Estrela Cadente


Texto: Priscilla Binato // Arte: Gabriela Amorim

Elisa olhava para o céu e esperava que fosse conseguir sentir alguma coisa vendo aquelas estrelas. Ela estava há tanto tempo presa em um estado de vazio que somente olhar para as estrelas já era de grande ajuda para controlar esse ímpeto de sumir. Desaparecer em milhares de partículas, átomos que iriam desaparecer pelo espaço. Elisa, acima de tudo, queria poder viajar em ondas, em redes, em raios. Ela queria poder desaparecer desse mundo e surgir em outro. Queria poder abandonar esse corpo e fugir em outro ou em nenhum.

Mas enquanto Elisa não podia fazer nenhuma dessas coisas, só lhe restava olhar as estrelas.

Ela estava sentada no antigo balanço da sua antiga casa, um templo de memórias que ela não queria ter. Era uma casa normal: paredes, teto, portas, janelas. Tudo parecia comum. Todo o ambiente construído com a intenção de ser um espaço de moradia. A intenção de abrigar uma família, um grupo familiar, um módulo, um complexo. A intenção de abrigar pessoas felizes estava implícita em todos aqueles tons pastéis nas paredes, nos telhados vermelhos, na cerca branca. Uma casa de margarina para uma família de margarina.

Eram Elisa, sua mãe, seu irmão, seu cachorro e o pai. Todos pertenciam àquele ambiente fechado, àquele espaço conciso onde ninguém poderia se expandir mais do que aquelas paredes fechadas. Seu irmão tinha a sua fôrma dentro da forma de casa, o seu formato de boneco de cera de macho viril em formação. Sempre moldado àquela forma que ele não podia transpor. Tinham tentado colocar Elisa na mesma fôrma, mas no tamanho feminino, delicado, fechado, um tamanho que só cabia para algumas mulheres e mesmo assim tentavam colocar a todas naquele molde. Ela era criativa, mas tinha que ser de números. Ela sonhava, mas tinha que estar estancada na realidade. Ela queria voar, mas precisava plantar raízes no chão.

Pouco a pouco Elisa foi morrendo, cortada completamente por qualquer iniciativa que ficava entranhada nas paredes daquela casa. O seu quarto, um refúgio onde ela podia se expressar, onde ela podia sentir, foi invadido por exércitos que lhe obrigavam a ser aquela boa menina até lá. Um exército em forma de homem, em forma de opressão, em forma de uma quebra de espaço contínuo, uma quebra de ambiente, uma quebra de controle e de culpabilização de um estorvo. Ela não estava nem tentando, então como poderia conseguir? Elisa nunca seria o suficiente.

O seu refúgio se tornou o banheiro, um lugar fechado onde ela poderia se trancar com a chave que ainda tinha. Depois o refúgio se tornou o computador, onde ela poderia fingir que estava desaparecendo, colocar seus fones de ouvido e ir para outro mundo. Procurar outros universos para estar, enquanto não queria lembrar do que lhe afligia exatamente aqui, exatamente nesse mesmo local onde lhe infligiam dor. Do computador, seu refúgio sumiu para outras pequenas coisas que sempre eram tiradas dela. Afinal, Elisa quebrou e só conseguiu se consertar anos depois.

Depois de sair daquela casa.

Agora, toda vestida de preto, um velório amargo ela frequentava. Velório do pai, daquele que tinha lhe causado tanto mal, daquele que ela tinha prometido nunca mais olhar nos olhos de novo. Todos dentro da sala viam a menina sentada no balanço, do lado de fora, e se perguntavam porque ela estava lá ao relento. Pegaria uma gripe. Ficaria doente. Ela não queria prestar as homenagens ao seu pai? Não sentia dor? Ela não tinha luto? Elisa não sentia nada. Há muito tempo que ela não sentia absolutamente nada. Só um vazio que tentava preencher com as estrelas acima da sua cabeça.

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Sobre Priscilla Binato

Uma carioca de coração, 21 anos completos em janeiro e gateira como profissão (ou ao menos um sonho). Estudo jornalismo e estou quase me formando, mas tenho aspiração de escrever como profissão. Detesto sushi, pizza, Senhor dos Anéis, Game of Thrones e muita coisa que todo mundo acha legal, to nem aqui. Sou lufana de coração e de alma, 100%, além de feminista, assexual e chata do rolê.