Eu sou: a lenda


Disclaimer: amigas e amigos das ciências humanas, se essas discussões parecerem com artigos e livros que vocês já leram, a semelhança não é acidente.
No dia 25 de agosto de 2015, meu sobrinho nasceu. Fiquei olhando pra ele através do vidro, ele chorava, pensei “esse mundo é difícil mesmo” e foram surgindo as questões metafísicas. Como eu posso saber que ele é uma pessoa se duas horas atrás ele ainda estava dentro da mãe? Dentro, habitando aquele interior junto com os órgãos da Janaina. Às 10h da manhã Janaina e Éric eram a mesma pessoa, às 14h não. Complexo isso.

E aí eu tive uma pequena crise ontológica: como a gente pode se entender como indivíduos fechados em nós mesmos se somos feitos de outras pessoas? Não só no sentido de que somos feitos pelos nossos pais, mesmo depois de nascer a gente continua sendo construído nas relações. Tem uma brincadeira que diz: pensa nas cinco pessoas mais próximas de você nesse mundo, você é feito delas, se tem alguma que não te agrada… já viu né. O individualismo é um mito de origem. A gente acredita que cada pessoa é singular e diferente de todas as outras. Nosso sistema de ensino, de saúde, as operadoras de celular, imobiliárias, a própria democracia e até o amor são baseados na ideia de que somos apenas uma pessoa – uma pessoa que tem capacidade de mudança – uma única pessoa durante toda a nossa vida.

Mitos são essas narrativas que explicam a origem das coisas, seja do mundo seja das pessoas, através de símbolos e metáforas. Então, a gente explica essa vastidão de pessoas no mundo assim: todos são diferentes e únicos, seres inteiros em si mesmos, indivisíveis, apesar de todas as experiências compartilhadas, cada um no seu quadrado. Mas será? Como podemos ser a mesma pessoa de ontem e a mesma pessoa de amanhã sendo que tudo muda o tempo todo? Talvez devesse ter prestado mais atenção naquelas aulas de filosofia em que a gente discutia se o rio era sempre o mesmo ou nunca o mesmo.

Acho que isso tem a ver com nossa língua centrada na primeira pessoa do singular. Euzinha que escrevo isso aqui – apesar de ter pagado meus tributos no disclaimer lá em cima. As frases tem sujeitos e predicados, tem pessoas e coisas sendo feitas por essas pessoas. Nós temos nomes que dizem quem a gente é. E números, vários números; CPF, RG, título de eleitor, DRE, matrícula. Tudo pra gente realmente pensar que somos uma pessoa só.

Como todo mundo pensa que é uma pessoa só diferente de todas as outras pessoas a gente acaba sendo uma pessoa só diferente de todas as outras pessoas. O pulo do gato das lendas, mitos e profecias. Não é efeito placebo e não é fé (pelo menos não exclusivamente), elas se tornam reais porque foram ditas. As palavras tem poder, não é à toa que feitiços tem que ser ditos em voz alta. O mundo é feito de palavras – exatamente como nos livros.

Talvez os livros sejam a maior alegoria do nosso mito individualista. Com as e os protagonistas vivendo suas histórias. As palavras criando realidades dentro das nossas cabeças. Como toda boa alegoria criam também uma ambiguidade, já que são a melhor forma de fugir do nosso individualismo. Um mecanismo que permite a gente se transformar em outras pessoas por um tempo, viver num outro mundo, numa outra realidade. Deixar de sermos nós mesmos, nos dividirmos em vários.

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