Estrada para dentro – Editorial #38


Texto: Lorena Pimentel // Arte: Luísa Granato

Eu não leio como fuga.

Eu costumava, é verdade, usar a leitura como escape. Eu costumava escolher histórias fantásticas de bruxos ou monstros que me tiravam da realidade. Escolhia thrillers policiais que me tiravam da rotina. Ou era o que eu pensava que estava fazendo, se estamos sendo honestos. Porque a verdade é que a leitura não é meu escape.

Nada do meu consumo de mídia e cultura é simplesmente um escape. Algo me diz que do seu também não. Quando eu consumo histórias, não importa seu formato, a questão é que elas fazem com que eu lide melhor com meus pensamentos. As histórias fantásticas me faziam pensar sobre amizades que eu queria ter e os thrillers eram parte de uma necessidade de consumir conteúdo amarrado quando na vida real as coisas não fazem muito sentido.

A escolha por um livro que fale de saúde mental tem mais a ver com a necessidade de entender como me sinto do que escapar disso. A escolha por romances não é porque eu quero escapar da minha realidade, mas porque gosto de observar a do outro. Escutar um audiobook ou podcast de storytelling enquanto faço meu trajeto de ônibus é uma forma de me conectar com histórias que me atingem em um momento que normalmente passaria olhando para o além, sem pensar em nada. As pessoas também podem buscar por representatividade e se ligarem a personagens de séries.

Histórias são uma forma de conexão. Quando as encontramos, quando notamos que algo nos atinge em especial, é porque aquilo tem algo a ver com nós mesmos. Não é sobre fugir da realidade. É sobre fugir para dentro de alguns aspectos dela e nos deixar ver aquilo com a profundidade que merece.

 

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@lorebpv) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.