Estilo de narrativa: O romance epistolar


Já que o tema da segunda edição é correspondência, resolvemos falar um pouco sobre as narrativas que se baseiam nesse ato de se corresponder. Os chamados romances epistolares contam sua história através de trocas de cartas. O que será que podemos esperar de diferente nesse estilo de escrita?

É sempre um tanto envolvente entrar em contato com livros que saiam um pouco do comum. Uma obra que nos traz uma narrativa em forma de cartas não é em terceira pessoa e tampouco somente em primeira: é em primeira pessoa com o adicional de um receptor estabelecido. Quem conta algo conta a alguém. Seja esse alguém um outro personagem citado, algum personagem oculto, vários personagens diferentes ou até mesmo você, o fato é que o narrador está sempre se dirigindo a alguém; contando tudo o que quer diretamente para alguma pessoa. Vamos aos exemplos.

Lionel Shriver, utilizando-se desse estilo, fez um trabalho brilhante no famoso Precisamos falar sobre o Kevin. Em um livro de quase 500 páginas, a autora amarra facilmente o leitor com a tamanha propriedade com que a personagem Eva conta toda a história de Kevin, seu filho, através de cartas para seu marido, pai do garoto. Todas as cartas são dela para o pai. Não existem respostas, nem explicações adicionais, nem cartas para outras pessoas. O leitor se torna um mero espectador da história da família, sem deixar de entrar no drama e ter certeza de que essas cartas realmente precisavam ser enviadas.

Outro exemplo significante é o trabalho de Stephen Chbosky em seu As vantagens de ser invisível, livro cujo boom caminhou lado a lado com o de A Culpa é das Estrelas em 2012. Assim como em Precisamos falar sobre o Kevin, todas as cartas vem de um lado só. Nunca entramos em contato com as respostas – e nem sentimos necessidade. No caso de As vantagens, o receptor não é diretamente revelado, e como ele sempre escreve as cartas para um amigo, não é difícil se colocar no lugar desse amigo e se sentir o próprio destinatário das cartas do protagonista Charlie.
Dá pra falar rapidamente também de Claros sinais de loucura, da Karen Harrigton, que não é inteiramente de cartas, mas é uma obra em que elas têm total importância. Neste livro, a protagonista e narradora Sarah Nelson fala da sua vida ao leitor, intercalando com cartas que escreve a um personagem do livro O Sol é para todos. Como trabalho de escola, o professor pede que os alunos escolham um personagem de um livro que gostem bastante para que se comuniquem com ele, e é também através dessas cartas que Sarah nos revela seus dramas. A opção de Karen se torna atrativa pelo fato de que muitos que entram em contato com essa história já têm a chance de carregarem o receptor das cartas em seu próprio repertório e, com isso, agregar ainda mais à leitura. Do modo reverso, os leitores que não conhecerem o personagem podem também se interessar pelo clássico citado e expandir seus horizontes de leitura.

Mudando das cartas para os e-mails, Meg Cabot, na série Garotos nos apresenta os divertidíssimos O Garoto da Casa ao LadoGarota Encontra Garoto e Todo Garoto Tem. Nesses nem existe apenas um escritor e um receptor: a correspondência vem de tudo quanto é lado. Em um deles, inclusive, o e-mail é corporativo e até o chefe da pitaco na história, mandando a galera parar de conversar e fazer logo o trabalho. Novamente os leitores são convidados apenas a observar a conversa alheia – e não deixam de se divertir muito com isso.

Nesses quatro exemplos podemos perceber escolhas diferentes de narrativa, e de certa forma, dentro do mesmo estilo. Isso deixa claro que optar por escrever um romance em forma de cartas (ou utilizando-os como complementação) permite muita exploração diferenciada. Cartas entre amigos, cartas com respostas, cartas que vem só de um lado, cartas para personagens que conhecemos, para personalidades que conhecemos… Cada uma dessas possibilidades traz um tom diferente para a leitura, o que torna tudo muito mais interessante.

No fim das contas, já que na ficção tá liberado especular a troca de cartas alheia (ou até mesmo ser o receptor delas!) nossa dica é aproveitar esse estilo de narrativa o máximo que você conseguir e criar sua própria percepção dessa correspondência toda. Já leu algo do tipo? Curtiu? Conte pra gente suas opiniões!

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Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.