‘Eu sou o mensageiro’, Markus Zusak


eu sou o mensageiro_capa“Ed Keneddy. Dezenove anos. Um perdedor” diz a orelha do livro, e é uma ótima descrição do protagonista que encontramos no começo de Eu sou o mensageiro. Ed é inteligente e lê exaustivamente, mas parou de estudar depois do colégio. Ed vive sozinho com um cachorro com quem compartilha todas as suas refeições, com quem conversa e cujas respostas para suas perguntas e comentários ele chega a imaginar. Ed é perdidamente apaixonado pela melhor amiga, Audrey, que já declarou não querer se envolver com ele. Ed trabalha, às vezes joga cartas com os amigos, quase não vê a família, volta para casa para ficar com o cachorro.

Até que, numa visita ao banco que acaba num assalto, ele impede que o assaltante consiga escapar da polícia. Ed ganha alguma notoriedade, já que aparece nos jornais da cidade onde vive. É aí que ele começa a receber as mensagens – nada conclusivas, são apenas endereços ou nomes de pessoas, e é Ed quem precisa descobrir o que deve fazer, através de suas próprias observações. Mas ele não sabe de onde vêm as mensagens, ou quando elas vão parar de chegar, ou o motivo exato por que elas estão chegando.

Confesso que esse livro, no começo, não me convenceu completamente. Eu sou uma grande admiradora do trabalho do Zusak, mas por causa de apenas um livro, que também é o maior sucesso dele. E não tinha certeza de que esse livro, publicado antes de a A menina que roubava livros, corresponderia às minhas altas expectativas. Começa pela narrativa. Ed é o narrador, e ele usa muitas, muitas gírias. Linguagem bem, bem informal. Frases curtas. Parágrafos curtos. Confesso que isso me incomodava um pouco, ainda que eu acredite que o estilo de narrar de Ed seja justificado pelo personagem que Zusak o faz ser.

Mas o livro cresce, e muito. Ed cresce, mas sem perder a essência. E é absolutamente fantástico, e bonito, e tudo meio poético, como eu esperava que fosse (por causa do autor). É bonito mesmo quando Ed está xingando no meio das frases, porque é assim que ele fala.

Ed dá alguma coisa a cada uma das pessoas que são indicadas em suas mensagens mesmo que ele próprio tenha muito pouco porque nenhuma dessas coisas era comprável. Ed, o perdedor, entende muito de pessoas, é extremamente empático, nunca demora muito para entender do que é que elas precisam. Mesmo que ele não saiba muito bem do que ele mesmo precisa. É em sua jornada focada em olhar para e prestar atenção nos outros que Ed entra numa jornada, sem perceber muito bem, focada em prestar atenção em si mesmo.

Como Em a menina que roubava livros, existe uma aura meio fantástica em volta da história. Ela é bem mais realista, digamos assim, com um narrador mais convencional. Mas a resolução do mistério foge desse ar mais convencional. O final é incrível, e faz uma espécie de jogo com o leitor, que talvez tenha se identificado com alguns momentos da história de Ed, ou de um de seus diversos personagens secundários.

Zusak não tenta dizer ao leitor o que ele deve fazer da vida, nem que o jeito como Ed conduz a dele está errado, mas acredito que o texto leva o leitor a se questionar, assim como Ed se questiona.

Geralmente passamos a vida acreditando em nós mesmos. “Eu tô bem”, dizemos. “Tá tudo bem”. Mas às vezes a verdade pega no pé e não tem santo que a faça desgrudar. É aí que percebemos que às vezes ela nem chega a ser uma resposta, mas sim uma pergunta. Mesmo agora, estou aqui pensando até que ponto minha vida é convincente.

E é bem bacana, porque não tem lição de moral, mas consegue servir de base para nossas próprias reflexões. O quanto nossas rotinas diárias, que não são necessariamente erradas ou infelizes ou insatisfatórias, são convincentes? Será que a gente não pode fazer mais, buscar mais? Sair atrás de um modo de mudar as partes não nos agradam, mesmo que seja um pouquinho assustador?

Eu sou o mensageiro não é um guia de vida nem nada assim, mas é muito inspirador. E bonito, sem ser piegas. Seus momentos mais emocionantes são merecidos porque o autor os constrói devagar e de modo convincente.

Tiveram algumas coisinhas que me incomodaram ao longo da narrativa, mas não acho que elas sejam relevantes diante de uma história tão inesperada e bonita e de um narrador e protagonista tão honesto e empático, pelo qual fica muito difícil não torcer. Aos pouquinhos, conforme a história (e Ed) progredia, o livro conseguiu me convencer de que merecia as cinco estrelinhas vermelhas do Goodreads e até mesmo ser categorizado na estante dos favoritos.

Compartilhe:

fernanda.menegotto@gmail.com'

Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura – ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.