Fantasmescola


A escola é bem pequena, localizada em uma rua sem saída de um bairro de tamanho médio em uma grande cidade. Ela não tem nada de muito especial, é mais uma pequenina naquele bairro médio naquela cidade grande onde estudam alunos que querem tentar passar de ano e ter seus problemas de alunos. Mas essa pequena escola de um bairro médio em uma cidade grande tem um ponto diferente: ela tem uma sala mal assombrada.

O rumor que havia na escola era que no primeiro ano em que fora fundada, uma menina havia se enforcado em uma das salas de aula. Ela ficou depois do horário, por algum motivo, e quando o zelador chegou na manhã seguinte para abrir a sala, lá estava ela. Pendurada pelo pescoço com uma expressão de terror na face, uma corda amarrada no ventilador antiquado e todas as cadeiras empurradas em um círculo ao redor dos seus pés. O ventilador estava ligado na mínima capacidade e ela girava, bem devagar, como se estivesse ensinando para uma turma de alunos invisíveis.

O zelador se demitiu e desde então nenhum outro ficou tempo o suficiente para que conseguisse se acostumar com a escola. Eles diziam que viam coisas. Que viam a garota ou o que a tinha matado. A suspeita não era sobre um fantasma da garota ou qualquer coisa do tipo, qualquer coisa que se possa imaginar dentro dessa situação. Havia um medo dentro da escola: de que alguma coisa habitava aquela sala, alguma coisa viva ali dentro continuava perseguindo as estudantes – todas as que desejavam ser professoras. Mulheres, meninas, sempre.

A direção proibiu que qualquer outro estudante usasse aquela sala fora do horário de aula e, dentro dele, somente professores homens poderiam dar aula lá. Não por um motivo de sexismo da direção, mas por sexismo da criatura, uma divisão machista de vítimas. A direção já tinha tentado chamar todo tipo de pessoa para tentar cuidar do problema. Desde pessoas de todas as religiões possíveis para tentar abençoar o lugar e afastar o mal olhado. Só que nada funcionava. Todo zelador ainda entrava lá e via um grande fantasma da menina pendurada, toda noite. Uma manifestação do espírito dela ali. Uma constante lembrança. Ela aparecia para os zeladores e no dia seguinte eles se demitiam.

Arte: Raquel Thomé

Arte: Raquel Thomé

Só que adolescentes sempre serão adolescentes, não é? Então, em uma noite, dois adolescentes se esconderam na escola. Eles entraram debaixo de uma das arquibancadas. Um menino e uma menina, os dois com 12 anos de idade. Para ela, eram melhores amigos. Para ele, eram namoradinhos. E ele queria impressionar a garota como uma maneira de fazer ela realmente gostar dele, então decidiu propor a ela que os dois desafiassem o fantasma. A garota adorou a história – ela adorava histórias de terror – e topou na hora. Eles avisaram os próprios pais que iriam para a casa de amigos passar a noite e estava tudo pronto para uma noite de aventura. Para o garoto, isso seria um pouquinho de adrenalina e quem sabe chegar na segunda base, mas ele não fazia a menor ideia.

Os dois se esconderam e, depois que a escola foi fechada, saíram e foram direto para a sala mal assombrada. O garoto estava bem assustado, mas a menina achava que era tudo uma grande piada. Ela sempre achara. E ela, por não acreditar nos rumores, também não acreditava no perigo. Até porque, mesmo que ela acreditasse, a garota nunca teve interesse em ser professora, então não era um alvo. Os dois encostaram os ouvidos na porta e ouviram vozes lá dentro. Murmúrios, como se fosse o som de uma sala de aula, como se uma turma de pessoas ali se encontrasse. O garoto tinha um olhar de quase terror quando a garota colocou a mão na fechadura.

Ela abriu a porta com muito cuidado e o som aumentou, ficando mais forte, mas ainda tão concentrado quanto antes. O primeiro a olhar lá dentro foi o garoto – e ele viu um copo de café flutuando na frente da porta, como se alguém estivesse segurando. Franziu o cenho, apontando para a garota olhar também. A resposta dela foi escancarar a porta (porque tropeçou, não de propósito).

O barulho acabou quando os dois caíram dentro da sala. Tanto o garoto quanto a garota ficaram paralisados enquanto as sete pessoas translúcidas lá dentro ficaram mais visíveis e lhes encarando. Eles tinham acabado de cair dentro da sala de professores da Fantasmescola, onde os alunos que desejavam muito ser professores iam no pós-morte – dar aula para pequeninos fantasmas. Os dois gritaram, os fantasmas gritaram, os alunos da Fantasmescola saíram correndo para ver o que tinha acontecido.

Os dois alunos nunca mais foram encontrados. A Fantasmescola continua bem.

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Sobre Priscilla Binato

Uma carioca de coração, 21 anos completos em janeiro e gateira como profissão (ou ao menos um sonho). Estudo jornalismo e estou quase me formando, mas tenho aspiração de escrever como profissão. Detesto sushi, pizza, Senhor dos Anéis, Game of Thrones e muita coisa que todo mundo acha legal, to nem aqui. Sou lufana de coração e de alma, 100%, além de feminista, assexual e chata do rolê.