Eu odeio amar comer


Arte: Gabriela Amorim

Comida pode ser um vício. Isso não deve ser novidade para você, é claro. A taxa de obesidade no nosso país e no mundo em geral vêm aumentado consideravelmente nos últimos anos, e a questão vêm sendo tratada na mídia com cada vez mais frequência. Mas se você fuma, você pode parar de fumar. Se você bebe, entre no Alcoólatras Anônimos e eles lhe dizem: você não deve beber nunca mais. O vício é uma tendência que pode te acompanhar para sempre, e mesmo um único gole de álcool pode te fazer retomar a dependência e os hábitos destrutivos que lhe acompanham. Um usuário de drogas pode se reabilitar fazendo uma desintoxicação e sofre com a abstinência. Mas você não pode simplesmente parar de comer para curar uma dependência na comida.

O que, quero deixar claro, não quer dizer que recorrer a comida seja mais difícil ou pior do que qualquer outro tipo de dependência. Cada caso tem suas próprias particularidades e todo o tipo de vício é problemático. Mas isso cria uma situação bem delicada para quem tem algum tipo de compulsão alimentar: se todo o vício necessita que você busque ajuda para entender a origem psicológica dele, só na comida você não tem como se desligar do produto que causa dependência para realizar esse processo. Você não pode romper sua relação com a comida, então só te resta ter muitas DR’s e tentar chegar a um acordo.

Eu tenho problema com peso desde exatamente sempre. Eu nasci grande – quatro quilos – e eu cresci grande, sempre sendo o maior das minhas turmas e estando um pouco mais para o lado dos “cheinhos”. Conforme o tempo foi passando, o problema foi se agravando até o ponto em que hoje, com vinte e seis anos, eu estou com cento e sessenta quilos. E não me resta muito além de esperar que a próxima tentativa de colocar essa situação sob controle surta efeito, além de pensar em como eu cheguei aqui. Não buscando uma resposta definitiva, porque eu não acredito que ela exista, mas para ajudar no meu próprio processo de redenção.

Eu tenho um problema sério de autoestima. A origem especifica desse problema não é pertinente agora, mas é importante explicar isso, porque se sentir mal comigo mesmo é algo que me define desde a minha infância e afetou todos os aspectos da minha vida desde então. Eu sempre acreditei ser o estorvo na vida dos outros, o mais fraco, mais burro, mais defasado, mais feio e, é claro, o mais gordo, dada a minha tendência a ganhar peso com facilidade. De fato, anos depois eu fui descobrir que meu gosto pela leitura teve ignição em um impulso de tentar encontrar valor em mim no título de “quem mais gosta de ler”, afinal, se eu fosse o cara que sabia tudo dos livros, as pessoas gostariam de mim, não é?

Não é?!

Minha mãe também era obesa. Era, porque há oito anos ela fez uma operação bariátrica e eliminou os excessos. Mas por toda a minha infância, ela também tinha problemas com seu corpo e, ao ver o filho repetir seus passos, projetava as próprias ansiedades em mim. Brigando comigo para que eu parasse de comer, criticando meu corpo, me proibindo de comer a sobremesa enquanto meus primos desfrutavam dela. Eu entendo que suas decisões vieram de um lugar de amor, mas some todas essas situações a uma realidade em que magro e esbelto é tido como desejado e acima do peso e sem definição é considerado desagradável e você tem uma criança acreditando estar sendo punida o tempo todo por causa do peso.

E o que você faz quando você não gosta da realidade? Bem, você faz duas coisas: recorre a algo que não te julga, te traz conforto e te acalma – a comida – e começa a imaginar um mundo ideal em que você não é gordo. Você projeta sua felicidade nessa ideia de “quando eu for magro”, se prometendo comprar aquela roupa e ir na festa na piscina sem medo e dar em cima daquela pessoa e viajar para aquele lugar. Você transforma a gordura na barreira entre você e toda a sua felicidade, ao mesmo tempo em que sua infelicidade te faz reforçá-la cada vez mais. E gradualmente você começa a fugir do problema, porque aquele não é você – você é aquela pessoa que desenhou na cabeça, que não tem problemas e é magro.

Você olha no espelho e literalmente não consegue se enxergar.

O auge do meu problema aconteceu em 2013, pouco depois de o meu pai ter falecido. Eu estava em um caminho relativamente satisfatório com relação à minha saúde, melhorando minha alimentação e tendo uma perda sólida de peso, mas tudo descarrilhou com a desestabilização total e completa da minha vida. Não é algo para se culpar: estranho seria se meu pai tivesse morrido e nada tivesse acontecido. Mas junto com sua morte, veio também um problema de saúde: uma hérnia de disco que me deixou de cama por seis meses. E pela primeira vez eu senti uma consequência permanente do meu peso, e foi assustador. Eu vi – e fui lembrado por absolutamente todos a minha volta – de que eu tinha de mudar.

Então começou uma luta direta contra o peso. Não era mais algo que um dia eu faria, mas algo que eu precisava cumprir JÁ. Só que não é tão simples, porque a própria doença é um pico de ansiedade. Toda vez que a balança me decepciona eu penso que posso acabar novamente de cama com aquela dor infernal nas costas, que da próxima vez pode ser permanente, que talvez eu precise operar, que eu posso morrer na mesa de operação, e o desespero que esses pensamentos trazem pede comida para controlá-lo. Além disso, apesar de ter me recuperado sem a necessidade de uma operação, eu já não aguento ficar em pé direito por muito tempo, tampouco sair com muita frequência, e eu sinto dor ocasional, especialmente nos meses de inverno. É como se eu fosse um refém do meu próprio peso agora.

Esse ano eu finalmente decidi optar por uma cirurgia bariátrica, com a intenção de usar a perda radical de peso como forma de controlar a ansiedade. Eu sei que perder peso não vai curar ela, mas se o foco do problema não for um ciclo vicioso de peso e ansiedade, eu posso trabalhar isso de um outro ângulo e aprender a lidar melhor com tudo isso. Mas em vez de ajudar, o sistema de saúde burocrático tem dificultado minha vida, exigindo uma documentação difícil de adquirir para liberar a operação, e a perspectiva de não adquiri-la, vejam só, me deixa mais ansioso.

Eu amo comer. Eu odeio comer. Eu odeio amar comer. Eu me sinto prisioneiro da minha fome e tenho medo de mim mesmo. O prazer que eu encontrei quando era criança hoje é um vicio se forçando em mim, cada dose trazendo junto com o pequeno alivio do sabor uma tonelada de culpa, medo, ansiedade, dor e desconforto. Uma vez eu li que um vício é quando todos os seus pensamentos se direcionam àquela coisa especifica, e é isso que eu sinto às vezes: que a comida roubou minha vida.

Eu não sabia como falar da relação bizarra que a comida traz para aqueles que são dependentes dela se não contando minha própria história. Cada caso é único, mas os ciclos de contradição, dependência e ansiedade se repetem muito. Então da próxima vez que você encontrar aquele seu amigo acima do peso, não olhe de forma condescendente para ele, ali pode estar sendo travada uma luta tão intensa quanto a de um viciado em drogas.

Seja gentil, não piore o problema. Faça da sua companhia um prazer que não fará mal à pessoa.

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