Estação Onze, de Emily St. John Mandel


Texto: Fernanda Menegotto // Arte: Marília Pagotto

Por Milena Martins e Rovena NZ, com ilustração de Marília Pagotto

Sabe quando você termina de ler um livro e se pergunta por que você demorou tanto para ler essa maravilha? Pois é, é essa a sensação que dá quando você fecha Estação Onze, quarto romance da autora canadense Emily St. John Mandel, publicado no Brasil pela Intrínseca. O livro venceu o Arthur C. Clark Award, e vamos combinar que ele mereceu.

A história tem início em uma noite normal de inverno em Toronto, no Canadá. A única tragédia aparente era a morte de um famoso ator de Hollywood. Até que os hospitais começaram a receber pacientes com uma nova doença, e dessa vez a taxa de mortalidade era de 99%. A Gripe da Geórgia dizimou a população mundial e os poucos que conseguiram sobreviver se viram em um mundo completamente diferente. Eles não podiam mais se locomover com carros ou aviões porque o combustível acabou; não havia mais luz, internet, música e filmes. O que restou foram as lembranças de um passado não tão distante. Vinte anos depois da grande epidemia, acompanhamos a vida e história de seis desses sobreviventes e da Sinfonia Itinerante, que percorre o mundo restante reencenando Shakespeare.

No primeiro capítulo já somos apresentados a algumas das personagens que fazem parte da trama. Arthur, o famoso ator de Hollywood, termina a sua carreira de forma trágica dos palcos de Toronto; Jeevan, um ex-paparazzi que agora estuda para ser um paramédico; e Kirsten, uma jovem atriz que terá para sempre essa noite marcada em sua memória. Além deles, nós também conhecemos Miranda, a primeira ex-esposa de Arthur; Clark, amigo de Arthur; e uma pessoa que se chama de “Profeta”.

Cada capítulo foca em um ou dois personagens e através deles temos informações do velho e do novo mundo, cada um mostrando como enxerga essa nova era e quais são as dificuldades enfrentadas.

É assim que a história pega qualquer desavisado de surpresa. Um noite comum em uma cidade comum em um mundo que achamos tão comum que passamos a não prestar atenção. E então o livro se revela uma distopia no sentido mais fiel da palavra. O mundo pós-Gripe da Geórgia é tudo que precisamos para encarar de frente aquele em que vivemos hoje. É justamente a ausência de cada elemento tão comum no nosso cotidiano que evidencia nossas dependências coletivas, nossas carências disfarçadas, nossos sintomas enquanto civilização.

A naturalidade com que as coisas somem da vida dos sobreviventes é um dos fatores mais assustadores. Dois personagens se escondem em um apartamento no alto de um prédio residencial e começam a perder as esperanças cada vez que perdem um dos confortos tão comuns: primeiro a energia elétrica, depois o abastecimento de água, por fim a comida estocada. Era tudo tão fácil há apenas alguns dias.

Depois de um salto temporal, o leitor consegue enxergar seu presente através de uma distância ainda maior. Vinte anos depois, os sobreviventes perambulam pelo que antes foram países, estados e cidades, tentando resgatar o máximo que podem sobre o velho mundo. É então que podemos imaginar qual seria a importância de Shakespeare em uma realidade onde a sobrevivência é sempre a maior questão. Há também o Museu da Civilização, uma das sacadas mais perturbadoras do livro. É tão fácil andar pelos corredores de museus repletos de roupas antigas, artefatos desconhecidos do cotidiano de outros tempos, os primeiros carros e aviões. Mas qual é a sensação de entrar em um museu onde uma das principais atrações – aquela que deixa todos maravilhados – é um iPhone? É tão banal apertar uma série de botões em um aparelho e ser capaz de se comunicar com pessoas em quase todas as partes do globo. Mas e se isso tudo sumisse?

Além do iPhone, é interessante ver a reação dos sobreviventes à Sinfonia. O que, para nós, poderia ser uma coisa normal e até mesmo um pouco chata, para aquelas pessoas que estão espalhadas no que restou das cidades, a Sinfonia é tudo: felicidade, amor, distração e uma lembrança do que ficou para trás. Para alguns, é até uma novidade, já que no Ano Vinte muitos nem conhecem os textos que são representados ou as músicas que são tocadas. Para eles, a chegada da Sinfonia era um grande espetáculo e a sensação era de puro prazer. Sem contar que é simplesmente incrível ver um grupo de artistas levando diversão para as outras pessoas enquanto eles mesmos tentam sobreviver nesse novo mundo.

Contemplei meu lar defeituoso e tentei esquecer a doçura da vida na Terra.

Ilustração: Marília Pagotto. Uma das relíquias do mundo de Estação Onze é uma história em quadrinhos sobre um homem, Dr. Onze, que não consegue voltar para a terra. A Marília idealizou um pouco dessa história incrível que nunca existiu de verdade a não ser pelas palavras em prosa da autora

Distopias estão em alta. Tão comuns que várias vezes em que indiquei Estação Onze para alguém, recebi um olhar de desconfiança. Ninguém mais quer imaginar um mundo pós-apocalíptico. Parece que já vimos de tudo. Mas não é bem por aí. Estação Onze oferece uma olhada sorrateira e assustadora sobre o nosso presente. São as nossas fragilidades mais básicas que nos encaram nessas páginas. E não é isso que se espera de uma distopia? A sutileza necessária para escancarar, através de um mundo distante, aquilo que está bem debaixo do nosso nariz?

Estação Onze tem vários momentos pesados, capazes de te fazer derramar uma lágrima ou duas, mas essa é a beleza desse livro. É o fazer pensar e sentir, é o sentimento de desespero e insegurança. É simplesmente não saber o que está por vir. É deixar o leitor com aquela ideia martelando na cabeça: e se isso acontecesse de verdade com o mundo?

O final é surpreendente e um pouco esperançoso. E para descobrir sobre o que estamos falando, você precisar parar o que está fazendo e ler esse livro. Você vai se apaixonar, isso nós garantimos.

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  • Acabei de fechar o livro neste exato momento. Foi uma leitura deliciosa! De fato, a história é lindíssima e nos faz pensar em todas as facilidades que temos em nossas vidas e questionar o que seria de nós se de repente todas essas facilidades desaparecessem. Não sabemos nem fazer sabão para nos lavar! Coisas banais, simples e tão necessárias…! O livro me levou a tantos questionamentos que em dado momento a ideia de sobreviver a um mundo distópico me incomodou.
    Só teve uma coisa que eu não curti no livro: a falta de linearidade. Eu queria saber muito mais do mundo pós-gripe, e no entanto a narrativa era sempre quebrada por relatos da vida pessoal do Arthur. Fiquei querendo saber mais sobre a cidade com eletricidade, sobre o que havia acontecido nos outros países… e Talvez tivesse sido possível a autora escrever mais sobre isso se não tivesse voltado taaaanto ao passado. De qualquer forma, é um livro que eu adorei, recomendo e com certeza lerei novamente algum dia!