Estrada de terra


Quando aprendemos sobre as Grandes Navegações da Idade Moderna, estudamos várias rotas dos exploradores rumo ao Oceano Pacífico. Uma delas, ao chegar à costa da atual Libéria, mais ou menos, fazia um desvio para longe do continente, tomando um caminho que parece muito mais longo. Só que não: este afastamento permitia às naus ficarem isentas de tormentas mais intensas que aconteciam próximas à terra firme, e assim, em mar calmo, terminar a travessia em muito menos tempo e com riscos diminuídos.

Esta é uma boa metáfora para caminhos na vida e seus desvios. Muitas vezes a gente tem planos tão certos que quando tudo desmorona é como se o chão cedesse. Aconteceu comigo, e também deve ter acontecido com você. Como navegantes, temos bússola e astrolábio para ler estrelas e encontrar as respostas necessárias.

Estes instrumentos estão dentro e nós e nem sempre é indolor encontrá-los e fazê-los funcionar. Para mim tem sido um pouco sofrido, mas de modo análogo à dor que sentimos ao curar uma articulação machucada com fisioterapia. A provação menor, necessária para enfrentar o processo de cura e resoluções na vida. Não é agradável, mas, voltando para as Grandes Navegações, Mensagem: “Para passar além do Bojador, há que passar além da dor”.

“Sem o caminhante não há caminho”, mover-se é preciso, ignorar direções pré-estabelecidas, mais ainda. Nunca me vi como uma pessoa corajosa, mas agora reconheço e tomo para mim essa característica. Não sou a típica pessoa destemida que embarca em aventuras de cabeça, mais minha bravura reside em não me submeter. Em traçar o caminho que for preciso para ser uma pessoa íntegra e feliz, sacudindo toda poeira das coisas que com o tempo deixam de servir, ajustando os desejos para as coisas que vão mudando, porque estar vivo é isso. Parece com a virada olímpica da natação: gira-se o corpo de cabeça para baixo numa cambalhota para ganhar velocidade de impulso; não é muito confortável aprender, mas depois que se assimila

Não tem sido fácil, porque grande parte da vida adulta em seus aspectos exige encenações e disfarces para passar a imagem de pessoa bem ajustada, mas é preciso saber por limites nisso e não deixar de ser quem se é para não “passar uma imagem errada”.

Eu mesma já caí na armadilha da encenação mantendo namoros em que não tinha vínculo algum com meus parceiros. Ou quando REALMENTE tentei para de escrever literatura e me tornar uma pessoa completamente voltada ao estudo do direito. Mas quer saber? Ser menos autêntica só trouxe infelicidade para mim, e as pessoas que gostam de mim e me admiram gostam exatamente do que eu pensava ser “errado” ou “inadequado”. A lição: uma aparência de praticidade e resolução pode até tranquilizar os outros, mas dentro de si você agoniza e mata seu espírito aos poucos, com golpes fortes. Não compensa. De forma alguma. Podem me chamar de excêntrica, de lunática, mas eu estou aprendendo a amar ser assim.

Profissionalmente eu também recusei o caminho “formar-em-direito-estudar-para-concurso”: eu quero experimentar as possibilidades como advogada, pesquisadora e professora antes disso, rompendo com muitas expectativas ao meu redor, que tinham em conta que eu seria juíza antes dos trinta anos. Sinto decepcionar, mas não, vou pegar a estradinha vicinal na vida, e não a BR. Minha motivação está em mim sentir plena, e só consigo fazer isto criando e consumindo beleza.

Nunca acreditei em autoajuda, textos que pregam a onipotência pela força de vontade. Sempre pensei que é melhor recuar, avaliar, aprender a conviver com percalços e abandonar alguns sonhos e planos no caminho para dar lugar a outros, que tragam mais felicidade, mais plenitude. Milagres nem sempre são necessários, dinamismo até nos sonhos: São Judas Tadeu, um dos meus santos favoritos, é patrono das causas perdidas e seu poder está em mostrar novas direções depois das perdas inevitáveis; alguns entendem isso como conformismo, enquanto eu vejo como criatividade e amor à vida. E se por um lado não escolhemos exatamente ser quem somos, está em nosso poder ser o melhor que pudermos.

 

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Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de "realidade": estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.