Garota conhece família


Texto: Maria Raquel Silva, Maynnara Jorge e Rovena Naumann

Quando saiu a notícia de que a série da década de 90, Boy Meets World, teria uma spin-off, os fãs foram à loucura. Ver Cory e Topanga novamente – e dessa vez como pais – seria uma coisa maravilhosa. Várias dúvidas começaram a aparecer, mas a maior de todas, com certeza, foi: como seriam eles com os filhos? Girl Meets World (Garota Conhece o Mundo, no Disney Channel) respondeu a essas perguntas.

Maynnara: Eu confesso que não lembro muito da série original, porque eu era muito nova e nunca cheguei a rever depois de ficar mais velha, mas eu acho muito importante essa coisa da Disney ter pais muito presentes. Eu acho que o Cory e a Topanga são basicamente o que os pais das outras séries “teens” não são. É muito comum ver os adolescentes meio negligenciados e nesse caso eles são realmente bem presentes e importantes nas decisões da Riley e até da Maya.

Rovena: Eu fiz maratona de Boy Meets World ano passado, porque queria me lembrar de todos as personagens. Acho que os pais do Cory também eram bem presentes, o que talvez explique o Cory ser assim com a Riley. E SIIIIIIIIIM! A Disney acertou muito colocando os pais mais presentes. Os filhos estão sempre sozinhos e enfrentando problemas sem nenhum tipo de ajuda.
Naquele episódio que a Riley vê Cory e Topanga como pais perfeitos e sente pressão por não ser igual, você acha que esse é a visão que nós temos deles?

May: Eu acho que eles não são perfeitos, como ela mesmo descobre depois, mas é isso que faz a série ser mais realista, porque eles já passaram por isso, mas mesmo assim nem sabem sempre como lidar, porque a Riley não é o Cory e isso que faz o spin-off fazer sentido. Acho que ficou meio confuso, mas o que eu quis dizer é que não fizeram uma série exatamente igual à original, mas trouxeram a essência do Cory adolescente para quem ele seria como pai.

Maria Raquel: Sobre os pais do Cory, uma coisa que eu acho muito legal na série original é todo o enredo do Eric não entrar direto na faculdade, porque em nenhum momento eles julgam ele, mas apoiam as decisões que o Eric faz, tanto em esperar pra fazer o SAT, quanto pra ficar trabalhando na loja etc.
E sobre Cory e Topanga serem perfeitos, tem um episódio em que o Auggie tá com a Eva e ele tem toda uma pressão dele mesmo pra ficar com ela, porque ele acha que é assim que deve ser, por causa do exemplo do Cory e da Topanga. Uma coisa que Girl Meets World faz bem é mostrar que as crianças não são os pais. Isso acaba afetando não só as crianças/adolescentes que são os personagens, mas também as que estão assistindo. Apesar do Cory e da Topanga passarem essa ideia de perfeição, eles não são realmente perfeitos, né.

Rovena: Nossa, isso do Eric é verdade. Eu não tinha me lembrado disso, porque acho que estava focando mais no relacionamento deles com o Cory (DESCULPA, ERIC!).
Eu gosto de Girl Meets World por isso também, mostrar que as crianças não são os pais, porque acho que desde o começo muita gente estava esperando isso, né? Principalmente na parte dos relacionamentos amorosos… O que não é o caso aqui.
O Shawn e Maya. Gosto muito dos dois juntos. Gosto porque ele virou uma figura paterna para ela, comprando roupas e dando presentes. Me lembra muito o relacionamento que ele desenvolveu com o Turner.

May: Eu acho que a ideia era um pouco essa na relação dele com a Maya, porque ela é claramente a amiga “rebelde” da Riley e mesmo que ela divida um pouco da atenção do Cory, ela não tinha realmente uma figura paterna na vida dela. Inclusive acho legal que não fizeram a mãe dela ser uma irresponsável por opção, gosto que mostram que nem tudo na vida é preto e branco e que o que ela não podia dar para a Maya era porque ela tava o tempo todo trabalhando pra fazer a Maya ter tudo que ela podia ter.

Rovena: Uhum, colocar a mãe dela sendo ausente por conta do trabalho foi ótimo. E no começo a Maya reclamava disso, mas depois viu que a mãe fazia isso porque era o necessário, porque ela se importava com a filha e não porque era o que ela queria.

MR: Gosto que a mãe da Maya também acabou protegendo ela de odiar o pai. Acho complicado que isso fez com que ela odiasse a mãe, mas existem muitos pais que fazem os filhos odiar o que negligenciou. Isso da mãe dela proteger o pai, pra Maya só ter lembranças boas dele, isso é bem legal.

Eu maratonei Um Maluco no Pedaço recentemente e tem uma cena que o Will pergunta pro tio dele porque o pai dele não quis ser pai (algo do tipo), e me lembrou muito da cena da Maya falando da tempestade.
Girl Meets World tem vários tipos de família, isso é que mais me faz querer ver.

May: Sim! Eu acho que essa representação de que nem toda família é aquela família de propaganda de margarina é o que faz a série ser completa. E o melhor é que a própria Riley reconhece isso, ela sabe que é privilegiada por ter a família que tem e ao mesmo tempo ela consegue entender e fazer os amigos entenderem que não é porque a família deles não é como a dela que eles deveriam se sentir mal.
Tem um episódio (acho que é especial de natal) em que ela fica chateada porque acha que o Shawn não gosta dela e depois ela vai descobrindo que ele só não tinha muito jeito com ela, acho que as grandes sacadas dessa série são sempre mostrar que nada é como a gente pensa compulsivamente na nossa cabeça e que sempre dá pra conversar e tentar entender as outras pessoas.

Rovena: Eu pego muito uma vibe de que família são as pessoas que nós escolhemos. E eu acho que a amizade dela com a Maya mostra isso um pouco, porque elas são muito mais do que melhores amigas. A mesma coisa com Shawn e Maya, que são, um para o outro, o que eles não tinham.

MR: Eu sempre digo isso: às vezes a gente tem sorte da nossa família ser a de sangue, e às vezes a gente tem que ir um pouquinho mais longe e encontrar as pessoas que acabam virando nossa família. Em Girl Meets World tem esses dois exemplos.

Rovena: Acho que em Boy Meets World também, né? As duas séries são ótimas com isso.

May: Sim, eu acho importante também como o Cory é dividido em dois personagens, ele é o pai em casa, que muitas vezes se contradiz, e o professor/mentor dele em sala de aula. Algumas vezes os dois se misturam, porque é normal, mas eu entendo que no fim ele tenta ter esse desprendimento pra fazer a Riley e os amigos entenderem as lições. Acho que isso é um pouco a representação que o professor dele era pra eles. Né?
Tanto que em Girl Meets World ele aparece pra continuar dando “conselhos” pro Cory.

Rovena: Sim, o Feeny!! Lembro que algumas vezes o Cory ia tirar dúvidas sobre problemas da vida com ele, porque ele sabia que o professor era a pessoa ideal para ajudá-lo naquele momento. É como você falou, o Cory é pra Riley, Maya, Farkle e Lucas o que o Feeny era para ele, Shawn, Topanga e Eric. E até pro irmão do Shawn.

MR: Eu também gosto dessa dinâmica do Cory ser tanto pai quanto figura mística do saber, como o Feeny foi pra eles. Mas acho que se eu fosse a Riley ia ficar meio confusa com quando é o que hahaha. Pra mim a melhor personagem adulta é a Topanga. Parece que ela tem até mais “defeitos” do que quando ela era adolescente.

May: Sim! Eu acho que a Riley fica confusa mesmo. No fim da temporada deu pra ver isso, porque ela falava com o Cory dizendo que ela ainda tinha muito que aprender e não tava preparada pra sair do middle school. Acho que isso era um pouco da falta que ela ia sentir do pai, dessa figura de mentor que ele é.
Sobre a Topanga: amo muito e me identifico demais com ela. Ela é tipo meio adulthood goals hahahahaha

Rovena: Sim, exatamente, Topanga é total adulthood goals pra mim também. Eu também acho que ela é a melhor adulta. E gosto muito de vê-la como mãe. Errando e aprendendo junto com os filhos, meio como deve ser na vida real, né?

May: Pois é! Acho que é bem isso que deveria ser mostrado nas séries. Eu entendo que nem sempre é assim na vida real, os pais presentes o tempo todo, mas já falamos aqui na Polén sobre a relação dos pais em Pretty Little Liars e pra mim aquilo é desprendimento total. Eles não participam em absolutamente nada da vida das filhas, acho que GMW/BMW, por mais “idealizado” que possa ser, ainda é mais real.

MR: Gosto que essa é uma coisa bem diferente do Cory e da Topanga em relação aos pais do Cory. Os pais do Cory pareciam já saber tudo, né? Eles tinham resposta pra tudo. Ao contrário do Cory e da Topanga, que claramente estão aprendendo ao mesmo tempo que a Riley (mesmo que eles mostrem confiança na maior parte do tempo).

Rovena: Sim, é uma coisa que eu reparo muito. Qualquer coisa que acontecia eles já sabiam qual seria o resultado daquilo. Cory e Topanga não são assim. Eles dão conselhos, mas nem sempre é aquilo mesmo. Acho engraçado também ver o comportamento dos dois com o crescimento dos filhos. Riley demonstrando interesse em meninos, especialmente no Lucas, e o Auggie com a Eva.

May: Verdade! Eu sempre rio com o desconforto dos dois, que ao mesmo tempo é o que as pessoas sempre falam, que o filho vai ser sempre o “queridinho” da mãe e a filha eterna “menina” do pai. É meio arcaico, mas é o que geralmente acontece, deve ter alguma explicação psicológica por trás disso, mas acho que a tendência é essa até porque dá pra perceber que o Auggie é mais próximo da Topanga e a Riley do Cory.

MR: Talvez isso aconteça por causa da personalidade? Porque a Riley é igual ao Cory.

May: Sim! Eu consigo ver claramente que o Auggie tem o gênio da Topanga e a Riley é bem mais parecida com o Cory, uma coisa que não era tão presente na série original. Porque por mais que a gente tivesse contato com os pais deles, não era como a gente tem com o Cory e a Topanga que vimos crescer, né?

Rovena: Nãão! É legal ver isso agora em Girl Meets World porque o Cory a gente conhece desde que ele era criança. A mesma coisa com a Topanga. Então ver os dois amadurecendo juntos, mais uma vez, é tão especial.
E isso do Cory e Riley e Topanga e Auggie, SIM! Acho muito engraçado porque toda vez que a Riley fala de menino, a Topanga fica toda “isso, namora, aproveita”, mas o Cory surta. Só que é o contrário quando é o Auggie que fala da Eva.

May: Gente, o que vocês acham da relação do Minkus com o Farkle? Eu particularmente aprendi a amar o Farkle e não acho que ele seja tão parecido com o Minkus como a Riley é com o Cory. Inclusive eu amei o episódio que fala sobre o problema de Asperger (era Asperger mesmo, eu lembro que ele tem um nível de autismo) e tem essa questão de lidar com as relações que ele tem com as pessoas.

Rovena: Amo, amo, amo Farkle. E eu achei o máximo que o filho muda o pai, sabe? Naquele episódio que o pessoal da casa deles e todos ficam impressionados com as coisas, no final o Farkle fala algo que é meio “nós temos que ajudar as pessoas” e o Minkus concorda, porque sim, essa é a coisa certa a se fazer já que eles têm demais.
E esse episódio do Asperger é muito fofo.

MR: Mas eu não vejo muito do Minkus no Farkle. Eu acho o Fakle mais sensível, ele aprende mais com a Riley e a Maya. Aliás, uma das coisas que mais gosto em Girl Meets World é a amizade do Lucas e do Farkle, porque eles são tão diferentes, mas se unem porque os dois são amigos das meninas. E acabam virando melhores amigos.

Rovena: Essa série é toda linda, né?
Eu também não vejo o Minkus no Farkle. Talvez até tenha sido uma ideia fazer ele parecido com o pai, mas a gente vê que ele também tenta sair dessa caixinha de ser o bom em tudo. Ou de, pelo menos, se achar melhor que os outros porque ele é inteligente.

May: Sim! Eu acho que é muito importante eles estarem sempre aprendendo, acho que as lições dessas séries são muito boas pra quem é mais novo e tá passando por isso. Eu, mesmo bem mais velha que elas, consigo apreciar várias coisas que a série passa e como é importante pra quem é mais novo, influenciável e está precisando de um norte. Porque a verdade é que todos eles tão aprendendo, tanto a Topanga e o Cory quanto os pais, quanto a Riley, Maya e cia.

MR: Eu estava falando isso esses dias mesmo, que a Rowan (atriz que faz a Riley) é uma das minhas role models. Se isso é pra mim, que sou muito mais velha que ela, imagina pra meninas da idade dela ou que são mais novas? É ótimo que exista uma série desse tipo que garotas pequenas, pré-adolescentes e adolescentes possam assistir e se inspirar, e dizer “eu posso”, sabe.

Rovena: Sim. Eu acho que essa é uma das melhores séries atualmente. E não só pelas mensagens da série, mas também por quem faz, tipo a Rowan. É uma coisa meio inspiradora mesmo, tipo aquele episódio do laboratório de ciências, que a Riley e a Maya entram na sala e falam que são feministas. Colocar isso numa série pra meninas mais novas, usar essa palavra desse jeito, mostrando que não tem problema, é incrível.

May: Pois é! Acho a Rowan incrível, principalmente porque fora da série ela faz questão de debater sobre coisas que são importantes pra ela e pra várias outras meninas, como questões LGBT+ e problemas como depressão etc. Acho que não só dentro da série, fora dela elas representam muito bem a nova geração de meninas que estão vindo.

Rovena: E eu só fico mais ansiosa por todas essas meninas, porque com certeza vamos ter muitas coisas maravilhosas.

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