Fala a minha língua!


Texto: Amanda Tracera // Arte: Gabriela Schirmer Mauricio

Ou: as adversidades do uso de uma linguagem extremamente academicista no contexto político-social atual.

A primeira coisa que a gente aprende dentro da faculdade – especialmente nos cursos que envolvem intensa leitura e produção textual – é que existe um idioma próprio naquele ambiente. Todos os nomes têm outros nomes, todas as cores são outras cores, todos os autores são estrelas pequenas no meio da galáxia, e o que a gente sabia até então, ainda que pareça muito, na verdade não significa quase nada. A academia é um universo à parte: é isso que eles precisam nos ensinar.

É assustador o contato inicial, e é completamente normal que a gente sinta que nunca aprendeu nada de fato. A grande problemática, entretanto, é o sentimento negativo que o “saber pouco” instala na nossa cabeça, a ideia de que somos “inferiores” aos nossos mestres justamente por conhecermos menos, termos um número inferior de referências ditas importantes etc. É como ser um estrangeiro num país em que se desconhece a língua: a gente não sabe como se inserir no ambiente e nas conversas e, portanto, em vez de participar dos debates, nos excluímos dele.

A sala de aula acadêmica deveria ser democrática. Toda sala de aula deveria, na verdade, mas especialmente aquelas montadas com o intuito de discutir e transformar um aluno em um profissional. É necessário criar um ambiente onde todo mundo se sinta à vontade para citar exemplos, contar histórias pessoais, abordar temas, recomendar leituras. Isso não acontece. Não só porque a academia – e seus filhotes doutorados – está há muito tempo elogiando um grupo seleto de pessoas e, portanto, se mostra quase incapaz de admitir a entrada de novos nomes e novas mentes, mas também porque existe um preconceito muito forte com tudo aquilo que é, como nós, recente, de massa, para o grande público.

Essa postura prejudica a comunicação porque nem todo mundo está em contato com as grandes pérolas da humanidade desde os seis anos, e fica difícil estabelecer um raciocínio crítico quando a nossa base teórica está flutuando pelo ar, presa a nada e a ninguém. Sempre defendi o uso da cultura de massa dentro das salas de aula, não por achar que a erudição e a excelência profissional sejam pouco importantes, ou que os nomes consagrados – de escritores, pensadores, filósofos, artistas de forma geral – não merecem esse título, ou que uma obra aplaudida há mil anos equivale a um best-seller, mas porque é essa oposição, esse contato, esse trazer para dentro algo que é comum e banal do lado de fora que faz com que o entendimento e o interesse surjam e fiquem firmes.

Sou estudante de literatura e, até a faculdade, eu nunca tinha lido nenhum grande autor brasileiro por vontade própria, não conhecia críticos literários e não sabia o que era uma análise séria. O primeiro autor que estudei lá dentro foi Jorge Luís Borges, e minha base teórica para entender o que ele estava falando simplesmente não existia. Explorar os textos e as propostas dele foi extremamente difícil e, não satisfeita em ter que lidar com aquela confusão, tive que lidar também com Marguerite Duras, Clarice Lispector, Henry James, Kafka e Edgar Allan Poe. No primeiro período. Em apenas uma matéria.

Minha professora tentava fazer com que houvesse debate e interesse, era super paciente. Foi ela que me ensinou a ler direito e entender o texto para além do que eu estou lendo. Mas eu não participava ativamente das aulas, simplesmente porque não sabia o que dizer. Não sabia como explicar o que eu tinha entendido, não sabia com o que comparar, não sabia ligar aquela leitura a um pensamento de alguém que, ali dentro, fosse considerado importante. É verdade que eu consegui montar um paralelo entre O amante e A culpa é das estrelas? É sim. Mas ele morreu comigo, porque eu sabia que citar um autor YA dentro da faculdade era praticamente uma heresia.

Quando falo que a comunicação acadêmica é falha, quero dizer que é preciso enxergar as nuances que formam o público, os altos e baixos da educação que nos levou até ali. Especialmente num país como o nosso. Especialmente em cursos que exigem escrita exaustiva e leitura crítica. Porque somos todos diferentes, com passados e conhecimentos diversos, e assumir que precisamos entender ou conhecer, mesmo num primeiro momento, o universo inteiro que vamos estudar ao longo de quatro ou cinco anos é surreal. Tem que existir um limite entre o que é essencial e o que é adquirido ao longo de leituras, dicas, construção do pensamento acadêmico. É preciso que se ensine o bê-a-bá, porque existe um sistema educacional inteiro que, embora devesse ter cumprido com esse papel, é fraco e é ineficiente. Não se pode ignorar isso.

É legal e é interessante quando todos estão numa mesma vibe e conseguem citar pensadores e nomes importantes sem que a conversa se torne exaustiva e sem que alguém se perca numa referência. Mas isso é impossível quando não há estímulo, e esse estímulo só pode acontecer verdadeiramente se existir uma comunicação limpa e livre de conceitos petrificados tantos anos atrás. Hoje, me sentir segura a ponto de comentar sobre Foucault quando um professor está falando sobre Cortázar é resultado de um interesse e um estudo que partiu de mim, e só continuou existindo porque eu, sozinha, considerei importante. Talvez fosse melhor, mais proveitoso até, se ele tivesse sido construído em sala, ao longo de uma série de perguntas que não são tidas como bobas ou produtos perdidos do capitalismo que nos cega e nos destrói. Talvez fosse um raciocínio mais completo, talvez mais gente também estivesse pensando a mesma coisa. Mas não é.

Cada dia mais, vejo o quanto é importante defender aquilo que, para nós, se estrutura como verdade e como algo relevante, ainda que a academia, com seus códigos e suas siglas e seus sotaques, discorde. Porque estar lá dentro e conhecer um pouco dessa linguagem é o que nos permite argumentar com competência e inserir em debates temas e situações e autores e enfim, coisas que normalmente não estariam inseridas, que talvez fossem criticadas. E é isso que aproxima a grande massa, os leigos, os novos estudantes e os curiosos do que é, de fato – e por falta de uma palavra mais apropriada –, melhor. É essa construção de diálogo entre Machado de Assis e Harry Potter que faz com que todo mundo queira ler Machado de Assis um dia, e que coloca em pauta os limites da academia sobre por que Harry Potter não é algo que se deva debater, ainda que só para a construção de um contexto mais abrangente. É necessário forçar essas barreiras, porque é assim que se monta um ambiente agradável e, mais importante, é assim que se monta um ambiente verdadeiramente acessível.

Compartilhe:

Sobre Amanda Tracera

Apaixonada pelo Rio de Janeiro, pela Disney, por sotaques e por material de papelaria. Antiga aspirante à jornalista, atual estudante de Letras, sem nenhuma ideia do que fazer no futuro e com um número assustador de listas, fandoms e informações inúteis nas costas.