Fugas guiadas em “The Florida Project”


Quando saí do cinema naquela noite fria, não sabia precisar minha opinião sobre o filme. Sabia que algo havia me tocado, mas não soube dizer se havia gostado naquele momento. Não dá para se enganar pela primeira impressão mesmo: às vezes leva-se tempo para absorver a obra. Sean Baker ficou conhecido pela empreitada ousada de rodar um longa-metragem usando apenas um iPhone. Tangerine mostrava uma das preferências de Baker – oferecer protagonismo a quem vive à margem. Foi rodado em Los Angeles e narra a história de Sin-Dee, que é transgênero. Em The Florida Project, ele se desloca aos subúrbios de Orlando para contar a história de Moone (Brooklyn Prince), uma garota de 6 anos. Não há riqueza, mas tudo é grandioso e colorido como em um verdadeiro parque de diversões. E uma criança não pede mais que isso.

Ela está de férias, seus amigos também, e é preciso achar meios de se divertir nas imediações – afinal, ninguém possui meios de se deslocar até os grandes parques da Disney, que não ficam longe dali. Logo entendemos o contraste da Florida construída para turistas e a real Florida, o tal Projeto Flórida, como o próprio nome indica, permeado por desigualdades. De longe sabemos da invasão de imigrantes em busca de melhores condições de vida e bem, dificuldades financeiras e desigualdade social não são novidade para uma brasileira. Ainda assim, é estranho pensar em uma condição tão sensível, criar essa moldura do subúrbio americano. A “América” é rica, onde já se viu falar sobre pobreza neste país? Esta aí o grande trunfo de Baker – ele encontra uma nova semântica para o american dream. O faz à sua maneira.

Nós sonhamos guiados pelos olhos de Moone – correndo com os amigos, cuspindo no carro dos vizinhos, pedindo moedas para poder comprar um sorvete. Sua casa fica em um motel de beira de estrada, pintado de roxo e curiosamente nomeado Magic Castle. Ela está sempre com Scooty (Christopher Rivera), vizinho de apartamento, e de Jancey (Valeria Cotto), que ela conhece após uma de suas traquinagens em um motel vizinho. Todos estão na mesma faixa etária. Sua visão de mundo é encantadora, como se não houvesse espaço para imperfeição em sua realidade. Uma criança livre para curtir a própria infância. Os cenários, mesmo fazendo parte de uma Orlando um tanto decadente, são incríveis – é tudo meio alaranjado, rosa, roxo, como se essas fossem as cores oficiais da região. Fortes e extravagantes. Há vários takes onde as crianças passam por um enorme supermercado que imita o formato de uma laranja cortada ao meio, um gift shop com um grande mago de braços abertos na fachada, e o próprio quiosque de sorvete, que parece saído de um jogo.

O drama social fica o tempo todo nas entrelinhas e em pequenos detalhes. Baker se esforça para deixar tudo o mais sutil possível para agravar a situação apenas no desfecho da história.

Moone é tão desbocada quanto a mãe, Halley (Bria Vinaite); descobrimos que sua mãe compra perfumes falsos e tenta revender para turistas desavisados – com Moone à tiracolo; e esta mesma mãe passa a se prostituir para dar conta do aluguel semanal – e claro, para sobreviver naquele contexto. Mesmo sabendo que pode prejudicar a mãe aprontando pelas imediações, fica claro que nenhum contratempo pode esmaecer a conexão entre elas.

Um dos contrapontos da história é Booby (Willem Dafoe), o síndico do motel. Pontos para Dafoe pelo equilíbrio em cena, aliás. Ele precisa colocar ordem no barraco a todo momento, e isso exige um seriedade que nem sempre é possível. Afinal, não dá para abrir mão da humanidade do personagem – ele conhece as condições difíceis de cada morador e impor-se vira um desafio em algumas ocasiões.

The Florida Project é um filme sobre pequenas fugas diárias. Nós sabemos que não dá para escapar da realidade, então lutamos para encontrar possíveis pontos de fuga para tornar tudo mais suportável. Ninguém ignora o mundo ao redor – só tenta encontrar um jeito de transformá-lo em algo interessante e digno de ser vivido. No fim das contas, não deixa de ser um longa sobre sonhos. E sobre saber que mesmo com todas as intempéries eles vão nos levar além.

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Sobre Lidyanne Aquino

Lidyanne nasceu no Mato Grosso do Sul (isso mesmo, DO SUUL!), tem 25 anos, formou-se em Jornalismo na Cásper Líbero e terminou gostando desse caos que é São Paulo, de onde não saiu mais. Abandonou a juventude por não gostar nada de virar a madrugada na balada, mas já guardou a última mesa do bar porque conversa demais. É doente por literatura e cinema, cultiva e incentiva a prática sempre com uma boa trilha sonora de fundo. E curte muito escrever e brisar sobre essas coisas todas.