Eu, você e o céu


Arte: Marília Pagotto // Texto: Rovena Naumman

Lembro quando acordei com as pontas dos dedos formigando. Não entendi o que estava acontecendo, mas não demorei muito para descobrir que aquilo era a minha magia se manifestando. Finalmente. Depois de tanto tempo. Depois de tanto torcer para que ela aparecesse, a magia decidiu me encontrar.

Era diferente. Era novo. Eu não sabia como usá-la. Como ser quem eu deveria ser? Como descobrir quais eram os meus caminhos?

Demorei muito para finalmente entender.

“Eu queria ter o céu mais perto de mim”, era o que uma amiga sempre me dizia.

Desde sempre ela fora apaixonada pelo universo. Toda vez que ela olhava para as estrelas, seus olhos brilhavam ainda mais do que aquilo que ela observava. Se eu pudesse descrever minha amiga, diria que ela era minha estrela. Meu sol. Minha lua. Ela era todas as coisas do universo em uma única pessoa. Aquilo que dizem, que todos temos o universo dentro de nós nunca foi tão real.

Ela tinha um universo. Eu tinha poderes. Nossa combinação era perfeita. E eu precisava fazer alguma coisa.

Por anos tentei descobrir os jeitos e maneiras de realizar o seu maior desejo. Visitei várias ideias, mas nenhuma me parecia boa o suficiente. Ela merecia sempre o melhor. E procurar pelo melhor me parecia bastante impossível às vezes. Mesmo com a minha magia, eu ainda tinha as minhas limitações e explorar o desconhecido era um pouco assustador. Não queria causar nenhum tipo de problema para o mundo.

Por um tempo, achei que seria legal se ela pudesse carregar o universo consigo. E se eu colocasse o céu dentro de um medalhão? Parecia ótimo, de verdade, mas não. E se o medalhão caísse e quebrasse? O céu poderia ir embora. Não, ela merecia mais.

Em uma tarde chuvosa de outono, eu finalmente descobri o que eu deveria fazer. Chamei minha amiga para passear comigo. Queria levá-la ao parque que fica perto das nossas casas. Aquele seria o lugar ideal para a minha magia. Essa era a minha oportunidade. Eu não podia errar. Tinha que dar certo.

Nos encontramos no parque. Eu estava perto da quadra de futebol e quando a vi caminhando em minha direção, acenei. Para ela, aquilo era um cumprimento. Para mim, era a realização de um sonho.

Assim que seu pé tocou a grama o verde sumiu, dando lugar ao azul do céu. Ela olhou para baixo e depois para mim, curiosa e assustada, tentando entender o que estava acontecendo. Sorri e dei de ombros. Ela colocou outro pé na grama e viu o céu aparecer mais uma vez. O azul e as nuvens. O céu estava no chão e ela podia andar nele.

Minha amiga jogou os braços para cima e fechou os olhos, um sorriso se formando no seu rosto. Quando olhou para mim novamente, fez uma careta e começou a correr pelo gramado, as cores mudando com cada novo movimento que ela fazia.

A partir daquele dia, ela sempre andou no céu. Eles nunca mais se separaram.

 

Esse post é parte da proposta da edição 31, ou seja, foi escrito depois da arte ter sido feita e com inspiração nela. 

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Sobre Rovena

Rovena é de Vitória, formada em Relações Internacionais e atualmente cursa Letras-Inglês. Gosta muito de ler e ouvir música enquanto escreve. Grifinória, feminista e especialista em tretas do blink-182. Está no twitter (@rovsn).