Folhas da Juventude


Texto: Lara Matos

Juvenília é um termo usado para as primeiras produções de artistas conhecidos (poetas principalmente), muitas vezes em tom pejorativo. Trata-se, geralmente, do período de construção tanto da personalidade quanto do eu artístico. Menosprezar os inícios é usual, porém concordo com aquela teoria de que todo livro de um autor é um só por toda sua carreira, a mesma história de diferentes perspectivas, tempos e modos narrativos. Penso em visões aprimoradas, embora muitos insistam em publicar seus escritos primevos como forma de auto ironia. Afinal, jovens nada sabem e são estúpidos por natureza, não é mesmo?

Não, e a ficção nos mostra quão relevantes podem ser a visão de mundo e os feitos de adolescentes. Isso mudou minha perspectiva e melhorou minha autoestima ao longo desse período muitas vezes confuso e difícil, repleto de adultos me subestimando.

Minha preferência em relação a romances YA gravita em personagens femininas de destaque. A força feminina, apesar de algumas vezes distorcida e silenciada, é, para mim, o ponto alto da maioria dos romances que leio. Há problemas em relação à representatividade da maior parte das heroínas, tanto no cinema quanto nos livros, mas refletir sobre eles é bem melhor que renegar as personagens. Imperfeições existem para serem trabalhadas.

Decerto, nem sempre a heroína dos livros é a protagonista, lugar ocupado geralmente por um homem de qualidades irreais. Tenho um imenso carinho por essas garotas que crescem à sombra. Um dos pontos principais para a construção equivocada de sujeitos femininos: a “voz da razão” que guia a maior parte dos heróis é feminina, mas ainda é coadjuvante na maior parte das histórias, algo que me incomoda bastante. Um dos últimos livros que li, Anna Vestida de Sangue (Kendare Blake), aposta na fórmula da narração pelos lábios de um garoto, Cassio Theseus: durante toda a história só consegui pensar que seria bem mais interessante centrar a narrativa em na voz de Anna, que viveu bem mais e conhece melhor o que é ser um fantasma.

Afinal, o que seria de Harry Potter sem a constante ajuda de Hermione, e posteriormente, de Ginny Weasley e Luna Lovegood? Melhores exemplos da visão feminina aprimorada desde o início de nossa existência e de como as cobranças sociais por maturidade e contenção em algum momento podem ser revertidas a nosso favor estão nos livros e filmes de Harry Potter. Apesar de não ser um livro sexista, principalmente em As Relíquias da Morte, a resiliência de Ginevra, Luna e Hermione é provada enquanto a maior parte dos garotos esperneia em pânico, Harry inclusive. Ginny lembrando Harry que foi vítima da possessão de Voldermort na Câmara Secreta é uma boa chamada à terra ao herói que vinha sendo um tantinho egoísta demais.

ginnycos

Ginny em Harry Potter e a Câmara Secreta

A idealização de meninas como donzelas aguerridas portadoras de múltiplas habilidades em luta ou magia também me parece desnecessária para ilustrar o heroísmo, até porque este já reside, muitas vezes, em sobreviver à própria adolescência. Estereótipos de meninas lindas, sem defeitos (ou quando existem, são graciosos) e com poderes são cansativos, e têm até perfis de paródia no Twitter, por exemplo.

Há alguns heroísmos que escapam das nuances de grandeza épica. Muitas vezes, salvar-se da própria autodestruição já é o maior prêmio da trama. Theo, protagonista de Na Ponta dos Pés, de Brandy Colbert, é um ótimo exemplo disto. Toda jornada dela implica em aceitação dolorosa das próprias falhas e da descoberta de que não existe perfeição possível nem na idealização de nós mesmos. Viver bem é saber adaptar as próprias expectativas. Hemingway tinha que estar certo alguma vez na vida, e estava quando falou que “ou você aprende a quebrar ou será eliminado”, em Adeus às Armas.

Paloma, de A Elegância do Ouriço (Muriel Barbery) foi uma heroína adolescente que fez sentido para minha vida adulta em 2011. Nada épica, mas como o próprio título faz alusão, a parábola do ouriço enfeitado era eu: muito isolamento e frio para evitar a eventual feiura das experiências cotidianas. Paloma é mimada e obviamente imatura, aprende muito ao longo de seus 12 anos, até mais do que gostaria. Ou seja: é como qualquer pessoa no limiar da adolescência, percebendo aos poucos que deve abandonar a onisciência do mundo infantil e se aventurar na complexidade de sentimentos e ações adultas. O que uma criança pensa e sente é tão valioso quanto as vivências de um adulto, mas os processos ocorrem de formas e em tempos distintos, e essa evolução é indispensável: é o crescimento.

O ponto comum desse heroísmo das adolescentes talvez seja a bravura, mas não aquela traduzida literalmente como coragem e sim uma combinação de uma firme noção de quem se é e do que se quer ser, que as honra bem melhor que a temeridade colérica, para ser sincera (afinal, a coragem mal utilizada já deu azo a personagens maus e desastrosos).

Derrotando inimigos dentro ou fora de si, minha adolescência e mesmo parte da vida adulta teriam sido bem mais difíceis se eu não tivesse esses exemplos da ficção para me orientar. Obrigada, meninas! <3

  • Aqui, uma listinha de heroínas adolescentes nem tão conhecidas assim para amar:

-Rabia Abla (inicia o livo criança), protagonista de O Palhaço e Sua Filha, obra desconhecida por muitos brasileiros, é uma heroína pela qual tenho muito carinho. Halide Edip Adivar escreveu uma obra feminista, cheia de sensibilidade e beleza sobre uma menina que pensa além das convenções religiosas e apesar das proibições de sua mãe e de seu avô, com referências majestosas sobre a cultura islâmica além de preconceitos. Detalhe: o livro é do início do século XX; confirmando o que disse Nise da Silveira: a pessoa faz a época em que vive, e não o contrário. Obrigada para a Jamila, minha amiga que me apresentou esse livro.

– O Círculo, trilogia Engelsfors, um YA sueco sobre garotas-e um garoto-que se descobrem bruxos muito repentinamente, e então têm que lutar com poucos recursos contra o avanço do mal sobre o ponto místico de Engelsfors, localizado na cidade de mesmo nome. Só tem um probleminha: Fogo, segundo livro da trilogia, só saiu em inglês e espanhol, e não sei se vai ser lançado em português.

-Lôcas, de Jamie Hernández, publicadas na série Love&Rockets (dos irmãos Gilbert & Jamie Hernandéz); quem leu A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao de Junot Díaz vai pensar: mas a Maggie, Hopey, Izzy e Penny a são a Lola, irmã de Oscar, ao menos essa foi minha associação imediata. Jamie Hernandez arrasou criando esse quarteto maravilhoso de moças latinas que não se encaixam em padrões-Maggie, por exemplo, é uma mecânica excelente e muito subestimada e que tem dificuldade quando engorda um pouco com as roupas americanas que não abarcam seu traseiro latino.

locasmipl

lôcas, lôcas, lôcas!

-Violet Baudelaire, de Desventuras em Série, cientista aos 15 anos, engenhosa e atrevida, e ilustra muito bem o que eu falei sobre saber quem se é e o que se quer ser, uma lição de autoconfiança para todas as meninas consideradas “espertas” demais, quando não haveria nenhum problema em um garoto agir da mesma forma.

-Serena, Sailor Moon: tá, ela é conhecidíssima, mas tem lugar cativo aqui por ser MUITO canceriana (beijos migas desse signo) super corajosa, engraçada e inteligente, além de sempre tirar o Tuxedo Mask de várias encrencas.

-Kamala Khan, Miss Marvel, Stan Lee acertou muito a mão nesse quadrinho de 2014. Kamala tem muito respeito por sua religião e cultura, mas mesmo assim quer existir além dela. A protagonista adora quadrinho de super heróis, e acaba sendo transformada em uma com as doses certas de comédias e desastres. Ele me deu o mesmo conforto que tive ao ler O Palhaço e Sua Filha, com uma visão da cultura e religião islâmicas sem preconceitos, valorizando sua cultura e riqueza. Um salve para esses tempos de tanta islamofobia e machismo. Quer saber mais? A Lore escreveu um post só para a Kamala.

kamalapto

-Frankie Landau-Banks, E. Lockhart; uma feminista numa escola preparatória tradicional com direito a todo machismo que “tradicional” encerra; Frankie faz uma verdadeira revolução sobre forma de trotes e reivindicações, e acaba sendo punida, mas não sem antes dar um baile na direção do colégio e em seus próprios colegas cabeças-de-vento.

-Theo, de Na Ponta dos Pés, Brandy Colbert; falei sobre ela acima, a garota desafiada o tempo todo pelo próprio corpo e mente, cujo maior obstáculo é sobreviver a si mesma, sendo a única mestiça na escola super seleta de balé e sonhando ser aceita no teste-bolsa para uma academia ainda mais exclusiva. Theo aprende de que nada no mundo vale a perda do respeito e do amor a si mesma, A MELHOR COISA QUE UMA ADOLESCENTE PODE COMPREENDER SOBRE SI (em caps mesmo).

Compartilhe:

carmenbavius@gmail.com'

Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de “realidade”: estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.