Família não tão moderna


Texto: Dora Leroy e Lorena Pimentel

Atenção: contém spoilers da série

 

Lorena: Acho que precisamos começar dizendo que somos fãs de Modern Family. Eu, particularmente, acho que a razão pela qual a série funciona tão bem pra mim é que ela mostra os podres dentro das famílias, digamos assim.

Dora: Sim! Somos muitíssimo fãs. E, concordo com você, a gente se identifica e vê que família não é um negócio que precisa ser mil maravilhas toda hora. Em entretenimento, família costuma ser um treco meio 8 ou 80, acho que Modern Family consegue balancear bem, mostrar que existem momentos ruins e momentos bons e que não necessariamente um momento bom pra um é um momento bom pro outro.

Lorena: Até porque acho que tem que ter esse equilíbrio pra mostrar que mesmo famílias felizes têm seus relacionamentos complicados e que isso é ok, nenhuma família é perfeita e ninguém é perfeito. Vamos começar pelo núcleo Gloria/Jay. Como você se sente sobre esse pedaço da família Pritchett?

Dora: Acho que seria minha família favorita se tirasse o Jay haha. Adoro a relação Manny/Gloria, como os dois sempre se apoiam, e parece ser uma relação bem “horizontal”, se é que eu posso chamar assim. Quando o segundo filho nasceu, eu achei que ia dar bad, que o Manny ia mudar, ficar revoltado ou algo, e nada perto disso aconteceu, pra você entender o nível de confiança entre eles. Já o Jay…

Lorena: Sim. Gloria é ótima mãe e acho legal que ela incentive todas as paixões do Manny, mesmo que não sejam relacionadas aos papéis masculinos na sociedade. O Jay, por outro lado, é péssimo. No caso do Joe, até mais que do Manny. A Gloria vai lá e coloca o filho na creche construtivista hippie-rico e ele só fica reclamando que as coisas não são mais como antigamente. O que nos leva ao jeito com que ele trata os filhos anteriores também. Sempre me chocou aquele episódio em que ele não quer chamar os amigos pro casamento do Mitch porque “você tem direito de ser quem você quiser, mas eu tenho direito de ficar desconfortável”. Apenas não. Falando no Mitchell, sentimentos sobre Mitch/Cam?

Dora: Nossa, esse episódio foi terrível! Odiei tanto o Jay naquela hora… O último episódio que eu vi foi o do casamento, então só lembro de boas coisas sobre os dois. Acho que os problemas de relacionamento dos dois são bem fáceis de se identificar e a forma como eles resolvem também. A Lily eu nem preciso falar nada, né? Simplemente maravilhosa. (Só acho que eles poderiam explorar um pouquinho mais a “pessoa Lily” na série, acho ela incrível, mas também é uma das personagens mais rasas…)

Lorena: Eu acho interessante porque eles demonstram bem essa dicotomia de uma pessoa mais prática e uma pessoa mais sonhadora e de bem com a vida. Adoro ambos, mas especialmente o Cam, as cenas dele sempre me deixam feliz. E a Lily é ótima, precisavam dar mais tempo pra ela (apesar de que ela teve boas cenas nas últimas temporadas). O relacionamento desse núcleo é bem diferente da família Dunphy e é disso que eu queria falar agora. Primeiro, casamento Phil e Claire?

Dora: Eu tenho meio agonia da relação Phil e Claire, acho que nem sei dizer direito por quê. Me diz o que você acha antes para eu ver se entendo a minha aflição. hahaha

Lorena: Então, o que me estressa é que eles acabam sendo muito “família tradicional”, acho que soa até mais estranho do que no caso Gloria/Jay. Porque assim, o Phil é autônomo, mas ele nunca faz o papel de cuidar dos filhos. Aí a Claire, durante a maior parte da série, fica naquela de ser dona de casa, o que, claro, não tem nada de errado, mas a narrativa faz com que ele seja o pai engraçadão e ela a mãe louca e obsessiva por regras. Meio clichê demais?

Dora: SIM. E tem aquela coisa que a Claire sempre foi a bonitona e popular e o Phil um cara meio “loser” e parece que ele fica usando isso contra ela às vezes, como se isso diminuísse ela. Não sei. Tem algo estranho aí.

Lorena: É, acho que seria menos estranho esse relacionamento se, tipo, ele trabalhasse o dia todo e aí ela acabasse tendo que cuidar de tudo em casa. Mas o cara tá lá o tempo todo, só que o papel dele é só de ser o divertido e sem regras da casa. Também me incomoda um pouco o jeito com que ele trata a Haley. Acho que tem a ver com essa história da Claire ser a bonita e popular, mas parece que ele sempre tenta controlar a filha e evitar que ela seja mais extrovertida e festeira. O que me leva a Haley e Alex. Eu acho esse o relacionamento mais problemático da série. Elas são irmãs e têm relacionamento típico de irmãs, mas parece que sempre existe uma dicotomia.

Dora: Acho que concordamos que odiamos o Phil. Eu gostava muito da Alex no começo da série, não sei o que aconteceu com ela! O meu amor pela Haley cresceu cada vez mais e a Alex parece que chupou mais limão ainda.

Lorena: Acho que o x da questão é que a Alex tem aquele comportamento “não sou como as outras garotas”, sabe? Ela quer ser a alternativa. O que acho que soava ok quando ela era mais novinha, mas aí passa da fase 12/13 anos e isso para de ser engraçado e começa a ser bem babaca. Miga, tá na hora de desconstruir esse machismo internalizado aí, sabe? A Haley eu comecei a amar muito também, até porque ela não tenta mudar a própria personalidade. Ela tem os interesses que todo mundo acha fútil, mas não liga e investe neles mesmo assim.

Dora: Uhum! Acho muito fofo quando a Haley começou a fazer o blog e não contou pra ninguém. Porque ninguém ia aceitar ela mesmo. Mas ela se aceitava e acreditava no que ela fazia! E deu certo! Mas eu não acabei de ver a série ainda, tô esperando uma crise da Alex…

Lorena: É, ela chega a ter uma crise mais tarde, por conta de expectativas e faculdade (quem nunca?), mas nunca chega a desconstruir esse machismo internalizado de tratar a irmã como se ela fosse boba por ter interesses menos intelectuais. Acho que só falta discutirmos o Luke. Eu acho que entra na relação com o Phil. O Phil trata ele muito diferente de como trata as filhas.

Dora: É verdade. E é engraçado porque eu acho que o Luke não se vê como diferente das meninas. É mais uma imposição do pai do que algo que vem “naturalmente” pra ele. Acho que ele tem grande admiração pelas irmãs, aliás. Eu sempre gostei muito do Luke. Acho que é tipo um Phil que deu certo. Ele consegue ser o cara engraçado que é o Phil, mas sem ser macho escroto.

Lorena: É, ele é o cara fofo e engraçado que ainda é ok com mulheres, meio bobo e trata todo mundo bem. Mas infelizmente sofre essa pressão de ser tratado diferente pelo pai. O que me lembra a relação do Jay com a Claire. Porque ela era a preferida, mas também só se seguisse os padrões que ele estipulava pra ela.

Dora: Sim, sim, o Jay viu logo que não conseguia transformar o Mitchell e transferiu tudo aquilo pra Claire. E para uma mulher isso é bem confuso né, porque ela se vê obrigada a fazer papel de “macho”, mas ela é mulher e, bom, o resto do mundo sempre vai inferiorizar ela por ser mulher. E aí ela vai tentar chegar num patamar e não vai alcançar nunca e vive frustrada.

Lorena: Acho que o cerne da questão – e o que discutimos hoje – é justamente isso. Famílias, até por suas configurações e hierarquias, fazem com que se criem papéis que cada um deve cumprir. O pai que espera que os filhos sejam como ele, a mãe louca das regras, o pai engraçado. E esses papéis têm tudo a ver com gênero, com idade, com sexualidade e tal. Acho que eu gosto de Modern Family justamente por isso: por mostrar os efeitos que essas expectativas têm sobre cada um e sobre seus relacionamentos.

Dora: Total. E a gente vê Modern Family e enxerga também o tanto de pressão que nós mesmos carregamos. Eu gosto dessas séries que fazem a gente olhar pra nós mesmos. E tudo isso de um jeito leve e engraçado. Eu costumo ver mais séries de humor do que dramas, e acho que elas conversam com o meu “eu-interior” (hahahaha) de uma forma que eu escuto melhor. #Modernfamilyterapia

Lorena: Pois é. Acho que o que a série nos mostra é aquele velho ditado: acontece nas melhores famílias.

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