Fera – Brie Spangler


Texto: Maynnara Jorge

Fera é uma releitura do clássico “A Bela e a Fera”, mas o que difere essa versão é que a Bela neste caso é uma menina transgênero chamada Jamie. A história é narrada pela visão de Dylan, um garoto de 15 anos que se vê como um monstro por ser peludo e alto demais pra sua idade.

A percepção que Dylan tem de si mesmo faz com que ele queira sempre viver sem ser notado, mas isso fica cada vez mais difícil quando a sua escola resolve banir o uso de chapéus do uniforme. Frustrado com tudo isso, ele resolve subir no telhado da sua casa e acaba caindo, o que lhe rendeu não só vários ossos quebrados na perna como também um encaminhamento para frequentar uma terapia em grupo para jovens.

Com a suspeita de que a queda de Dylan não ter sido acidental e sim causada indiretamente pelo estado emocional do garoto, sua mãe o obriga a ir a pelo menos um encontro da terapia de grupo e é lá que ele conhece Jamie, uma garota carismática e louca por fotografia que logo o deixa intrigado e querendo a conhecer mais.

O problema aqui é que Dylan não estava prestando atenção no que a garota estava falando e é justamente nesse momento que ela conta as suas frustrações sobre a adaptação de ser trans. Foi aqui também que eu comecei a perder a paciência com esse menino. Durante todo o tempo em que ele se diz apaixonado por ela, ele na verdade só estava completamente centrado na vida dele e não se importa de verdade com ela.

Eu acho que eu teria curtido mais o livro se fosse narrado pela visão da Jamie, ela é uma menina que parece ser super cool e tá só querendo ter uma vida normal, enquanto todo mundo está preocupado com a sua identidade de gênero. Quer dizer, todo mundo menos o narrador dessa história que quando finalmente “descobre” que a Jamie é trans fica revoltado e é super babaca com ela.

Daí em diante ele fica numa crise porque a beijou e revoltado porque as pessoas podem descobrir, tudo isso juntando com o fato de que ele continua extremamente escroto com ela, ignorando as ligações dela e a evitando. Agora imagina a coitada da menina que achava que tava vivendo o primeiro amor/namoro dela ter o garoto que ela gosta mudar completamente com ela e ainda sendo extremamente egocêntrico e egoísta.

O livro tem outros pontos que não são muito bem desenvolvidos, mas igualmente irritantes, como o melhor amigo do Dylan, o JP que é menino péssimo e rico que acha que pode mandar em todo mundo e tem liberdade pra tratar meninas mal, mas que teoricamente tudo deveria ser relevado e justificado pelo fato de que a mãe dele é alcoólatra e não liga pra ele. Claro que o fato desse plot ser ignorado está relacionado mais uma vez pelo fato de que o livro é narrado pelo Dylan e ele simplesmente passa o livro inteiro ignorando a vida familiar do MELHOR AMIGO dele.

A ideia do livro parece incrível, mas acaba caindo no clichê da “manic pixie pixie girl”, onde a Jamie e a transição dela servem só pra fazer o Dylan perceber que ele tem que lidar com o luto pela morte do pai e sua auto-imagem.

O ponto positivo do livro no entanto é que ele lida bem com termos e questões de gênero não só falando bem durante a narrativa, mas também trazendo um glossário com os termos e também acompanha contatos importantes como números do CVV, Casa 1, que acolhe pessoas LGBTs em situação de risco, e também a linha de denúncia para violência contra crianças e adolescentes.

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Sobre Maynnara Jorge

Maynnara é paraibana, mas atualmente mora em São Paulo. Formada em Jornalismo e Produção de Moda. Ama ler, escrever e sente falta dos seus dois cachorros que ficaram na sua cidade. Ela também está no twitter como @maynnara_