Freaks and Geeks: uma aula sobre os limites dos estereótipos


No comecinho de 2017, assisti e fui positivamente surpreendida pela única temporada dada a Freaks and Geeks, série que a televisão americana exibiu originalmente entre 1999 e 2000. A série foi criada por Paul Feig e produzida por Judd Apatow, dois nomes bem relevantes na comédia americana, e estrelada por um monte de gente que você já viu em outros lugares, incluindo os inseparáveis James Franco e Seth Rogen. Não costumo gostar muito de comédias, tanto que não vi filmes como o muito aclamado Operação Madrinha de Casamento até hoje, muito menos a maior parte da filmografia de Judd Apatow, e me recuso a assistir as parcerias entre Franco e Rogen porque não sou obrigada. De modo que é bastante surpreendente que Freaks and Geeks tenha me conquistado com tanta força, mas foi o que aconteceu.

Por que funcionou, afinal?

Tragicamente cancelada depois de uma única temporada, tendo sido elevada a status de cult com o passar do tempo, Freaks and Geeks é centrada num colégio de ensino médio no estado de Michigan, tendo como protagonistas os irmãos Weir. Lindsay (Linda Cardellini), a mais velha, era parte dos Matletas e uma menina certinha com um futuro brilhante pela frente. Até que, bem de repente, começa a vestir uma jaqueta militar e a andar com um grupo de jovens conhecidos como freaks; eles não gostam de estudar, vão muito mal na escola, só querem ficar chapados e gostam de fazer bagunça ou ficar à toa por aí. Sam (John Francis Daley), o caçula, é calouro e anda com os geeks, um grupo de meninos que pendem para o lado socialmente inepto da coisa, adoram Star Wars e seus derivados e são apaixonados por comédia, além de passarem algumas horas de seus dias se perguntando se algum dia as meninas vão prestar atenção neles. O cenário de escola ainda é complementado pelas figuras básicas de qualquer produção sobre o ensino médio norte-americano: tem o bully, os atletas, as líderes de torcida, a menina religiosa.

Neal, Sam e Bill: O lado geek da coisa.

Como fica bem evidente no título, a série é construída em cima de todos aqueles estereótipos básicos que aprendemos a internalizar como parte intrínseca da experiência escolar americana. Todos os traços desses estereótipos estão lá. Afinal, existe sim um fundo de verdade neles. Os jocks costumam gostar de esportes, os Matletas costumam ter interesse em matemática e precisam estudar e assim por diante. Também é natural que nos aproximemos de pessoas com gostos semelhantes aos nossos e, principalmente na escola, que acabemos formando laços de amizade com as pessoas que acabam preenchendo boa parte dos nossos dias, por isso também é natural que atletas acabem sendo amigos de outros atletas e líderes de torcida de outras líderes de torcida e assim por diante. Tudo isso é verdadeiro em Freaks and Geeks, mas o que Paul Feig faz com muito bem — e onde reside o maior acerto de seu roteiro — é jamais se limitar a esses estereótipos, extrapolando-os a todo momento, mostrando que embora eles de fato possuam um fundo de verdade que dá origem a essas imagens em primeiro lugar, eles são sempre extremamente limitados. Seus personagens — como as pessoas de verdade — são muito mais do que os estereótipos em que são encaixados.

As garotas más e as garotas boas e a competição entre mulheres

Lindsay inicialmente começa a sair com os freaks por um interesse particular em Daniel Desario (James Franco), meio problema, meio charme inesperado, que tem um relacionamento conturbado com Kim Kelly (Busy Philips). Inicialmente, Kim parece ser apenas um grande empecilho para que Lindsay e Daniel eventualmente se transformem num item, e surge entre elas aquela animosidade que você esperaria quando já tem graduação e pós nesse tipo de história. Numa narrativa que seguisse o senso comum, Lindsay — a garota boazinha com uma relação agradável com os pais e boas notas, aquela coisa toda — seria recompensada com o mocinho com alguns problemas que ela ajudaria a contornar para salvá-lo de suas questões, enquanto Kim — a garota má, rebelde e complicada — seria deixada de lado; tudo isso sem deixar de lado a cota necessária de babaquice com a outra. Freaks and Geeks não aceita tomar esse rumo, e constrói uma amizade cada vez mais interessante e complexa entre as duas garotas, sem que nenhuma delas precise deixar de ser quem são.

Lindsay e Kim.

A série também desconstrói a ideia de que gente como os freaks não liga para nada nem ninguém ou não tem preocupações com suas vidas e seus futuros. Kim é bastante segura de si, mas ela fica incomodada e revoltada quando Lindsay sugere que ela é o tipo de garota que seus pais não considerariam uma boa influência porque ela não tira boas notas, usa drogas, faz sexo. Kim se pergunta se é isso que Lindsay pensa dela, e a incomoda muito perceber que ela é entendida de um jeito tão redutor e tão profundamente julgada por alguém que naquele ponto já considerava sua amiga. Um questionamento parecido ainda é explorado com Nick Andopolis (Jason Segel), parte do grupo. Nick vai extremamente mal na escola, em parte porque não se dedica, em parte porque aquele caminho não é interessante para ele. Nick quer mesmo é ser músico — só que Nick é muito ruim, e seu sonho que dá todos os indícios de que provavelmente nunca vai levar a nada gera um conflito muito difícil com o pai dele. Pode parecer que não, mas Nick — como Kim — se importa. Ele está simplesmente cansado de ser ruim em tudo que tenta.

As identidades boas e más

O tema principal de Freaks and Geeks talvez seja nossa identidade. Enquanto adolescentes, Lindsay e Sam estão buscando entender melhor quem são, com o que se identificam, o que os interessa, quem querem ser. Nesse caminho, eles tentam e desistem de algumas coisas, tentam e continuam outras coisas, abandonam alguns traços antigos das pessoas que foram e adquirem alguns novos traços das pessoas que ainda serão. Um grande acerto da série está em não afirmar que ser um geek ou ser um freak está certo ou errado, ou que qualquer um deles precisa ser “salvo” de sua própria identidade, se transformar uns nos outros ou qualquer coisa assim.

Daniel, Ken e Nick: o lado freak da equação.

A relação de Lindsay com Millie (Sarah Hagan) — Matleta, religiosa e sua antiga melhor amiga — e com a matemática em geral, bem como a dos freaks com o lado matemático de Lindsay é um bom exemplo de como a série permite que suas personagens sejam complexas. Quando Lindsay sofre um pequeno trauma e tenta recuperar sua antiga identidade, ela acaba inevitavelmente percebendo que aquela não era mais a pessoa que era, explicando a Millie — que sempre tentara trazê-la de volta — que aquela sempre seria uma parte importante de sua vida, mas que simplesmente não era mais ela. Lindsay tenta excluir seus novos amigos de seu retorno à antiga vida, mas eles, ao invés de considerar seu interesse por matemática ridículo ou coisa de nerd, escolhem sentar numa competição entre Matletas e torcer de seu próprio jeito barulhento e meio bagunçado por ela. Lá no comecinho da série, quando Lindsay dá sua primeira festa em casa e recebe, entre muito mais gente, os freaks, Daniel presta atenção nos troféus que ela acumulara ao longo dos anos. Os dois protagonizam uma das cenas mais interessantes da série. Lindsay imediatamente busca minimizar a importância dos troféus, dizendo que são bobagem, que é uma coisa idiota — querendo dizer que ser quem era, ou quem é, é uma coisa idiota. Daniel, em resposta, garante que não é idiota. Só é uma coisa diferente.

Os geeks e os grupos populares

Da mesma maneira, os geeks jamais precisam deixar de ser quem são para quem seus interesses e suas identidades sejam considerados válidos. Na verdade, é na figura de Bill Haverchuck (Martin Starr), com seus trejeitos meio desengonçados, seus óculos enormes e sua geral falta de vergonha em relação a seus interesses que o estereótipo do geek aparece com mais força. E é justamente ele o mais seguro de si mesmo, o que melhor lida com as interações sociais em geral e o que menos se incomoda por não se parecer com quem é comumente considerado cool.

É mais ou menos nessa linha que personagens como Cindy Sanders (Natasha Melnick) e Todd (Riley Smith), líder de torcida e atleta, jamais são transformados nos alunos cruéis, praticamente de bullying ou que ridicularizam seus colegas menos populares como estamos acostumados a ver. Para a surpresa do próprio Sam, quem jamais esperaria receber atenção de uma garota como Cindy, ela está sempre se aproximando dele e tratando-o como um igual. Também para a surpresa de Sam, Todd nunca é um babaca com ele. Na verdade, ele é até um cara bem legal. Eles nunca chegam a se tornar amigos, mas têm um relacionamento amigável e de respeito, como pessoas bacanas costumam ter com outras pessoas bacanas com quem não têm muito em comum.

Os geeks e Maureen descobrindo um inesperado interesse em comum.

Um episódio particularmente interessante da série traz a chegada de Maureen (Kayla Ewell) à escola no meio do ano. Sam e os amigos imediatamente consideram a garota muito bonita e ficam extremamente surpresos quando ela é simpática e aceita com gratidão se juntar a eles na hora do almoço. A preocupação dos meninos passa a ser a de mantê-la por perto, evitando que ela seja “sugada” pelo que consideram seu habitat natural: as líderes de torcida, os atletas, os jovens populares. E eventualmente Maureen se torna amiga deles também. Mas ela faz questão de lembrar que uma coisa não precisa excluir a outra, e ela nunca vai deixar de ser a garota que também achava divertido lançar foguetes com os meninos num estacionamento. Maureen não se torna uma personagem regular, de modo que fica claro que seus caminhos realmente acabam se separando como os garotos imaginaram que aconteceria, mas quando ela é retorna é de um jeito particularmente sincero, relembrando — mais uma vez — que as pessoas são muito mais do que sua imagem deixa transparecer.

E aí?

Freaks and Geeks me surpreendeu muito positivamente. Ainda é uma comédia, ainda é uma comédia americana, ainda tem um humor que às vezes é meio bobo ou que simplesmente é demais para ser engraçado, e ainda não é exatamente meu tipo de coisa. Mas fui conquistada pelo jeito competente com que seus personagens são estabelecidos e desenvolvidos, cheio de questionamentos e dúvidas e também de algumas pequenas certezas a respeito de si mesmos conforme o tempo passa e suas experiências crescem. Construída em cima de estereótipos e clichês, a trama deliberadamente explode os limites rígidos dessas imagens o tempo todo. Pode até ser mais fácil catalogar as pessoas em pequenas e limitadas caixinhas e pode até ser mais fácil construir personagens a partir desses limites, mas Freaks and Geeks se recusa a fazer isso, nos lembrando a todo momento que deveríamos olhar mais a fundo, olhar mais além. Ninguém é tão simples quanto gostaríamos que fosse.

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura - ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.