Fora de si


 

O velho ditado já dizia: se conselho fosse bom, ninguém dava, e sim vendia.  Se eu pudesse dar um conselho às pessoas que gosto e que desgosto também, diria: seja um estranho uma vez na vida. De acordo com o ditado, ou eu estaria dando um conselho muito do ruim ou perdendo uma grande oportunidade de fazer negócio. Pouco me importa.

Já me senti de fora mesmo dentro da minha própria realidade. Mas é fora do que a gente considera comum que tudo conspira para encontrarmos outras formas de ser.

Tive uma grande oportunidade de ser estranha e estrangeira na vida – não turista de resort ou mochileira desbravadora que larga tudo que tem na selva de pedra e a cada post no Facebook demonstra “gratidão” pelo pôr-do-sol. Considero ambos os tipos de viajantes digníssimos, mas não é meu caso. Fui intercambista por pouco mais de 1 ano numa cidade chamada Melbourne, na Austrália. Pouquíssimo tempo para dizer que sou de lá, mas o suficiente para dizer que eu vivi lá.

Tinha visto, endereço fixo, conta no banco, número de celular; vizinhos, lugares preferidos, motorista de ônibus gente fina e motorista de ônibus mal-humorado; o cara da loja de bebidas já me conhecia, o pessoal da farmácia e os guardas do metrô também; o sotaque local deu sua pinta, estudei lá, estagiei lá; sabia os horários dos transportes todos e sei cantar a música do 13 Cabs (empresa de táxi) até hoje.

O bom de ser estrangeiro é que a nossa boa e velha noção de identidade é agraciada com o fator da liberdade. Estar num lugar estranho e, portanto ser um estranho, é ter a oportunidade de viver outra vida dentro da sua própria – e talvez única – existência.  

Ser um ninguém faz a gente se sentir vivo. Essa sensação não é permanentemente boa nem má. É um desafio consigo mesmo de enfrentamento. Enfrentar um inverno de graus negativos fora de casa é também enfrentar a mim mesma num inverno de graus negativos fora de casa. Enfrentar uma nova língua é também enfrentar a minha forma de falar e de usar essa nova língua. O enfrentamento é constante. A noção de vida é constante. É como se a gente estivesse oco, se conhecendo para ir se preenchendo.

Eu gostava de testar minha identidade e ao mesmo tempo reafirmá-la. Quem sou eu longe de casa e, mais do que nunca, perto de mim? Eu sou samba, caipirinha e futebol ou nada disso me representa? Sou mais nordestina do que brasileira? Sou mais internacional do que recifense?

Nesse caminho de encontrar uma identidade como um estrangeiro, chega um ponto que a gente sabe dizer de onde veio mas o “quem somos e para onde vamos” fica sempre em aberto. Uma vez que a identificação com o estrangeiro ocorre, é irreversível. Ainda que a gente volte a morar no nosso lugar de origem, o sentimento de ser um estranho faz sentido. Está feito: você não mais pertence a um lugar, e sim a si mesma(o)

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Sobre Marina Cavalcante

Marina tem 25 anos e é formada em Jornalismo pela UFPB. Nascida e criada em Recife - PE, atualmente mora em João Pessoa - PB. Já morou em Melbourne - Austrália e planeja viver em algum outro lugar que a faça sair da sua zona de conforto. Quando não está escrevendo, está vivendo para escrever. Seu maior sonho é viver do que escreve. Para mais da Marina, visite o seu blog, o marinabrazil.com.br.

  • Marina Cavalcante

    Obrigada, Maria!

  • maria

    adorei 🙂