Falando (ou lendo) sobre saúde mental: livros que me ajudaram (e podem te ajudar também)


Texto: Isabel Moraes

Trigger Warning/Aviso de gatilho: esse texto discute a respeito de transtornos mentais como depressão e ansiedade e livros que abordam temas como suicídio e automutilação.

Transtornos mentais são tão sorrateiros e não podem, ao contrário da maior parte das doenças, ser detectados por exames laboratoriais ou de forma simples – no início, confundi minha “depressão ansiosa” com um cansaço extremo misturado a um resfriado. Obtive ajuda bem rápido: algumas semanas depois da minha primeira crise séria já estava no consultório do terapeuta; e os remédios levaram algumas tentativas mas finalmente parecem estar fazendo seu trabalho. Meus amigos e familiares foram extremamente compreensivos e prestativos, e mesmo tudo isso estar acontecendo ser algo absolutamente horrível (quem já esteve ou está lá sabe do que eu estou falando) sinto que estou passando por este momento da melhor forma possível.

Nem todos tem essa sorte que eu tive, porém: o acesso a profissionais do ramo é caro e escasso (embora existam algumas alternativas: caso você precise de ajuda e não tenha como bancar, dê uma olhadinha no fim desse post) e discussão sobre os mesmos não é exatamente um assunto de mesa de bar. Não dá para dizer que não existe representação de transtornos mentais na mídia: não raro novelas, filmes e séries têm personagens com estes problemas em seu repertório – consigo me lembrar vagamente de alguns programas nacionais que tratavam de bulimia ou esquizofrenia, e o vício em drogas – também considerado um transtorno – é recorrente.

O grande problema é que frequentemente esta representação é rasa ou exagerada; colocando aqueles com problemas em dois extremos: aqueles que não se curam por “falta de força de vontade” ou “frescura” ou em condições tão deploráveis que devem ser isolados da sociedade. Por mais bem trabalhado que o personagem seja, não há um mergulho nos seus sentimentos, nas condições que os levaram até ali e em seus esforços para melhorar. É difícil encontrar obras que discutam abertamente o outro lado – não o impacto de um sofrimento psicológico nas relações familiares ou amorosas, e sim naquele que luta (em maior ou menor nível) para fazer atividades cotidianas que antes pareciam automáticas, se não fáceis. É um resultado terrível: que passam por problemas (e se sentem incrivelmente sozinhos por não encontrar compreensão nas produções midiáticas que cercam nossas vidas) e aos seus amigos e familiares, que mesmo caso tentem não conseguem uma visão mais próxima e pessoal do que é lidar com isso.

Por isso que A redoma de vidro, de Sylvia Plath – um dos primeiros livros que reli quando descobri finalmente o que estava de “errado” comigo – foi tão a frente da sua época: publicado nos anos 60, o livro é um mergulho incrível na cabeça de Esther, uma jovem que passa por depressão. Eu e Esther temos uma coisa bem curiosa em comum: não há nada de aparentemente errado com nossas vidas. A depressão de Esther, na verdade, começa quando ela está no que deveria ser o seu melhor ponto – admitida em um programa muito rigoroso em Nova Iorque, ela escreve para uma revista durante as férias de verão, testando também, como parte de seu trabalho, várias roupas e maquiagens; indo para reuniões em restaurantes chiques e saindo em vários encontros amorosos. Nada disso impede, porém, que a depressão se imponha sob ela como – como o próprio nome do livro diz – uma redoma de vidro, sugando o seu ar e a sua energia. A cadência da escrita de Sylvia Plath é incrível, e vários trechos do livro ficaram gravados a fundo na minha cabeça.

Para a tal da Incrível-geração-que-[insira qualquer coisa depreciativa aqui], também chamada de millenials, o livro de Vizzini, É uma história meio que engraçada, ressoa de forma impressionante: seu personagem, Graig, é tão esmagado pelas expectativas de se sair bem no ensino médio que acaba, voluntariamente, se internando em um hospital psiquiátrico. É estranho que o autor consiga tratar o assunto de forma tão leve e sensível. Há uma adaptação disponível na Netflix (sob o título de Se enlouquecer, não se apaixone – não havia versão brasileira do livro à época) que não faz jus ao original mas também é uma boa pedida.

Perdão, Leonard Peacock – do mesmo autor de O lado bom da vida, Matthew Quick – é uma leitura mais pesada: sabemos desde o início que o protagonista, Leonard, pretende cometer suicídio. As descrições do caminho que o levam até lá, porém – e a ajuda inesperada de um professor atento – são fantásticas. Não é realmente o melhor livro se você está em um momento particularmente ruim, mas expõe de forma maravilhosa os pensamentos de Leonard e tudo que o levou a depressão e a decisão de acabar com sua vida.

Durante a discussão do tema na Pólen, me sugeriram (entre outros títulos) literalmente qualquer coisa da Jenny Lawson. Qualquer coisa por que a escritora (e blogueira do TheBlogess) escreve com um caráter super auto-biográfico, o que inclui seus problemas com anorexia na juventude e com ansiedade generalizada durante a vida toda. Por isso, peguei sua auto-biografia Vamos fazer de conta que isso nunca aconteceu, que terminei de ler em uma tarde as vésperas da entrega deste post – e sim, isso é uma indicação de o quão bom é. Jenny nos promete, na primeira página, que mais ou menos 90% do livro é fiel a realidade – o que é bem questionável dado ao absurdo de algumas situações: me peguei rindo alto das coisas mais deprimentes e surreais durante a leitura. Lidando com transtornos mentais a sua vida toda, Jenny utiliza o mantra “rir é o melhor remédio” ao tratar de seus episódios com TOC, anorexia e ansiedade, e não achei, de início, que fosse gostar muito – afinal, assuntos sérios são “assuntos sérios” – mas Vamos fazer de conta que isso nunca aconteceu me deixou tão confortável com os problemas de Jenny que ajudou um pouquinho na longa caminhada de ficar confortável com os meus próprios. E isso é importante pra caramba.

Agora, tirem meu cartão de crédito de mim, antes que eu compre tudo já escrito por ela. Estes livros têm sido ótimos companheiros para mim neste momento difícil, espero que sejam para alguém mais também.

IMPORTANTE EM CAPS LOCK E NEGRITO PORQUE É IMPORTANTE MESMO: se você, por acaso, estiver sentindo vontade de se machucar, o CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece aconselhamento com voluntários pelo site ou pelo número 141. Os CAPS de cada cidade oferecem aconselhamento psiquiátrico e psicológico pelo SUS, e o Você Não Está Louca fez uma lista bem legal de psicólogos e faculdades que fazem atendimento social (de graça ou por um valor simbólico) em diversas cidades. Outro recurso legal são os posts da Semana de Saúde Mental do Buzzfeed, que trazem coisas interessantes como dicas para cuidar da sua mente e para conviver com a depressão.

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Sobre Isabel Moraes

Baiana de nascença e coração, já passou uma temporada em Praga e hoje mora em Niterói, onde cursa Estudos de Mídia. Ama livros, séries, gatos, cerveja e se empolga um pouquinho demais quando falam de política. Quando escreve, tenta por aquela tal objetividade da qual falavam no colégio, mas não tem jeito: vira tudo egotrip.