Estrelas Além do Tempo


por Milena Martins e Lorena Pimentel

O convite para a pré-estreia de Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, 2017) veio na hora certa: a expectativa para ver a história de três mulheres negras que trabalhavam na NASA na época da corrida espacial era grande. A vontade de reescrever a história e redistribuir os espaços é comum quando passamos a tomar conhecimento dos tipos de opressão, e o cinema acaba aparecendo como uma ferramenta para contar histórias negligenciadas ou fingir que nada de errado jamais aconteceu.

Mas somos mulheres brancas, e de boas intenções a história está cheia, assim como cheia de racismo. Estrelas Além do Tempo é, sim, uma celebração das realizações de cientistas negras, mas é antes disso um retrato doloroso de quantos espaços foram negados a elas durante os anos. Mesmo aquilo que elas alcançaram foi sempre “apesar”. Apesar dos obstáculos, apesar da dificuldade do acesso à educação formal em meio à segregação racial dos estados americanos na década de 1960 e 1970.

Em Um teto todo seu, Virginia Woolf apela a uma imagem mental de algo que nunca de fato existiu: uma irmã de Shakespeare. Será que ela, criada em um mesmo ambiente que o bardo, dentro de uma mesma estrutura familiar e social, conseguiria produzir uma obra que seria tão fundamental para a cultura ocidental? Possivelmente não, porque o fato de ser mulher e, dessa forma, ser submetida a regras sociais mais rígidas, impediriam o pleno desenvolvimento de sua escrita. Ela teria obrigações que Shakespeare não tinha. Ela não poderia ler o que Shakespeare leu. O que dizer então de uma irmã de Shakespeare que fosse negra?

O filme é um convite ao recorte de raça. Dizer que a experiência social das mulheres negras é muito diferente não é dizer que elas simplesmente acumulam opressões, mas sim que a opressão que elas sofrem é estruturalmente diversa e muito mais dura. Enquanto mulheres brancas pedem liberdade e soberania sobre a própria sexualidade, mulheres negras ainda lutam para não serem hipersexualizadas. E por aí vai.

Estrelas Além do Tempo é um momento importante do cinema, uma tentativa de arrancar os espaços que durante tanto tempo foram negados às mulheres negras – e ainda são. É também um filme que mostra o quanto o privilégio branco é gritante para quem não usufrui dele e tão silencioso para quem o vive. A negligência do privilégio é em si uma confirmação dele. Só pode fingir não vê-lo quem por ele não é massacrado e negado.

Dito isso, a celebração também é inegável. Nossas três mulheres em destaque aqui têm jornadas diferentes dentro da NASA, mas todas elas são incrivelmente determinadas. Katherine (Taraji P. Henson), a protagonista, é promovida e começa a trabalhar no núcleo mais importante da missão Friendship 7, que levou John Glenn à órbita terrestre. O problema é que ela sai de uma área (de cálculos) feita só de mulheres negras para um escritório com dezenas de homens brancos e uma única mulher (também branca). Isso porque, além das questões raciais que perpetuam até hoje que impedem pessoas negras de ascender na carreira, nos anos 1960 a Virginia ainda tinha segregação racial legalizada. Então Katherine se divide em dois mundos: ela vive com sua família em um subúrbio negro, mas trabalha ao lado de racistas todos os dias. E, mesmo demonstrando seu talento e importância na equipe, ainda tem que lidar com os preconceitos.

Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) era a supervisora não oficial da equipe de calculadoras (as pessoas, não os eletrônicos) e sua jornada ali é de aprender mais sobre as mudanças tecnológicas. Ao mesmo tempo em que ela tem que lidar com o racismo quase cordial de uma colega branca (Kirsten Dunst), ela aprende programação e ensina às mulheres de sua área como trabalhar com máquinas para que elas não fossem substituídas por computadores.

Mary Jackson (Janelle Monáe), por outro lado, queria ser engenheira. Por ter sido designada à área de construção de uma cápsula espacial e ver de perto o trabalho que aqueles homens faziam, ela começa a buscar meios de se equiparar a eles profissionalmente. Mas não só ela tem que enfrentar as dificuldades por ser mulher em uma área masculina, como a segregação racial: Mary tem que pedir a um juiz permissão de atender uma escola de brancos para que possa assistir às aulas necessárias para sua formação em engenharia.

É aqui que entra uma das partes mais legais do filme: ao comentar com seu chefe que não há chances dela se tornar engenheira, Mary descobre que ele é judeu e teve que lidar com preconceitos ao subir na carreira. Estrelas Além do Tempo é também sobre interseccionalidade e como movimentos sociais se encaixam, como a história se repete e como é difícil quebrar barreiras impostas por preconceito naturalizado na sociedade.

Entre cenas dos movimentos por direitos civis nos EUA e cenas sobre o avanço espacial e a Guerra Fria, nós entendemos um pouco mais sobre a dinâmica da sociedade na qual aquelas mulheres estavam inseridas. Katherine, Dorothy e Mary são complexas. Elas são mães, são membros de uma vizinhança, são peças nas buscas de direitos sociais, são profissionais e todas essas coisas se misturam. É marcante ver que elas são personagens múltiplas e dinâmicas e não estão ali para pedir desculpas aos que se ofendem com sua presença. Como a própria Katherine diria, em um momento que fez todo a sala de cinema vibrar: “a NASA deixa as mulheres fazerem cálculos. Eles não nos contratam porque usamos saias, mas porque usamos óculos”.

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