“Fique onde está e então corra”, John Boyne


Texto: Rovena Naumann

Original: Stay where you are and then leave
Autor: John Boyne
Editora: Seguinte
Nota: 4 estrelas

Tudo começou no dia 28 de julho de 1914. Para Alfie Summerfield, esse dia fora inesquecível pois era o seu aniversário de cinco anos. Para os adultos, o motivo da lembrança era outro: foi nesse dia que começou a 1ª Guerra Mundial. Georgie Summerfield, seu pai, é um dos primeiros a se voluntariar e chega em casa usando um uniforme de soldado. Sua mãe, Maggie, estava em prantos, e com um bom motivo. Guerras são violentas, mas Alfie não sabia disso. No começo, seu pais mandava cartas e telegramas até que um dia tudo isso parou. Maggie dizia que ele estava participando de uma missão especial do governo, mas Alfie acreditava que seu pai estava morto. Um dia, enquanto trabalhava na estação King Cross, o garoto vê o nome de seu em um documento de um médico. A partir desse dia, Alfie tem um único objetivo: encontrar Georgie e descobrir o que aconteceu com ele.

Esse foi o primeiro livro que li de John Boyne (já vi o filme O menino do pijama listrado e esse foi o fim) e estava com expectativas bem altas. Fico feliz em falar que elas foram atendidas. A história de Fique onde está e então corra é delicada e o jeito que ela foi escrita é muito sensível. Temos a visão da guerra através dos olhos de uma criança de nove anos de idade, que viu o mundo ao seu redor mudar de uma hora para outra.

Alfie era apenas uma criança e deveria ter continuado desse jeito, mas a situação do país e da sua família exigiu dele algo a mais. O garoto teve que crescer e amadurecer durante o período da guerra, assumindo papéis que não deveriam ser de sua responsabilidade. É assim que Alfie começa a trabalhar como engraxate na famosa estação de Londres, e King’s Cross.

Alfie pegou a caixa de engraxe na casa de sua melhor amiga, Kalena Janácek, que foi embora na primavera de 1915. Ela morava com o pai, pois a mãe havia falecido em 1013. Eles estavam sendo acusados de serem espiões para o governo alemão. A família Janácek era da Hungria e eles eram judeus. Só com isso já podemos imaginar o que aconteceu aos dois, mas Alfie não tem ideia do que faziam com judeus naquela época. Ele acreditava que sua amiga e seu pai estavam seguros em algum canto do mundo.

E é dessa forma que vemos como a guerra afetou a vida de várias famílias. Elas eram levadas embora, ou eram destruídas quando um soldado chegava na porta de sua casa para dar a notícia de alguém, pai, filho ou marido, havia falecido. Aqueles que sobreviveram estavam em hospitais, sofrendo com a neurose da guerra. As mulheres que ficavam para trás tinham que trabalhar além do que seus corpos aguentavam pois era preciso ganhar dinheiro a mais para garantir que o aluguel e as contas fossem pagas, além de ter o necessário para colocar comida dentro de casa. Maggie trabalhava no hospital e ainda lavava e costurava roupas para fora.

Alfie vê de perto os horrores da guerra e não entende como as pessoas são capazes de tamanha brutalidade. E esse é o mesmo pensamento que nós temos hoje em dia quando lemos as manchetes nos jornais. Fique onde está e então corra é um livro, que mesmo se passando há 101 anos atrás, é bastante atual, pois é um tema que ainda está presente em nossas vidas, mesmo que indiretamente. Nunca vamos entender o sofrimento das pessoas que viveram em momentos assim e daquelas que ainda passam por isso hoje em dia.

Mesmo sendo um livro infantil, essa é uma história que todos os adultos deveriam ler, pois eles são os principais a serem lembrados que a violência nunca é a solução, seja lá qual for o problema.

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Sobre Rovena

Rovena é de Vitória, formada em Relações Internacionais e atualmente cursa Letras-Inglês. Gosta muito de ler e ouvir música enquanto escreve. Grifinória, feminista e especialista em tretas do blink-182. Está no twitter (@rovsn).