Estrelinha


Texto: Marina Cavalcante

Adormeci tentando escrever um texto para a Revista Pólen com a temática “Infância”, e acordei com duas mensagens diferentes. Uma amiga de infância noticiava que o avô havia falecido, e um amigo já da vida adulta, que atualmente passa por momentos bem difíceis, dizia que estava chorando com o filme Divertida Mente (2015), produzido pela Pixar.

Em Divertida Mente, existem personagens responsáveis pelas emoções de alegria, tristeza, nojo, raiva e por aí vai. Cada uma das emoções é uma pessoinha. A protagonista é uma menina, e desde o seu nascimento a gente fica sabendo como funciona o cérebro dela, e como os sentimentos e emoções são ativados. Numa das confusões que tem no filme, a Tristeza acaba tocando na maioria das lembranças boas da menina, e essas lembranças se tornam lembranças tristes.

Divertida Mente entra para a lista enorme de filmes em que eu chorei. A obra ilustra pra gente, de uma forma linda e lúdica, como essa coisa de emoções e lembranças funciona e de como a gente é suscetível a pegar a mesma lembrança boa e transformá-la em tristeza, melancolia, depressão.

Nos últimos tempos tenho me perguntado e perguntado a alguns amigos sobre o “sentir”. Pessoas diferentes sentem coisas diferentes e se manifestam de forma diferente diante daquilo que estão sentindo. Como medir, por exemplo, a dor de uma pessoa? A dor e a felicidade? Tem como fazer isso?

Do conforto em que me encontro hoje – emocional, social, econômico -, às vezes acho exagero a dor de determinadas pessoas. Só que hoje, diferentemente de quando eu era pequena, eu fico mais calada e tento (me) observar. Quando eu era pequena, a depender do nível do drama, eu falava pros meus amigos “deixa de frescura!”. Hoje eu não posso mais fazer isso. Ou não devo. Porque já sou gente grande o suficiente para procurar entender que a dor e os outros sentimentos são relativos. Porque já tive e tenho minhas próprias dores, e tenho que reconhecer a importância de todas elas, ao mesmo tempo em que tento sobreviver a elas e não me deixar afogar nelas.

Meus amigos falam muito do quanto minha família é uma ótima família. Quando eu era criança não sabia reconhecer isso; hoje eu tenho certeza disso. Acho que naquela época eu tinha que lidar com várias coisinhas que não sabia como lidar, e só com o tempo aprendi a dar o devido valor à minha família. Se eu olhar para trás vou me lembrar das dores e alegrias que eu tive que encarar, mas não lembro muito de falar sobre elas. Meus amigos podem imaginar que “sofro menos” ou que tenho “menos dores” por minha família ser legal. Mas até em famílias legais a gente pode ter lembranças ruins.

Minha mãe ensinou pra mim e agora ensina pra minha irmã mais nova, Milah, que as pessoas não morrem, e sim viram estrelinha. Não só as pessoas, mas os cachorros, os passarinhos, os peixes e todos aqueles que amamos. É uma forma mais suave de lidar com a morte. Afinal, ninguém que está vivo sabe ao certo o destino dos vivos após a morte. Vai que viram estrelinha mesmo!

Se eu lembrar de uma forma triste em relação às mortes que já vivi, vou lembrar de todos os cachorros que já perdi e que vi morrer. Após todas as mortes de cachorros, eu sempre dizia “nunca mais quero outro cachorro, porque perdê-los dói demais”. E sempre aparecia mais um. E quando aparecia mais um, eu esquecia que um dia ele ia morrer. Porque quando aparecia mais um, era uma novidade, um renascimento. Todos eles viraram estrelinha.

Impossível não pensar na morte sem lembrar da morte do meu avô. Vovô tinha um marca-passo no coração, e toda vez que ele me pegava no colo, eu ouvia o tic tic tic do marca-passo. Depois fiquei grande demais pra vovô me carregar, mas consigo ouvir o barulhinho do marca-passo até hoje.

Vovô faleceu quando eu já era mais velha, não mais criança nem adolescente.  Duas semanas antes de eu ir pro meu intercâmbio, vovô faleceu. Durante toda essa época fora do Brasil eu sonhava com ele quase que semanalmente. Eram todos sonhos bons, uma mistura de lembranças de vovô quando ainda podia andar e dirigir, de quando ele era meio meu pai. Esses sonhos se tornaram lembranças hoje, lembranças boas.

Mas foram lembranças da infância que me fizeram ficar triste pela morte de vovô. Em várias das minhas fotos de quando eu era pequena, vovô está lá. Lembro que teve um dia, durante meu intercâmbio, que eu estava dentro de um bondinho vendo a rua, e vi um pai brincando e passeando com sua filha. Nessa hora eu fiquei muito triste, porque lembrei que não tenho essas lembranças boas com o meu pai, mas a menininha que eu estava vendo na rua ia ter. Pai e filha pareciam muito felizes. Depois de alguns minutos de profunda tristeza, a lembrança triste se tornou boa, porque percebi que essas memórias de infância me remetem ao meu avô. E ninguém pode negar que ele não tenha sido meu pai durante uma parte da minha vida.

Para minha irmã mais nova, vovô também virou estrelinha. Se a gente se apegar às lembranças boas, tudo vira estrelinha, tudo brilha, tudo é mágico. Vovô pode não ter sido um marido ótimo para a minha avó ou um pai exemplar para minha mãe e meus tios. Mas vovô foi um ótimo avô para mim e para meus primos. E um pai quando ele viu que, mesmo tendo um, eu ia acabar não tendo.

Vovô brilhou muito aqui, e agora como estrelinha. Meus cachorros todos também. Se a gente pegasse nossas tristezas e as transformasse em estrelinhas, viver o presente ficaria mais fácil. Quando meus amigos elogiam minha família, mais especificamente minha mãe, eles estão certos. Se uma pessoa transforma a morte em estrelinhas, e a tristeza em alegria (ou pelo menos aprendizado), é, de fato, uma pessoa que tem luz própria.

As coisas que a gente aprende de bom ou de ruim na infância podem servir de bússola para o que se desencadeia no restante da vida, quando a gente vira gente grande. Não tenho como transformar todas as dores dos meus amigos e amigas em estrelinhas, mas não sabendo do destino da vida após a morte, ou se as nossas dores têm fim, a gente pode brincar de criar um monte de estrelinhas para as coisas inexplicáveis. É melhor inventar toda uma constelação de memórias e alegrias do que não acreditar que os vovôs, os cachorros e as lembranças tristes podem virar estrelinha.

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Sobre Marina Cavalcante

Marina é uma escritora de 25 anos formada em Jornalismo pela UFPB e nascida e criada em Recife, Pernambuco. Seu endereço atual é a cidade de João Pessoa, capital paraibana. Já morou em Campinas (SP) e em Melbourne, na Austrália. Planeja viver em um novo lugar no mundo que faça sentido e que não morra de frio. Brasil e Nordeste, além de origem, são identidades. Escrever é verbo presente. Quando não está escrevendo, está vivendo para escrever. Para mais de Marina, visita o blog dela: marinabrazil.com.br.