestibular. Algumas pessoas eu conhecia há anos, outras convivi por poucos meses, mas aquele microcosmo foi significativo na minha vida em uma época difícil.

O livro começa com uma festa de formatura do ensino médio. Nós conhecemos um grupo de amigos que têm grandes ambições para seu futuro depois da escola, que têm sonhos para a carreira e para a vida. Eles são diferentes entre si: há quem queira uma vida equilibrada e planejada, há quem sonhe em ser rockstar. Essa é a premissa da história e, nas próximas páginas, acompanhamos o ponto de vista de cada um e o que eles fazem durante os próximos anos de suas vidas.

A ideia aqui é que, ainda que sejamos bem diferentes uns dos outros, a vida na época de escola é planejada para nós. Uma vez que estamos vivendo fora desse ambiente, fica mais possível escolher o que vamos fazer. Para o bem e para o mal, deixemos claro. O livro conta as decisões que nosso grupo de amigos tomou e as consequências que essas decisões trazem. Nós vemos também quem desse grupo se afastou, quem ficou ainda mais próximo, mas, no final das contas, como o grupo em si se fragmentou.

Faz pouco mais de cinco anos que ouvi a pergunta que contei ali em cima de uma amiga, ou seja, faz pouco mais de cinco anos que saí da escola. Que eu saiba, nenhum dos trinta e poucos colegas daquela classe morreu – o choque foi a morte de um ex-colega da pré-escola, aos dezoito anos -, mas também não faço ideia do que eles estejam fazendo de suas vidas. Assim como em Gigantes, minhas informações sobre aquelas pessoas são flashes de suas vidas pelas redes sociais, porque um terceiro me conta, etc. Há quem eu não veja desde dezembro de 2010.

O que eu acho que é ok. Existe uma romantização de amizades antigas, mas o que eu acho e o que Gigantes mostra é que tudo bem os vínculos acabarem. Esse grupo, assim como o meu (e provavelmente o seu), não sobreviveu à vida adulta e à falta de convivência diária. E tudo bem. Porque a gente cresce, as prioridades mudam e nem sempre aquelas pessoas combinam com a vida. Não faz o que vivemos ao redor delas menos especial, mas a nostalgia é a peça-chave aqui.

A história de Camila, Fernando, Duda, Lipe e Zidane poderia ser a minha ou a sua. E, imagino, que muita gente teve incerteza sobre qual curso seguir, teve dramas amorosos, quis conhecer novos lugares ou sofreu por amor. O que eu quero dizer é: a história de Camila, Fernando, Duda, Lipe e Zidane é realista e cada um vivencia as experiências do começo da vida adulta de forma diferente. É por isso que a narrativa é tão gostosa de ler e por isso que é fácil se identificar com os personagens. Eles são todos nós e nossos amigos.

Cheios de certeza e incertezas, a vida deles constrói uma ótima história que eu recomendo bastante. Só fica o aviso para não stalkear os colegas de escola depois de ler: você pode sem querer curtir a foto antiga no instagram de alguém que não vê há anos.

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@buzzedwhispers) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.